domingo, 18 de novembro de 2007

Sunday soundbytes (V)

Na semana passada, houve quem achasse duro falar-se aqui da morte do domingo... mas não é só no fim-de-semana que há coisas boas. Amanhã de manhã deixarei o refúgio toxofalense que tanta paz me dá, mas não tenho razões para me queixar da vida de segunda a sexta. Sem ela, nem estes tempos de ritmo diferente sabiam tão bem. É de Girl, dos Beatles, o trecho musical escolhido para este domingo, que ainda não morreu.
girl.mp3

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Página 161, desta vez em lume brando

Descubro com 15 dias de atraso que não foi só a Ana a acorrentar-me à deliciosa cadeia da página 161, a que aderi com gosto... já antes dela Manuel Alberto Valente, d'A Origem das Espécies, me lançara o repto.

Não vejo motivo para não repetir a dose, por isso cá vai...

As regras são:
1. Pegue no livro mais próximo, com mais de 161 páginas – implica acaso e não escolha.
2. Abra o livro na página 161.
3. Na referida página procure a 5.ª frase completa.
4. Transcreva na íntegra para o seu blogue a frase encontrada.
5. Passe o desafio a cinco blogueiros.

Não me veio parar à mão um romance nem um livro de poesia, antes Na cozinha com Jamie Oliver. O resultado é este:

Deixe levantar fervura, ponha a tampa e cozinhe em lume brando durante cerca de 1 1/2 horas, até estar macio

Querem melhor para o fim-de-semana? Ainda por cima com direito a escolher os ingredientes... a mim, já agora, cabe-me escolher os próximos contemplados deste movimento: a comadre Floppy, o Pedro José, o poeta Vieira Calado, a artística e musical Mateso e alguém do meu querido Palavras da Tribo. Bom fim-de-semana e obrigado a quem tiver sido o 3000.º visitante do codornizes!

Blogues à sexta (V)

A semana do codornizes termina sempre com um blogue que valha a pena visitar. À quinta ou à sexta, consoante os afazeres, este espaço é dos camaradas do éter.

O mito de celofane ou Toto, I've a feeling we're not in Kansas anymore


A primeira coisa a dizer sobre o blogue da m. é que não sei qual dos dois nomes é o "oficial". O que não importa muito, porque gosto dos dois. Ao deixar-me envolver pelo celofane deste mito, também eu tenho, como a Dorothy d'O feiticeiro de Oz, a sensação de já não estar na sala, sentado em frente ao computador... mas o caminho para a estrada amarela está longe de ser evidente!

É este um espaço curioso, de um intimismo contido e por vezes hermético, sempre inquieto e sobre fundo escuro. A poesia está presente nos textos e nas imagens, há uma boa dose de introspecção e, para quem quiser vê-los, estímulos preciosos para pensar sobre a vida e o mundo. Gosto dos idiomas a fluir conforme os dias, porque cada um deles tem formas únicas de expressar sentimentos e ideias. Gosto de uma primeira pessoa assumida mas que não anda a exibir-se. Gosto do que conheço da autora deste blogue.

Quem aceitar esta humilde sugestão deverá preparar-se para paranóias incuráveis, Gael García Bernal a partir corações (neste caso não é um lugar-comum), um Outubro escandido em Novembro com desejos para Dezembro, uma dança electrizante e el llanto de Rebekah del Río no desconcertante Mulholland Drive de David Lynch.

Lar, doce lar



Going home é a última faixa da banda sonora original de Local hero, um filme dos anos 80. Recomendo a fita e a banda, que é de Mark Knopfler. E dedico a música à Ana Lobo da Costa, uma global hero que gosto de saber que gosta de estar em casa. E já agora, ao som da guitarrada, podemos ler este poema de António Ramos Rosa...

Casa de sol onde os animais pensam
erguida nos ares com raízes na terra
ampla e pequena como um pagode
com salas nuas e baixas camas
casa de andorinhas e gatos nos sótãos
grande nau navegando imóvel
num mar de ócio e de nuvens brancas
com antigos ditados e flores picantes
com frescura de passado e pó de rebanhos
ó casa de sonos e silêncios tão longos
e de alegrias ruidosas e pães cheirosos
ó casa onde se dorme para se renascer
ó casa onde a pobreza resplende de fartura
onde a liberdade ri segura

in Voz inicial, 1960

Cais das codornizes (II)

À primeira vista é uma música de Chico César, que lembramos cantada pela Daniela Mercury, no seu Feijão com Arroz (1996). Mais recentemente, descobrimo-la cantada por Pedro Guerra num dueto com o autor... en bilingüe!
A voz da Daniela lembra as tardes de Verão, ao pôr-do-sol, num pátio virado à Berlenga... a versão do Pedro e do Chico recorda os últimos serões românticos e algumas danças de princípio de noite.


