segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

O voo da codorniz com Google Earth (IX)

Nazaré, Portugal

O voo desta semana leva-me a uma falésia escarpada que vale a pena subir, galgando degraus incontáveis ou vencendo o medo que dá o ranger do funicular. É uma terra linda, que as hordas do fim-de-semana tornam inóspita sem lhe roubar beleza. Mar fero. Um perfil desenhado contra o pôr do sol. Ou, mais atrás na memória, saudades de arrastar duas cadeiras até uma pequena varanda de cal, muito perto do Sítio, e de ficar horas à conversa com a anfitriã, sem quase pudor. Um poema dessa altura:

Nazaré

pode já não haver banhistas de roupão
mas há a montanha e o fim que não se vê
ou este canto, uma toalha no muro e o resto do sol

posso já não te encontrar na Nazaré
mas há o norte todo e as bolas de Berlim
ou desmentir a noite para que um dia não chores

podem ser quartos rooms e espalha a roupa
mas há vezes sem pressa em chambres zimmer
ou sobremesas de manga e a manga na mesa porquê

podemos não saber nada deste chão
mas há falhas com a textura do teu pé
ou o sítio das pernas que a arriba não poupa

pode não dar jeito ser permeável às cores
mas há o mar todo para salgar dom fuas
ou não dá para ser roupinho e ficar a ver de cima

podes já não saber bem ao que vim,
mas há de novo as pernas e quero-te nas duas
ou entra no mar e veremos que onda te engole


Toxofal de Baixo, 18 de Novembro de 2000

5 comentários:

Teresa disse...

Safa, que pontaria!
Possivelmente o local que mais amo nesta vida, o meu pensadoiro favorito. Há meses que ando para fazer post sobre a minha amada Nazaré.
De vez em quando vou lá passar um fim-de-semana no Inverno, sozinha, e cumpro todos os rituais muito antigos.
Confesso que esta fotografia me fez subir lágrimas aos olhos, impossíveis de conter.

Por entre o luar disse...

Gosto deste programa:)

Também viajo muitas vezes por la:)

Beijo*

Huckleberry Friend disse...

Que coincidência gira, Teresa... em dias calmos, é mesmo um bom sítio para pensar. Ainda hoje me lá imaginei, enquanto via fotografias em que estou cá em cima e o mar lá em baixo, só. E pensei na Fernanda e no Luís, avós da minha amiga Maria Inês (a da varanda de cal), que sempre me receberam tão bem naquela casinha amorosa voltada para o mar; na praia cheia de gente e nós ávidos de uma bola de Berlim; no sorriso da Ica; num mergulho em água fria que o calor torna incontornável; no Bentley a abanar a cauda; no muito feliz que quase sempre fui na Nazaré.

Por entre o luar, sem nunca ter visto o teu sorriso, gosto de poder acreditar que suscitei mais um. Bons passeios!

av disse...

Muito bom, Pedro, o que escreves. Este poema é bem exemplo disso. Continua.
Um beijo
Ana

Huckleberry Friend disse...

Obrigado, amiga.