Segunda-feira, 19 de Maio de 2008

Cais das codornizes (XIII)

Hoje é o dia por que esperamos desde Janeiro - o do concerto de Moustaki no CCB! Dizem as 'más línguas' que está velho e canta mais devagar, mas acreditamos que conservará toda a magia das suas músicas! Passado um fim-de-semana a recordar as músicas da nossa vida, entre viagens para aqui e para ali, hoje vai ser ao vivo, um reviver em gestos, em olhares, um poeta de cumplicidades, de fins de tarde espalhados pelas viagens ou em terraços altos nos fins-de-semana. Esperamo-lo vivo, enérgico e com aquela voz a que nos habituou, num concerto que nos vai ficar a pairar na memória por muitos anos. O Cais recorda o concerto no Olympia, em 2000, e o codornizes o do Dejazet, em 1987, com a música Il est trop tard. Mas nunca é tarde para ouvir Georges!


Quanta Luz!

Praia da Luz, 11 de Maio (foto da Rosarinho)

Quantas cores será possível divisar neste mar chão? Quantas nos veios da montanha cuja erosão acompanhamos, ano após ano, nos passeios até à Rocha Negra, como quem se espanta com o crescimento de uma criança ou de uma palmeira? Quantas pedras tem a Calçada dos Gigantes que nessas andanças atravessamos, analisando o gume afiado das que caíram, perfeitamente paralelepipédicas, desde a última vez que por aqui passámos? Quantos sustos, quantas ondas, ao aventurarmo-nos por aqui na maré alta? Quantos caçadores de tesouros terá comido o Dragão que habita - e ouvimos - na Cova homónima? Quantos windsurfers e esquiadores? Quantos chapões? Quantos barquinhos vindos da Ponta da Piedade, quantos da Ponta da Gaivota e, para lá desta, quantos pôres-do-sol de quantos tons e temperaturas? Quantas toalhas perdi, quantos pares de chinelos? Quantos primos estarão connosco nestas férias? Quantos tios? Quantos engates na pista do Privé, ao balcão do Mirage ou através da sebe do jardim? Quantos poemas começados, quantos mostrados à Avó Gina, sentada a ver o mar? Quantas tâmaras caídas da palmeira grande, que já não está, quantas abelhas me picaram o pé por lhes ter pisado o doce manjar? Quantas formigas numa flor de hibisco? Quantas folhas da árvore da borracha, quantos picos nos cactos, quantas braçadeiras rotas pelo espigão de uma piteira? Quantas cerimónias de abertura e encerramento de Jogos Olímpicos, Europeus e Mundiais de Futebol? Quantas amizades efémeras ou não tanto? Quantas partidas de ténis no Luz Bay, quantas de snooker nos cafés atrás de casa, quantas de Trivial Pursuit até ser dia? Quantas discussões sobre quem vai despejar o lixo? Quantas lágrimas e zangas muito mais sérias? Quantas gargalhadas ao recordá-las no ano seguinte? Quantos trouxe cá pela primeira vez? Quantos quero me venham comigo até à última? Quantas horas (três, ainda?!) para o Baptista abrir, que os miúdos já acordaram e alguém tem de ir ao pão? Quantos bolos quentes depois da noite? Quantos "repimpas" comprados na loja da praia, quantas pulseiras fanadas das banquinhas, quantos barcos a remos que não duravam mais de um Verão? Quantos filmes da tanga no cine-estúdio? Quantas doses de cogumelos no Golfinho, quantas churrascadas com a mestria assegurada do Pai, quantos jantares nas várias casas do nosso "comboio", por vezes com o mesmo elenco? Quantos mergulhos à socapa na piscina do senhor Simão? Quantos peixinhos no anzol do Zé Pedro? Quantas conversas com a Maria? Quantos habitantes na cidade em miniatura que o vento esculpiu na pedra? Quantas revistas cor-de-rosa no Capricho, quantos jantares na Concha ou no Poço (e nós a aguar, tomem lá uma nota e vão aos hambúrgueres)? Quantos peixes no mercado de Lagos? Quantas tartes de alfarroba? Quantas gotas de Otoceril, Sofia, que este ouvido dói cada vez mais? Quantos polvos na Baía dos ditos? Quantos anos mais, Dona Hermínia, já com mais de 80 e ainda tão lesta? Quantas amêijoas em Castelejo e mexilhões no velho Rocha Negra? Quantos filhos já, Dora? Quantos cocktails esquisitos trazidos pela Célia do Internacional? Quantos cães no pátio de baixo, de que o Leão e o Baco eram os mais lindos? Quantos bifes bêbados, quantos de nós? Quantos mergulhos no Poção? Quantos escaldões, quantos cremes no saco de praia da Mãe? Quantas palavras cruzadas, sudokus e kakuros? Quantas melodias no assobio do Baltazar, a regar a relva pela manhã? Quantas nos altifalantes da Fortaleza? Quantas nas cordas dos violinistas que actuam na Igreja? Quantas melgas mortas no tecto até podermos ir dormir? Quantas amonas? Quantas guitarradas? Quantos cabem na ilha insuflável? Quantos pés de escalracho no jardim, quantos nomes gravados na rocha amarela, quantos metros irão desta até à areia na nossa prainha, que ora há ora não há?

