quinta-feira, 17 de julho de 2008

Que tudo esteja realmente no coração


Fáfá de Belém, Coração Aprendiz


O que se ensina a um coração aprendiz? Há quatro cavidades tão perfeitas que estremecemos perante o desafio de preenchê-las. A boca altera-se sem pensar, com os lábios a reproduzirem, no sentido ascendente, a curva do arco aórtico, que há-de conduzir ao resto do corpo o que escolhermos para recheio desse brinquedo de corda. Amor, talvez? Amor, decerto, e algo mais, a fazer tinir uma canção de embalar que dite o ritmo do seu batimento.

Imagem da Anatomia de Gray

António Gedeão, Poema do coração
Eu queria que o Amor estivesse realmente no coração,
e também a Bondade,
e a Sinceridade,
e tudo, e tudo o mais, tudo estivesse realmente no coração
Então poderia dizer-vos:
"Meus amados irmãos,
falo-vos do coração",
ou então:
"com o coração nas mãos".

Mas o meu coração é como o dos compêndios
Tem duas válvulas (a tricúspide e a mitral)
e os seus compartimentos (duas aurículas e dois ventrículos).
O sangue a circular contrai-os e distende-os
segundo a obrigação das leis dos movimentos.

Por vezes acontece
ver-se um homem, sem querer, com os lábios apertados
e uma lâmina baça e agreste, que endurece
a luz nos olhos em bisel cortados.
Parece então que o coração estremece.
Mas não.
Sabe-se, e muito bem, com fundamento prático,
que esse vento que sopra e ateia os incêndios,
é coisa do simpático.
Vem tudo nos compêndios.

Então meninos!
Vamos à lição!
Em quantas partes se divide o coração?

9 comentários:

M. disse...

esse poema agora é um dejavu. dos maus. desculpa. é a 1ªx que comento aqui no meu mood agridoce. não tenho culpa,suspiro.
como esta anossa menina, que nao me diz nada?
sempre vao ver o cohen?se sim digam-me, que estou sem companhia..
beijinho*

Pat disse...

A propósito de AMOR, vou deixar-te aqui um texto que gosto muito:

Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver AMOR, sou como um bronze que soa, ou como um címbalo que tine. E ainda que eu tivesse o dom da profecia e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e tivesse toda a fé, até ao ponto de transportar montanhas, se não tivesse AMOR, não seria nada. E, ainda que distribuísse todos os meus bens para sustento dos pobres, e entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tivesse AMOR, nada me aproveitaria.

Mais do que amar, é maravilhoso sentimo-nos amados. E eu sou uma mulher cheia de sorte! :D

Beijo grande!

Marta disse...

Ai que grande misturada! Anatomia de GrEy, Fafá de Belém (?)e o grande António Gedeão!
Será que o poeta gostaria de ser mencionado no mesmo post que a Fafá?
Ai o amor tem desta complicações, tem!
Fafá de Belém? Oh god :P

Vieira Calado disse...

A ciência ao serviço da poesia
e vice-versa.
Um abraço

ana v. disse...

Bonito, Huck. É a chamada "fusão", que até está muito na moda. :)
Beijo

pin gente disse...

o meu divide-se em N espaços... uns maiores, outros nmenores... e não há ciência que contradiga este facto.

abraço
luísa

Huckleberry Friend disse...

M'zinha, o que vale é que és sempre mais doce do que agri... olha, adorei ver-te e não fui o único. O Leonard já me mandou um sms a dizer que estavas mais linda do que a Suzanne e a Marianne juntas, terá sido da companhia? Um beijo, sister of mercy*

Pat, nem de propósito! É um texto lindo, que li no casamento da nossa prima Catucha. Está lá tudo, mesmo tudo. Continua a amar e a ser amada, que bem mereces. Beijos!

Marta, mantenho o Gray, com a. Porque foi ao compêndio de anatomia do século XIX e não à série televisiva do século XXI que fui buscar a imagem desta caixa toráxica na qual ressoam ritmos poéticos e musicais.
Não faço ideia, cara leitora, das opiniões que o poeta teria da cantora. Nem vice-versa. Ignoro se algum deles leu a Anatomia de Gray e não sei se a Fafá vê a Anatomia de Grey. Rómulo de Carvalho está claro que não a viu, pois morreu - e é forte pena - antes da estreia daquela. O amor tem complicações? É certo. Mas o coração é grande e tem compartimentos que cheguem para albergar a misturada que geralmente nele enfiamos :)

Vieira Calado, abraço retribuído!

Ana, you got it. Beijos ;)

Pin, o que há de bom num coração é a maleabilidade... podemos criar novos compartimentos, uns mais estanques e invioláveis, outros mais fluidos e passageiros, por onde vamos deixando correr a seiva da vida. Beijinhos!

Sofia K. disse...

Perfeita combinação... três corações em sintonia, não te parece?

beijnhos e mais uma vez, sabes sempre como dizer as coisas

Huckleberry Friend disse...

Uma só toada... o mais próximo que já estive de entender o sentido da expressão Santíssima Trindade. Beijos!