domingo, 9 de dezembro de 2007

Há-de vir um Natal

Ladainha dos póstumos Natais

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito

David Mourão-Ferreira, in Cancioneiro de Natal

5 comentários:

av disse...

Pois é, o David tinha este maravilhoso ritual: todos os anos escrevia um poema de Natal, pelo que existe uma enorme colecção deles, lindos como este. Não sei se existe a recolha destes poemas num livro, suponho que sim. É uma óptima sugestão de presente de Natal.
Um beijinho

av disse...

Não reparei na fonte que citas: "Cancioneiro de Natal". Provavelmente é o tal livro de que eu falava...

Huckleberry Friend disse...

É provável... eu não tenho este livro, mas a Obra Poética inclui o Cancioneiro de Natal. Também tenho, e prometo aqui pôr um dia, um CD gravado pelo filho do David, quando ele já estava doente, a ler vários poemas, entre eles esta ladainha, que na voz dele é de arrepiar. Beijo.

Maria disse...

É excelente este poema do DMF. Como ele, só.
Vim conhecer-te, meio à pressa porque é tarde. Voltarei com mais tempo.
Obrigada.
Beijo

Huckleberry Friend disse...

Serás sempre bem-vinda. E ainda bem que gostaste do poema. Beijo.