Quinta-feira, 15 de Maio de 2008

O codornizes é um blogue apaixonante

É a opinião da Mateso e, como entendem, não vou contestar, apenas aceitar com um sorriso indisfarçado. Vindo de um blogue como o aArtmus (de que já vos falei), o prémio deixou-me muito feliz. Não só pelo gesto como pela linda imagem que o materializa. O reverso da medalha é, obviamente, ter de escolher seis a quem passar o galardão, criado pelo blogue Infinito Particular. Vamos lá, então... por onde passa a paixão na minha blogosfera particular? Olha, em vez de seis saíram oito!

Como não? Além do óbvio, adora Roy Lichtenstein e é loirinha...

Merecia-o só pelos "Até amanhãs" que cantam, mas por tanto mais...

Por certos gestos e pelo fogo que arde abaixo do Equador...

Falabarata tcl
Valem-no traineiras, avós, caligrafia e I love you numa guitarra...

Porta do Vento Ana V.
Porque nada ali é evidente e pelos textos do Psb...

Pelas toneladas de música. E pelas paixões que me faz reviver...

Palavras ao mesmo tempo sábias e inocentes. E tão lindas, céus!...

Sonhar é sempre apaixonante. E as histórias que ela conta!...

Quarta-feira, 14 de Maio de 2008

Then again...


Também podias ter sido tu.

Mas lá que era para mim...

Os nossos amores

Isto é para uma amiga que vive longe. Estivemos a falar de amores. Do meu e do dela. E do trabalho que dão. E da força que têm. E do bem que nos fazem. E dos passados que varremos para debaixo do tapete. E daqueles que guardamos no bolso, só para podermos pôr a mão e sentir que continuam lá, no momento em que as comissuras dos lábios ameaçam curvar-se no sentido descendente (travão às quatro rodas, marcha-atrás, sorriso reposto!). E das palavras que o presente nos obriga a dizer. E de como ele nos silencia perante as maravilhas da vida. E dos futuros que construímos em nuvens brancas acasteladas por cima do mar. Com vista para o Sol, sem que nos queime, mas por ele aconchegados. Fazendo minhas as tuas palavras, miúda a valer, promete-me que vais continuar a acreditar! Há jeitos mansos que só a pessoa certa sabe ter...

Chico Buarque, O meu amor

The night we made contact


Eras tu, não eras?

E foi para mim, não foi?

Terça-feira, 13 de Maio de 2008

Baú das codornizes (IX)


Genérico de Tom Sawyer

Não sei quantas vezes cantei esta canção. Passou muito tempo entre a primeira e a mais recente, que é como quem diz entre ter visto estes deliciosos desenhos animados na RTP2 - sobretudo em casa da minha Tia Amelinha - e tê-la trauteado, há dias, num serão divertido. Muitos anos depois da estreia, o genérico de Tom Sawyer tornou-se o hino oficial dos banhos de fim de tarde no Baleal. Guiados pelo inigualável PTD, um grupo de miúdos de todas as idades desafiava as ondas e a brisa fresquíssima do poente, entoando em uníssono estas estrofes sobre aventura, camaradagem, sonhos e emoções. Confiança e coragem eram conceitos que não havia razão para pôr em causa. A saída do mar, com o sol posto e o tempo contadíssimo para irmos tomar banho e pôr-nos bonitos para o jantar, era feita ao som desta outro canto. Tão diferente e tão igual ao anterior.