Quando não tinha nada eu quis
Quando tudo era ausência esperei
Quando tive frio tremi
Quando tive coragem liguei
Quando chegou carta abri
Quando ouvi Prince dancei

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Manhã emersa

Elton John, I need you to turn to

Gosto da música deste gajo. Gosto desta em particular. Gostei da última vez que a ouvi. E de outra, no banco de trás de um carro, em viagem, com todos a cantar.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Mortadelo y Filemón

Os agentes da T.I.A fazem 50 anos! Aqui vai um abraço fuertísimo para o Mortadelo dos mil disfarces e para o seu chefe Filemón Pi (Salaminho no Brasil, Salamão em Portugal). E cumprimentos para o Superintendente Vicente, a vetusta secretária Ofélia, o desastroso professor Bactério e, em representação dos vilões, o meu preferido: Chapeau, el Esmirriau.
Os tebeos do Mortadelo, presença de longa data lá em casa, chegaram-me, sobretudo, das viagens a Espanha (às vezes iam só os meus pais e traziam-nos aquelas compilações pesadíssimas). Delicio-me com os disparates desta dupla, que, sem que déssemos por isso, fez meio século sem perder a graça. Outro abraço terá de ir, pois, para Francisco Ibáñez, o autor.

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Poppy day

Papoilas de papel polvilham, esta semana, os campos e as cidades do Reino Unido e de outros locais do mundo. O Dia da Recordação foi anteontem, mas não será o atraso a impedir que o assinalemos aqui. Foi à 11ª hora do 11º dia do 11º mês de 1919 que foram honrados, pela primeira vez, os mortos da que então se chamava apenas Grande Guerra, e que ainda não fora ultrapassada em horror pela de 20 anos mais tarde.

Tenho especial carinho por este emblema, que não uso há muitos anos, mas a cujo significado me associo. Foi mais uma coisa que ficou das paragens que ilustrei no último voo da codorniz... impressiona ver todos os anos, diante do Cenotáfio de Londres, as lágrimas vertidas pelos veteranos, em número cada vez menor. O dinheiro da venda das pequenas flores que todos põem à lapela revertem a favor dos feridos e incapacitados da guerra.

A papoila passou a ser símbolo de paz por causa de um poema escrito pelo médico canadiano John McCrae (1872-1918), que esteve na frente belga. Foi composto em 1915, em homenagem ao seu amigo Alexis Helmer, morto em combate. É bonito. Ei-lo.

In Flanders Fields

In Flanders fields the poppies blow
Between the crosses, row on row,
That mark our place; and in the sky
The larks, still bravely singing, fly
Scarce heard amid the guns below.
We are the Dead. Short days ago
We lived, felt dawn, saw sunset glow,
Loved, and were loved, and now we lie
In Flanders Fields.

Take up our quarrel with the foe:
To you from failing hands we throw
The torch; be yours to hold it high.
If ye break faith with us who die
We shall not sleep, though poppies grow
In Flanders Fields.

Cais das codornizes


Nasce hoje uma rúbrica interblogueira - o cais das codornizes. A ideia nasceu a propósito da música Tes Gestes, que o meu cais e o codornizes publicaram em duas versões. Nesse dia, ouvimos Georges Moustaki e Serge Reggiani. Hoje, o cais volta a Moustaki e Barbara canta no codornizes. A música é La ligne droite Esperem por mais duetos...

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

O voo da codorniz com Google Earth (VI)


Old Marston, Oxford, Inglaterra

Vivi no número 1 da Fane Road entre Setembro de 1986 e Abril de 1987. Fui feliz. Descobri a neve, o Halloween, o Poppy Day (que foi ontem e sobre o qual preparo entrada para amanhã), a Bonfire Night (que foi há uma semana e que contarei qualquer dia), os padres casados, a custarda com ameixas quentes, os Christmas carols e os iogurtes de ruibarbo. Conheci o Aidan, o Magnus, a Tamara e o Gus. Fui ao meu primeiro jogo de futebol no estádio (Oxford United 1:1 Everton). Passeei por Londres, Gales, a Cornualha, Stonehenge e, claro, Oxford, os colleges (que paz, os veados do Madgalene!), o mercado coberto, os parques, o rio, Carfax... saudades desses tempos, muitas. E também de uma passagem por lá, em boa companhia, há cerca de um ano.

