sexta-feira, 25 de abril de 2008

Aqui posto de comando do Movimento das Forças Armadas...

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo
Sophia de Mello Breyner Andresen

O dia amanhece quente em Lisboa. Anda-se pela cidade em mangas de camisa, trânsito não há e despertamos com a promessa de que há-de erguer-se um sol de Verão. Sensação de liberdade. Somos nós os teus cantores. Há 34 anos, disse Salgueiro Maia:"Há diversas modalidades de Estado: os estados socialistas, os estados corporativos e o estado a que isto chegou! Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos. De maneira que quem quiser vem comigo para Lisboa e acabamos com isto. Quem é voluntário sai e forma. Quem não quiser vir não é obrigado e fica aqui." Nem todos eles eram Salgueiro Maia, mas obrigado, capitães de Abril! A todos os civis e militares que combateram uma ditadura bafienta de cuja herança o país tarda em libertar-se, um obrigado incondicional. O que veio depois veio depois.


Chico Buarque, Tanto mar II
(o meu Avô Quim aparece neste vídeo
e eu dedico esta entrada à sua memória)

Tanta esperança nascida em Abril e tanta efectivamente cumprida, apesar do muito Abril morto à nascença. Que ninguém diga que não valeu a pena, escundando-se para tal nas inúmeras tentativas e tentações que houve de cairmos num extremo oposto que em tudo se assemelharia ao que quisemos deixar para trás... essas foram vencidas e, se algo murchou da flor, a verdade é que não singraram os que queriam espezinhar todo o canteiro ou impor a padronização das flores em planos quinquenais.

O golpe militar que o povo transformou em Revolução foi único na génese, na passagem à prática e no que se lhe seguiu. Às vezes tenho pena de não ter estado cá para ver a festa, pá, e para sentir na pele os gelos e calores de que foi feita. Gostava de ter vivido o "nunca renegado PREC", como lhe chamou Zeca, com todas as suas utopias, excessos e possibilidades. No dia em que a Revolução ultrapassa a idade dos génios, é pacífico que há muito sonho por cumprir, muito resquício salazarento, muito cometido já depois da outra senhora, mas... que bom ter nascido em liberdade! Que bom termos podido mandar ao mundo um cheirinho a cravo e alecrim. Que bom termo-nos livrado do mofo. Do medo. Da merda de regime míope, velhaco e criminoso que tolheu Portugal durante meio século. Gosto do 25 de Abril. Gosto de sair à rua com uma flor vermelha na mão ou na lapela. Ponham à democracia os defeitos que quiserem: o facto de poderem fazê-lo é a maior prova de que valeu a pena Abril. E de que vale a pena Portugal.

Georges Moustaki, Portugal

18 comentários:

JG disse...

Que bom, o teu bebé vai aprender logo, logo a cor da liberdade.
Há coisa melhor?
Eu, ainda tive que esperar uns anos até ao dia de todas as cores.


Um abraço

CNS disse...

E vale a pena sim, a Liberdade. E ter crescido num Portugal Livre.

JRL disse...

olá :)
já li o livro do sr. sommer há muito (logo depois de ter lido o perfume) e adorei. há livros e escritores que ficam gravados em nós, não há? um beijinho e bom fim de semana.

Rato do Campo disse...

Excelente post! Parabéns! Abraço!

Vieira Calado disse...

Um esplêndido dia de 25 de Abril para você!
Um abraço

cris disse...

Estava a fazer teste de francês.
Achámos estranho a auxiliar entrar, ir segredar algo à professora
Arrumem as vossas coisas e vão, com cuidado, para casa. Os vossos pais saber-vos-ão explicar porquê. Não parem se por alguém forem interpelados.
Tinha 11 anos, andava no ciclo, na altura.
Quando cheguei a casa, vi um sorriso imenso no meu pai!
Chorava, emocionadíssimo!
Pegou no telefone e ligou para uma tia avó.
O marido, meu tio, já não ia para o Tarrafal!

Só mais tarde entendi.
Só mais tarde percebi porque tive um castigo tão grande, na escola, por ter desenhado uns cornos na figura do Salazar, no livro de Língua Portuguesa da 3ª classe.

Claro que se exalta a liberdade, a cor rubra que trazemos na lapela!
Valeu a pena Abril e todos o que sempre acreditaram que ele aconteceria!

Beijos a triplicar, Huckle!

NB:
Tens tb um tema lindissimo do Chico Buarque em que ele tão bem canta a tão desejada liberdade e nos parabeniza.
Esta é a primeira versão, censurada, no Brasil, e editada apenas cá, em 1975:

Sei que estás em festa, pá
Fico contente
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo para mim

Eu queria estar na festa, pá
Com a tua gente
E colher pessoalmente
Uma flor do teu jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar

Lá faz primavera, pá
Cá estou doente
Manda urgentemente
Algum cheirinho de alecrim


e esta é a segunda, editada em 1978:

Foi bonita a festa, pá
Fiquei contente
E inda guardo, renitente
Um velho cravo para mim

Já murcharam tua festa, pá
Mas certamente
Esqueceram uma semente
Nalgum canto do jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar

Canta a primavera, pá
Cá estou carente
Manda novamente
Algum cheirinho de alecrim

Achei que ias gostar de ler, ou melhor, relembrar :-)

Tudo de bom para esse cais onde apetece estar, sempre!

addiragram disse...

Claro que valeu a pena...pá! Também estive ali,também cantei, também chorei de alegria...mas esta nossa Festa deverá sempre uma Festa viva, uma Festa que não se conforma...Só assim honraremos Abril e todos os que generosamente se deram.