Zeca Afonso, Canto moço

Sexta-feira, 9 de Maio de 2008

No sorriso louco das mães batem as leves / gotas de chuva

Na recta final da semana, cortamos a meta das comemorações do Dia da Mãe no codornizes. E a encabeçar a entrada, o verso inicial do poema Herberto Hélder, que usámos para dar o tiro de partida. Os quadros da exposição de hoje são de Mary Cassatt (1844-1926), uma americana amiga de Degas que expôs com os impressionistas de Paris. Não era, nem por sombras, tão ecléctica como Picasso. As mães que pintou não são, é evidente, as do nosso tempo. Mas soube retratar a maternidade com ternura e doçura. Terno e doce é, sem dúvida, esse milagre de que apresentámos visões femininas e masculinas. O maravilhoso e indizível milagre de se se Mãe. E Pai também, claro...


















O voo da codorniz com Google Earth (XXIV)

Chelsea, Londres, Inglaterra

Contei hoje a um amigo uma história que passa por este bairro londrino, muito posh e vitoriano. Gosto de andar a pé pelas ruas de Chelsea, sob chuva miudinha, a ver qual dos telhados em bico chega primeiro ao céu. São fileiras de casas de tijolo vermelho, esbeltas e alinhadinhas, alternando com travessas que parecem as vilas que ainda restam em Lisboa. De Knightsbridge até ao Tamisa - onde um dia deixei cair um boné -, hei-de repetir a passeata um destes dias. Até lá, consolo-me com palavras do poeta-poetinha.


A última elegia (V), de Vinícius de Moraes
(Londres, 1939)









Greenish, newish roofs of Chelsea
Onde, merencórios, toutinegram rouxinóis
Forlornando baladas para nunca mais!
Ó imortal landscape

no anticlímax da aurora!
ô joy for ever!

Na hora da nossa morte et nunc et semper
Na minha vida em lágrimas!


uer ar iú

Ó fenesuites, calmo atlas do fog
Impassévido devorador das esterlúridas?
Darling, darkling I listen...

"... it is, my soul, it is

Her gracious self..."

murmura adormecida

É meu nome!...

sou eu, sou eu, Nabucodonosor!

Motionless I climb

the wa
t
e
r
Am I p a Spider?
Am I p a Mirror?
e
Am I s an X Ray?


No, I'm the Three Musketeers

rolled in a Romeo.
Vírus

Da alta e irreal paixão subindo as veias
Com que chegar ao coração da amiga.

Alas, celua

Me iluminou, celua me iludiu cantando
The songs of Los; e agora

meus passos
são gatos

Comendo o tempo em tuas cornijas
Em lúridas, muito lúridas
Aventuras do amor mediúnico e miaugente...
So I came

- from the dark bull-like tower
fantomática

Que à noite bimbalha bimbalalões de badaladas
Nos bem-bons da morte e ruge menstruosamente sádica
A sua sede de amor; so I came
De Menaipa para Forox, do rio ao mar - e onde
Um dia assassinei um cadáver aceso
Velado pelas seis bocas, pelos doze olhos, pelos centevinte dedos espalmados
Dos primeiros padres do mundo; so I came
For everlong that everlast - e deixa-me cantá-lo
A voz morna da retardosa rosa
Mornful and Beátrix
Obstétrix
Poésia.

Dost thou remember, dark love
Made in London, celua, celua nostra
Mais linda que mare nostrum?

quando early morn'

Eu vinha impressentido, like the shadow of a cloud
Crepitante ainda nos aromas emolientes de Christ Church meadows
Frio como uma coluna dos cloisters de Magdalen
Queimar-me à luz translúcida de Chelsea?
Fear love...

ô brisa do Tâmisa, ô ponte de Waterloo, ô

Roofs of Chelsea, ô proctors, ô preposterous
Symbols of my eagerness!

- terror no espaço!

- silêncio nos graveyards!

- fome dos braços teus!

Só Deus me escuta andar...