Here stays the Sun, xurururu, here stays the sun...



O Verão, que é como quem diz o Estio-de-todos-os-anos, conseguiu mesmo espraiar-se até ao seu homónimo de São Martinho...

Toute la vie
sera pareille à ce matin,
aux couleurs
de l'été indien


L'Été indien, de Joe Dassin, de que a Avó Gina tanto gostava

domingo, 11 de novembro de 2007

Sunday soundbytes (IV)

O fim do fim-de-semana é propício a reflexões. No codornizes, assinalamos a morte do domingo com um trecho musical que faça pensar. Desta vez, talvez por o fim-de-semana ter sido bom e não apetecer que acabasse, deu-me para matutar sobre o mundo cão em que vivemos. Com a ajuda de Xibombombom, das brasileiras As Meninas.

xibombombom.mp3

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

O serão de Eugénia na página 161

A Ana, que se arrisca a ser promovida a tema do dia neste blogue, fez-me um desafio através da sua long and winding door. Aceitei, pelo que o codornizes passa a fazer parte da corrente "Página 161". Eis o modus operandi:

1. Pegue no livro mais próximo, com mais de 161 páginas – implica acaso e não escolha.
2. Abra o livro na página 161.
3. Na referida página procure a 5.ª frase completa.
4. Transcreva na íntegra para o seu blogue a frase encontrada.
5. Passe o desafio a cinco bloguistas.

O livro, no meu caso, é O segredo da bastarda, da luso-argentina Cristina Norton. Não se espantará quem me conhece se disser que a coisa não podia correr bem à primeira: a página 161 é um minúsculo capítulo com apenas três frases... sigo o exemplo da desafiadora e vou à página par que ladeia a que seria primeira escolha (a 160, prossigo, perspicaz). E a frase é:


A primeira coisa que Eugénia fez ao regressar à cidade foi ir ao palácio do Bomsucesso beijar a mão ao pai; uma hora depois começaram a aparecer os restantes membros da família, avisados pelos criados da chegada da irmã, e a tarde prolongou-se num serão como os de sempre, onde se misturaram novidades com lembranças dos tempos em que eram crianças e o riso se tornou fácil, contagiante.


Apesar dos muitos caracteres, penso que tive sorte. A frase é bonita e creio que todos reconhecerão no serão de Eugénia dias passados em família, há mais ou menos tempo, com mais ou menos beija-mão, com maior ou menor saudade.


Os próximos a pegar na batata quente serão, caso aceitem:

1. O meu cais, da precious Sofia
2. O espaço azul entre as nuvens, do Mário Cordeiro, que até é meu pai
3. Ao vento, da minha prima CVD
4. La Fragua, de mi amigo Toño que está en Madrid
5. O mito do celofane, da M., que tem andado desaparecida

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Blogues no dia que for (IV)

Esta secção, que era para sair todas as quintas, já falhou a hora de fecho uma ou duas vezes. Adiramos, pois, à flexigurança bloguística: passa a sair à quinta ou à sexta, conforme me der jeito a mim, que ser blogmaster sempre há-de servir para alguma coisa...

Porta do Vento

A Ana Vidal é uma amiga invulgar. Vive a escrever, escreve a viver e tem jeito para ambas as coisas. E tem este blogue, entre outros. Pela porta que nos abre, ora desconcertantemente escancarada, ora reduzida a uma fresta através da qual nem todos conseguem ver à primeira (o sol extemporâneo ofusca e as poeiras a flutuar hipnotizam), sopram ventos de diversas latitudes, humidades e temperaturas. O Sirocco que sopra hoje recupera as folhas que trouxe o Mistral de ontem, e que a Ana preenche com imagens, música, poesia e prosa. A dela e a de outros.

A coluna da esquerda é uma delícia, com um tradutor automático melhor do que qualquer stand-up comedian, um iPod indomável e milhares de linques e cumplicidades.

Há dias, um amigo comum falava de uma lógica de serviço entre público e privado e atribuía-a não só ao blogue da Ana como ao codornizes e a O meu cais. Ora, esse difícil equilíbrio - nunca imune a deslizes - comecei por vê-lo na Porta do Vento. E na sua autora.

Telegraficamente, cá vão achegas das entradas mais recentes da Ana: a beleza depurada dos haicais, mais um capítulo de uma série com as bicicletas como leitmotiv, um quase-haicai sobre o domingo, uma missão irrecusável que cumprirei na próxima entrada e o relato de uma viagem que fizemos em paralelo, sem nos encontrarmos, mas sem nunca deixarmos de estar perto.