Um beijinho para ti, neste dia lindo de sol!

RAA disse...

Excelente post, muito lúcido.
Eu ia fazer 10 anos, quando se deu o 25 de Abril. Tenho bem presente toda a efervescência dos meses que se seguiram, algo que se viveu muito lá em casa, com a família alargada dividida entre apoiantes e opositores. Foi um tempo inesquecível.

Teresa disse...

Sorriso rasgado. Por palavras diferentes, entendemo-nos. Escrevi coisas que se cruzam com as tuas hoje e faz hoje um ano, no blóguio do Liceu.

E... o Portugal de Moustaki que aqui puseste... foi alojado por mim no imeeem, coisa de que de certeza nem te apercebeste... :)

Les beaux esprits se rencontrent, disse Voltaire. Cada vez lhe dou mais razão.

isabel mendes ferreira disse...

apenas isto:



ABRA�O!!!!!!!!!!!!!!.



sempre.

carla mar disse...

Eu tinha 5 anos, na altura...
Lembro-me, dos abraços de reconciliação... numa esperançosa bebedeira de vida.
O calendário do tempo parado que abafava os homens... tinha rebentado!
Acredito, ainda, naquela velha senhora, chamada UTOPIA... que também dá pelo nome de LIBERDADE... IGUALDADE.. FRATERNIDADE...
A utopia é a alma de um homem... e um homem sem alma é cadáver.

Daqui, sopro-te, uma beijokinha... embrulhada, num sorriso :)

Huckleberry Friend disse...

Gosto de pensar assim, JG. Para o meu bebé, a Liberdade vai ser o estado natural das coisas. E é assim que deve ser. Mas é importante que se saiba que nem sempre foi assim. Abraço para ti.

Cristina, subrevo e mando-te um beijinho de boas-vindas. Volta sempre, vou agora visitar o teu jardim e a tua casa!

Olá, Joana! Mais uma vez, obrigado por teres voltado ao éter. Acabei o senhor Sommer este fim-de-semana e acho que já tenho saudades dele... beijinhos!

Rato, muito obrigado e um abraço para ti também.

Obrigado, Vieira Calado. Espero que o seu também tenha sido bom. Abraços!

Huckleberry Friend disse...

O teu relato também me emocionou, Cris. Não tenho memórias da madrugada de 24 para 25 de Abril de 1974, porque não era nem projecto, mas sei que o meu Avô, que nunca ouvia rádio, passou a madrugada de 24 para 25 de Abril de 1974 agarrado a uma pequena telefonia. Estava metido no reviralho e sabia que algo ia acontecer. Às tantas já se ia deitar, desesperando de que fosse mesmo desta - a coisa já tinha borregado umas quantas vezes. Quando percebeu que o golpe tinha mesmo avançado, saiu para a rua e só voltou passados três dias.

É esse meu Avô que aparece no videoclip do Chico que pus nesta entrada. É ao segundo 0:58, e ele é um homem de óculos e com entradas no cabelo (mas sem chapéu), encostado ao topo do ecrã. Vê lá se o encontras... adoro esta música nas suas duas versões, prova da lucidez do autor, e que tive a sorte de me terem sido explicadas pelos meus pais quando tinha 9 ou 10 anos. No ano passado, comovi-me ao ouvi-la no Coliseu.

Quero dar-te um beijinho muito especial pelos cornos que desenhaste na cabeça do Botas. A reabilitação em curso de tal personagem é das coisas que mais me repugna... FASCISMO NUNCA MAIS, MESMO!

Beijinhos grandes, que isto já vai longo!

Huckleberry Friend disse...

Addiragram, foi contra o conformismo e o comodismo que Abril se fez. Só somos dignos de comemorá-lo se o fizermos nesse espírito! Beijinhos - hoje, 28 de Abril, o sol já murchou, mas a esperança e a liberdade permanecem!

RAA, aguças-me a inveja de quem viveu Abril. Como todas as datas que importam, esta não deixou de gerar divisões e não deve ter sido fácil geri-las. Recordo, a propósito, a excelente Trilogia dos cafés (República, Central, 25 de Abril), de Álvaro Guerra, que retrata as fendas cavadas dentro das famílias e na sociedade portuguesa. Um abraço!

Teresa, duplo obrigado! Pelo comentário e pelo Moustaki (de cuja proveniência não me apercebi, de facto). Un bisou à ton bel esprit!.

Isabel, SEMPRE, SEMPRE, SEMPRE!!!

Carla mar, é lindo o 25 de Abril visto pela criança que eras. E que todos foram um pouco nessa madrugada. E que é bom que todos consigamos ser de vez em quando. Grandes beijinhos sorridentes!

purita disse...

segundo o otelo foi ele que fez tudo!:D

Pedro disse...

O papel crucial de Otelo na concepção e direcção do golpe de Estado é inegável. É um facto que as asneiras que fez depois não mudam. Mas daí a ter feito tudo... é preciso ter cautela com o que diz Otelo. Depois de visitar Cuba, foi castrista. Da Suécia, veio fã de Olof Palme e da social-democracia. Militares na política é coisa que nunca dá certo. Beijo, purita.
Huckleberry Friend

anamoris disse...

Que bem que escreves Huck!
Fiquei com a "lágrima no canto do olho". Tomo a Liberdade de fazer minhas as tuas palavras.
Obrigada
Beijos

Huckleberry Friend disse...

Obrigado, Anamoris. Se esta entrada te emocionou, o mérito será mais da data celebrada - que também a mim me comove - do que das minhas breves considerações sobre a mesma... Viva a Liberdade! Beijinho para ti, da cor dos cravos.