- ando sobre o coração de Deus

Em meio à flora gótica... step, step along
Along the High... "I don't fear anything
But the ghost of Oscar Wilde..." …ô darlingest
I feared... A ESTAÇÃO DE TRENS... I had to post-pone
All my souvenirs! there was always a bowler-hat
Or a POLICEMAN around, a streched one, a mighty
Goya, looking sort of put upon, cuja passada de cautchu
Era para mim como o bater do coração do silêncio (I used
To eat all the chocolates from the one-penny-machine
Just to look natural; it seemed to me que não era eu
Any more, era Jack the Ripper being hunted) e suddenly
Tudo ficava restful and worm... - o sííííííííí
Lvo da Locomotiva - leitmotiv - locomovendo-se
Through the Ballad of READING Gaol até a vísão de
PADDINGTON (quem foste tu tão grande
Para alevantares aos amanhecentes céus de amor
Os nervos de aço de Vercingetórix?). Eu olharia risonho
A Rosa-dos-Ventos. S. W. Loeste! no dédalo
Se acalentaria uma loenda de amigo: "I wish, I wish
I were asleep". Quoth I: - Ô squire
Please, à Estrada do Rei, na Casa do Pequeno Cisne
Room twenty four! ô squire, quick, before
My heart turns to whatever whatsoever sore!
Há um grande aluamento de microerosíferos
Em mim! ô squire, art thou in love? dost thou
Believe in pregnancy, kindly tell me? ô
Squire, quick, before alva turns to electra
For ever, ever more! give thy horses
Gasoline galore, but do take me to my maid
Minha garota - Lenore!
Quoth the driver: - Right you are, sir.

*

O roofs of Chelsea!
Encantados roofs, multicolores, briques, bridges, brumas
Da aurora em Chelsea! ô melancholy!
"I wish, I wish I were asleep..." but the morning
Rises, o perfume da madrugada em Londres
Makes me fluid... darling, darling, acorda, escuta
Amanheceu, não durmas... o bálsamo do sono
Fechou-te as pálpebras de azul... Victoria & Albert resplende
Para o teu despertar; ô darling, vem amar
À luz de Chelsea! não ouves o rouxinol cantar em Central Park?
Não ouves resvalar no rio, sob os chorões, o leve batel
Que Bilac deitou à correnteza para eu te passear? não sentes
O vento brando e macio nos mahoganies? the leaves of brown
Came thumbling down, remember?
"Escrevi dez canções...

... escrevi um soneto...

... escrevi uma elegia..."

Ô darlíng, acorda, give me thy eyes of brown, vamos fugir
Para a Inglaterra?

"... escrevi um soneto...

... escrevi uma carta..."

Ô darling, vamos fugir para a Inglaterra?

..."que irão pensar

Os quatro cavaleiros do Apocalipse..."

"... escrevi uma ode..."

Ô darling!

Ô PAVEMENTS!

Ô roofs of Chelsea!

Encantados roofs, noble pavements, cheerful pubs, delicatessen
Crumpets, a glass of bitter, cap and gown... - don't cry, don't cry!
Nothing is lost, I'll come again, next week, I promise thee...
Be still, don't cry...

... don't cry

... don't cry

RESOUND

Ye pavements!

- até que a morte nos separe

ó brisas do Tâmisa, farfalhai!

Ó telhados de Chelsea,

amanhecei!

Quinta-feira, 8 de Maio de 2008

E as mães / aproximam-se, soprando os dedos frios

Mais um beijo a cada mãe deste mundo. O poeta lançou o mote e o codornizes pôs-se a mostrar sorrisos e lágrimas de filhos e progenitoras. Vistos por mulheres, vistos por homens e, hoje, vistos por um homem que as soube retratar de modo tão notável quanto diverso. Eis a maternidade vista por Pablo Picasso. Só é pena que, não obstante a beleza destas imagens, o artista sempre tenha sido uma besta com as mulheres que se lhe cruzaram no caminho.









Baú das codornizes (VIII)

Não há duas sem três. Aos presentes da Sofia e do Manel seguiu-se um da Teresa. Chegou em versão áudio, por e-mail, e fez-me ir procurar o vídeo para pôr aqui. A oferenda tocou-me especialmente. Cantei esta música vezes sem fim, na terceira classe, no meu querido Queen Elizabeth's School. Aos três reis magos inusitados do mês de Maio, o meu muito obrigado!


Oom pah pah, do filme Oliver!, com Shani Wallis

Segundo presente do dia

Um filme gentilmente enviado pelo Manuel Teixeira. Vejam, que vale a pena. Não tem muita acção, mas a banda sonora é sublime!

ACTUALIZAÇÃO: Se não conseguirem abrir o vídeo, carreguem aqui.