Let's partyyyyyyyyyyyyyyyyy!

Já que o blogue faz um mês, festejemos: ora, faça o leitor o favor de copiar para a barra de endereços o seguinte código:

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Depois é só fazer Enter. Ah, e isto é um plágio completo do Zoo Bizarro.

Dois haicais





De que te serve a raiz,
Árvore de fruto
Que os gaios transportam?





*





Tantas ideias mortais
Sob o lenço verde
Da bela espanhola!






Ses gestes...

Um presente que dei...

Serge Reggiani - Tes gestes.mp3 -


Tes gestes, Serge Reggiani
(letra e música de Georges Moustaki)


A versão que ofereci, do Moustaki, é mais doce. Esta é mais dramática. É de gestos doces e dramáticos que a vida se vai fazendo... e o codornizes, que respira e respiga gestos doces e dramáticos, faz hoje um mês. Parabéns aos leitores e comentadores! Segue-se o poema Tes gestes em tradução livre.

Teus gestos

Mais ternos que uma confissão,
Os teus gestos desarmam-me
A tua mão no teu cabelo
Ou a secar uma lágrima
Misturas sabiamente
A inocência e o charme
A tua saia de 15 anos
E as pernas de mulher
Teus braços, ainda frágeis
Tornam-se encorajadores
Quando dás à criança
A doçura maternal

Diz-me quem te ensinou
A aflorar a minha boca
Tu que chuchas no polegar
Quando estás a dormir

Mais bela do que uma ondina
Quando sais do banho
Escondes o teu peito
Na palma das tuas mãos
As ancas insolentes
A cada movimento
Uma boca gulosa
E olhos inocentes
O sol amacia
O teu corpo a contra-luz
E esfuma o contorno
Da tua sombra chinesa

Diz-me quem te ensinou
A aflorar a minha boca
Tu que chuchas no polegar
Quando estás a dormir

Como uma adolescente
No seu primeiro desejo
Perita e desajeitada
Entregue ao teu prazer
És ao mesmo tempo
Princesa e cortesã
Uma miúda, uma mulher
E a mãe e a filha
Observo-te a viver
E devolves-me a vida
Os teus gestos libertam-me
De tudo o que sou

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

SG gigante

Correio azul, de Sérgio Godinho

Manda-me uma carta em correio azul
p'ra afastar estas cinco nuvens negras
relembra-me as regras
do saber viver
repõe-me o sentido nos sentidos
olfactos
ouvidos
à vista
de tactos
do teu paladar

Manda-me uma carta em correio azul
p'ra afastar esses blues de pacotilha
renega e perfilha
respectivamente
a torpe indiferença
e o amor ardente
amor tão ardente
que dos erros meus má fortuna se ausente

Erros meus, má fortuna, amor ardente
qual em nós mais frequente
qual em nós mais frequente
amor ardente
cada vez mais frequente

Manda-me uma carta em correio azul
que me deixe a face roburizada
promete-me a noite fatigada
de termos aberto o nosso nexo
ao sexo
da vida
porção destemida
da nossa emoção

Erros meus, má fortuna, amor ardente
qual em nós mais frequente
qual em nós mais frequente
amor ardente
cada vez mais frequente

Manda-me uma carta em correio azul
que branqueie o passado num momento
paixão é no corpo o sentimento
que faz da razão montanha russa
aguça
o encanto
mas no entretanto
faz estragos mil

Erros meus, má fortuna, amor ardente
qual em nós mais frequente
qual em nós mais frequente
amor ardente
cada vez mais frequente
Manda-me uma carta em correio azul
para eu guardar no castanho dos armários
no meio de testemunhos vários
escritos por letras tão distantes
murmúrios amantes
que a vida me oferece
só por muito amar

Erros meus, má fortuna, amor ardente
qual em nós mais frequente
qual em nós mais frequente
amor ardente
cada vez mais frequente

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

O voo da codorniz com Google Earth (V)


Da Plaza de Oriente à Plaza Mayor, Madrid, Espanha
Deve ter sido por onde mais andei durante esta última viagem àquela que será sempre uma cidade minha. Ou nossa. Deve ser por onde ainda ando...

Monday soundbyte

Fuga mais do que necessária para o país vizinho deixou o ninho sem dono durante quatro dias. O que vale é que os comentadores andem por aí e mantêm a chama viva. Fazem bem, estas pausas. E faz bem voltar, mesmo se custa. Para já, fica aqui um primeiro comentário a estas miniférias... é dos Mecano. Boa semana!


hoy.mp3