Júlio Miguel e Lêninha, O filho do recluso

Merci, dame blonde


Barbara e Georges Moustaki, La dame brune

Chante encore au clair de la lune, je viens vers toi
Ta guitare, orgue de fortune, guide mes pas

Quarta-feira, 7 de Maio de 2008

E as calmas mães intrínsecas sentam-se / nas cabeças filiais

Guiados por Herberto, continuemos a homenagear essa bela instituição que é a mãe. Se ontem a vimos retratada por mulheres, é justo que hoje entreguemos a paleta e o pincel aos homens.

Alfredo Ramos Martínez

Bryce Brown

Fernando Botero

Gustav Klimt

Joan Miró

José de Almada Negreiros

Keith Haring

Maxim Gorki

Paul Gauguin

Ravi Varma

Sebastião Mendes

Pata Patunça com chapéu de passeio

Jemima Puddle-Duck, by Beatrix Potter
(Pata Patunça for a privileged few)

Pediste com jeitinho e, porque mereces, aqui a tens (e com um poema de bónus). Como tu, gosta de passear. Como tu, olha para tudo com muita atenção. Como tu, enternece-me.


Plumas, de José Tolentino de Mendonça
(in A estrada branca)

Através da terra o amor
torna-nos estranhos à terra
liga-nos a uma divina linhagem
com seu tormento inapagável
suas verdades enormes

O amor vive na ponta dos cabelos

O amor, ditam os frios de coração, é ruinoso
qualquer momento em chamas
denunciará a precisa inquietação que nos toma

Os inocentes que se amam dizem
teu corpo está a nevar
tua alma é uma flor
um prado tranquilo sua noite

Os inocentes que se amam
por seu tormento elevam-se
como plumas

num chapéu de passeio

Piscadela de olho depois do almoço

De ti não espero menos...
Boa sorte, prima!

Não sei se o cantor é santo do teu altar, mas sabes que é do meu. E, ainda por cima, uma das vozes que o acompanha é a minha. Foi no Coliseu dos Recreios, a 25 de Novembro de 1994 (há muito muito tempo / eras tu uma criança...).



Sérgio Godinho, O primeiro dia

pede-se o descanso por curto que seja
apagam-se dúvidas num mar de cerveja
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Minha Pátria é a Língua Portuguesa


MANIFESTO EM DEFESA DA LÍNGUA PORTUGUESA
CONTRA O ACORDO ORTOGRÁFICO

(Ao abrigo do disposto nos Artigos n.os 52.º da Constituição da República Portuguesa, 247.º a 249.º do Regimento da Assembleia da República, 1.º n.º. 1, 2.º n.º 1, 4.º, 5.º, 6.º e seguintes da Lei que regula o exercício do Direito de Petição)

Ex.mo Senhor Presidente da República Portuguesa
Ex.mo Senhor Presidente da Assembleia da República Portuguesa
Ex.mo Senhor Primeiro-Ministro

1 – O uso oral e escrito da língua portuguesa degradou-se a um ponto de aviltamento inaceitável, porque fere irremediavelmente a nossa identidade multissecular e o riquíssimo legado civilizacional e histórico que recebemos e nos cumpre transmitir aos vindouros. Por culpa dos que a falam e escrevem, em particular os meios de comunicação social; mas ao Estado incumbem as maiores responsabilidades porque desagregou o sistema educacional, hoje sem qualidade, nomeadamente impondo programas da disciplina de Português nos graus básico e secundário sem valor científico nem pedagógico e desprezando o valor da História.

Se queremos um Portugal condigno no difícil mundo de hoje, impõe-se que para o seu desenvolvimento sob todos os aspectos se ponha termo a esta situação com a maior urgência e lucidez.


2 – A agravar esta situação, sob o falso pretexto pedagógico de que a simplificação e uniformização linguística favoreceriam o combate ao analfabetismo (o que é historicamente errado) e estreitariam os laços culturais (nada o demonstra), lançou-se o chamado Acordo Ortográfico, pretendendo impor uma reforma da maneira de escrever mal concebida, desconchavada, sem critério de rigor, e nas suas prescrições atentatória da essência da língua e do nosso modelo de cultura. Reforma não só desnecessária mas perniciosa e de custos financeiros não calculados. Quando o que se impunha era recompor essa herança e enriquecê-la, atendendo ao princípio da diversidade, um dos vectores da União Europeia.

Lamenta-se que as entidades que assim se arrogam autoridade para manipular a língua (sem que para tal gozem de legitimidade ou tenham competência) não tenham ponderado cuidadosamente os pareceres científicos e técnicos, como, por exemplo, o do Prof. Doutor Óscar Lopes, e avancem atabalhoadamente sem consultar escritores, cientistas, historiadores e organizações de criação cultural e investigação científica. Não há uma instituição única que possa substituir-se a toda esta comunidade, e só ampla discussão pública poderia justificar a aprovação de orientações a sugerir aos povos de língua portuguesa.


3 – O Ministério da Educação, porque organiza os diferentes graus de ensino, adopta programas das matérias, forma os professores, não pode limitar-se a aceitar injunções sem legitimidade, baseadas em "acordos" mais do que contestáveis. Tem de assumir uma posição clara de respeito pelas correntes de pensamento que representam a continuidade de um património de tanto valor e para ele contribuam com o progresso da língua dentro dos padrões da lógica, da instrumentalidade e do bom gosto. Sem delongas deve repor o estudo da literatura portuguesa na sua dignidade formativa.

O Ministério da Cultura pode facilitar os encontros de escritores, linguistas, historiadores e outros criadores de cultura, e o trabalho de reflexão crítica e construtiva no sentido da maior eficácia instrumental e do aperfeiçoamento formal.


4 – O texto do chamado Acordo sofre de inúmeras imprecisões, erros e ambiguidades – não tem condições para servir de base a qualquer proposta normativa.

É inaceitável a supressão da acentuação, bem como das impropriamente chamadas consoantes "mudas" – muitas das quais se lêem ou têm valor etimológico indispensável à boa compreensão das palavras.

Não faz sentido o carácter facultativo que no texto do Acordo se prevê em numerosos casos, gerando-se a confusão.
Convém que se estudem regras claras para a integração das palavras de outras línguas dos PALOP, de Timor e de outras zonas do mundo onde se fala o Português, na grafia da língua portuguesa.

A transcrição de palavras de outras línguas e a sua eventual adaptação ao português devem fazer-se segundo as normas científicas internacionais (caso do árabe, por exemplo).

Recusamos deixar-nos enredar em jogos de interesses, que nada leva a crer de proveito para a língua portuguesa. Para o desenvolvimento civilizacional por que os nossos povos anseiam é imperativa a formação de ampla base cultural (e não apenas a erradicação do analfabetismo), solidamente assente na herança que nos coube e construída segundo as linhas mestras do pensamento científico e dos valores da cidadania.

Eu já assinei. Quem quiser aderir pode fazê-lo aqui.

Terça-feira, 6 de Maio de 2008

As mães são as mais altas coisas / que os filhos criam

Os comentários à entrada sobre o Dia da Mãe e uma ressurreição bloguística dão-me vontade de estender as comemorações ao longo de toda a semana. Sempre encimadas por versos do soberbo poema de Herberto Hélder. Vamos lá, então, com retratos da maternidade, todos eles feitos por mulheres.
Alice Neel
Beatrix Potter

Cathy Rositano

Frida Kahlo

Joséphine Houssay

Olga Boznańska

Paula Rego

Sofonisba Anguissola

Tamara Lempicka

Virginie (Elodie) Demont-Breton

Hoje disseram-me: Onde quer que me leves serei feliz

A uns sítios levei-te eu,

outros mostraste-mos tu.
E hoje, onde vamos?

Só para ti


The Rembrandts, genérico da série Friends

So no one told you life was gonna be this way
Your job's a joke, you're broke, your love life's D.O.A
It's like you're always stuck in second gear
When it hasn't been your day, your week, your month, or even your year
But...

I'll be there for you
(When the rain starts to pour)

I'll be there for you
(Like I've been there before)

I'll be there for you
('cause you're there for me too)

Para uma amiga que está triste. Sem perguntas, aqui vai uma migalhinha para alimentar o teu sorriso lindo.

Músicas que ficaram (VII e último)

A ordem alfabética concatena três colossos, chave de ouro para a série musical que a Martini inspirou há mais de dois meses. Temos vindo a divulgá-la a conta-gotas e, para quem não se lembra, o desafio era dizer que músicas nos marcaram na adolescência.

Abrimos o fecho com o concerto mais emblemático de Simon & Garfunkel. Quem não gostaria de ter lá estado? Devia ter 10 anos quando comecei a ouvir este álbum - em casa, em vinil; na rua, em cassete -, que teve o mérito de quebrar a hegemonia beatlesca que havia nas minhas playlists, sem contudo reduzir o apego aos Fab Four, bem entendido. Tive a sorte de ir a concertos de Tom and Jerry ao vivo e o azar de os ter aplaudido por separado. Vi Simon em Alvalade, em 1991, com ritmos brasileiros e africanos a apimentar músicas novas e velhas, e Garfunkel em 1997, no Coliseu, cheio de boa vontade e simpatia, mas a acusar a passagem dos anos. Para hoje, escolhi a minha música preferida deste duo. Sempre gostei de a cantar àqueles de quem gosto, em voz alta ou cá dentro.


The concert in Central Park, Simon and Garfunkel
(Bridge over troubled water)

Prossegue a última entrega com o Sir mais Sir da música da Velha Albion. Reginald Kenneth Dwight, o gajo dos óculos e do piano, que alguém comparou a Mozart, fazendo-me rir até ter visto isto. O homem é genial, vestido de Pato Donald ou com fatos do amigo Versace, em discos históricos como Goodbye Yellow Brick Road ou na banda sonora d'O Rei Leão, e não me importa que por ser fã dele me chamem piroso. Foi mais um dos que tive a sorte de ouvir ao vivo (Alvalade, 1992), num inesquecível Verão quente em que passei o resto das noites a ouvir a faixa que aqui vos deixo.


The very best of Elton John, Elton John
(I guess that's why they call it the blues)

Para o fim, o finzinho mesmo, ficaram os Guns. Quando apareceram, com o álbum duplo que me marcou (a outra capa era azulada), estava este vosso bloguista (e assim permanece) longe de ser o género de menino que deles gostava. Mas gostava. Pela música, não por sentimentos de pertença tribal. Ao ouvir as baladas destes tipos, irritava-me que os conotassem sempre com botas da tropa, moches e arruaceiros de cabelo comprido, por muito que a imagem seja justa. As outras faixas, mais mexidas e cheias de motherfuckers e kick your ass, divertiam-me. Cheguei a saber de cor o discurso hilariante que Axl Rose faz a meio do Get in the ring. Não vi esta malta em Alvalade, nos anos 90, mas vi-os no último Rock in Rio. Velhos, gordos, sem Slash, há dez anos a prometer novo disco sem cumprir, mas ainda assim os Guns 'n' Fuckin' Roses que os meus pais não suportavam no rádio do carro. Pulei, dancei e cantei. E abracei-me a quem de direito ao ouvir este tesouro.


Use your illusion I e II, Guns 'n' Roses
(Don't cry - versão original)

Finda a faena, aqui fica a lista dos álbuns e músicas que marcaram a minha juventude. Ou melhor, dos que o clima e o estado de alma me levaram a escolher no dia em que tal me foi sugerido. Hoje, poderia haver diferenças na lista. Mas nunca seriam de monta.

Abbey Road, The Beatles (Because)
Ainda, Madredeus (Guitarra)
Brothers in arms, Dire Straits (Your latest trick)
Chico e Caetano juntos e ao vivo, Chico Buarque
e Caetano Veloso (Você não entende nada)
Dia de concerto, Rio Grande (Queda do Império)
Filhos da madrugada cantam Zeca Afonso (Canto moço)
Greatest hits, Leonard Cohen (Suzanne)
Imitação da vida, Maria Bethânia (Meu amor é marinheiro)
Le meilleur de Herbert Pagani, Herbert
Pagani (Concerto pour Venise)
Live at Wembley '86, Queen (Bohemian rhapsody)
Moustaki au Dejazet, Georges Moustaki (Le métèque)
Out of time, REM (Losing my religion)
Pano-cru, Sérgio Godinho (Segundo andar direito)
Phados, Lula Pena (Fria claridade)
Próxima estación... Esperanza, Manu Chao (Me gustas tú)
Reggiani en public, Serge Reggiani (Sous le pont Mirabeau/Et puis)
São demais os perigos desta vida, Vinícius
e Toquinho (Regra três)
Sea airs, Rick Wakeman (The sailor's lament)
The concert in Central Park, Simon
and Garfunkel (Bridge over troubled water)
The very best of Elton John, Elton John
(I guess that's why they call it the blues)
Use your illusion I e II, Guns 'n' Roses
(Don't cry - versão original)

Segunda-feira, 5 de Maio de 2008

E as mães são cada vez mais belas

Ontem foi Dia da Mãe. É dos poucos Dias-disto-e-daquilo a que ligo (outro é este). Às que o já são há muito tempo e às que o vão ser em breve, deixo um beijo e um poema.