segunda-feira, 24 de março de 2008

A minha cidade

Bica, 30 Janeiro 2008

Apetece-me passear pela minha cidade. Descer a pé o eixo Rato-Bica, que é onde há varandas como estas, e subi-lo retemperado por um chá ou coisa mais forte, possivelmente no Pavilhão Chinês. Esquadrinhar as ruas por onde anda a gente que veste esta roupa e a estende ao sol que hoje não há. Olhar com atenção para cada rosto e ouvir as histórias que as feições de cada personagem involuntária me queiram contar em silêncio. Talvez escrevê-las. Perceber se a cor do Tejo muda consoante o olhamos de uma transversal da Rua da Escola Politécnica ou da Calçada do Combro. Mandar recados telepáticos, via cacilheiro, às gaivotas de Porto Brandão e aos barquinhos de pesca da Trafaria. Cobiçar doçuras às montras das pastelarias, confortos às das lojas de design, poemas às das livrarias. Devolver com um raro chuto certeiro a bola que os miúdos do Bairro Alto pontapearão com demasiada força a dada altura. Devolver também os sorrisos que as velhas distribuem, das suas portas e janelas de menagem, defendidas a dente de cão ou garra de gato, a quem tiver força na alma para rodar ou levantar a cabeça num ângulo que, bem vistas as coisas, pouco exige à musculatura do pescoço. Trautear cantigas de amor a esta Lisbela, corrompendo êxitos de Amália, Jorge Palma, Carlos do Carmo, Mariza, Trovante, Vitorino, Sérgio Godinho ou Madredeus. Dedicá-las, se melhor destinatári@ não houver, aos guarda-freios dos eléctricos que ainda passam, às floristas da Rua Augusta, à multidão que enche as esplanadas do Chiado, a quem mantém retrosarias, capelistas, drogarias e outras espécies em vias de extinção. Admirar aquela árvore do Príncipe Real. Reconhecer a custo os meus lugares da noite à luz do fim da tarde e lembrar mais histórias, acontecidas ou por acontecer a quem nasce, vive e morre na minha cidade. Dar uma mão ou um braço a quem quiser ouvir-mas ou, melhor decerto, a quem conseguir cortar-me a verborreia com um olhar cúmplice, daqueles que nos transportam em tempo real para o canto superior esquerdo de uma folha em branco. Esperar, de ombro encostado e a ver Lisboa, pela primeira palavra de uma nova narrativa.

É o que vou fazer já a seguir.



Ala dos namorados, Loucos de Lisboa

16 comentários:

tiagovqueiroz disse...

Cá te espero no Bicaense, para mais um copo e dois dedos de conversa (ou muitos mais...), lembrando quando este (agora) mítico bar era um restaurante anónimo - paredes, mesas e balcão "talhados" em grandes pedras de mármore asa branca polido...

Era muito bonito, eram outros tempos e nós também éramos outros. Mas, tal como o bicaense, continuamos os mesmos... por isso e por outras coisas continuo a gostar de lá ir... talvez a horas mais tardias, mas basicamente para o mesmo fim.

Cá te espero no Bicaense...

SF disse...

Adoro a música! :)
E... a tua cidade também é gira. Aceito sugestões para o próximo fim-de-semana...
Beijinhos, Huckleberry friend!

miguel disse...

Belíssimo texto, o qual , aliás, irá servir de pretexto para uma próxima entrada no espaço deste amigo.

Huckleberry Friend disse...

Caríssimo Tiago, dá-se o caso feliz de termos sempre várias mãos e pés de conversa pela frente - trate-se de TPC para pôr em dia ou de coisas novas a pretextar novos copos.

Queres crer que nunca entrei no Bicaense? Pois eis aí um belo pretexto para novo encontro. Um abraço.

SF, registo o "também" ;) acrescento à sugestão feita nesta entrada e à adenda do meu amigo Tiago um passeio pelo paredão de Cascais, uma ida ao DeliDelux (ao pé de Santa Apolónia), ao Bar das Imagens (Costa do Castelo), aos vários museus de Lisboa (Azulejo, Chiado, Cidade, Arte Antiga, Gulbenkian, por exemplo), ao miradouro do Adamastor, à Senhora do Monte, à Graça. E a todos os botequins de Alfama. E pronto, deve chegar para um fim-de-semana! Beijos para a tripeira mais fixe deste blogue!

Miguel, fico à espera de que o teu algeroz coe o que se puder aproveitar das minhas andanças alfacinhas. Abraço amigo.

Carla disse...

Lisboa assim tem outro encanto...e que belas essas varandas, que também povoam o casario da zona mais típica do Porto
boa semana

Por entre o luar disse...

Adoro a música...:)

E gostei do texto.. beijinhos e sorrisinhos grandes***

Sofia disse...

De passeio até ao Noo bai!

;)

Beijos

blue disse...

reconheço essa bela Lisboa,
reencontro Brel na voz de outrém e, ali na coluna do lado, o amor nos tempos de cólera, um livro que há muito releio sempre com renovado prazer. para não falar do mark twain...

:)

Andreia Ferreira disse...

Quando se ama uma cidade, afinal parece não existir grande diferença entre o Norte e o Sul... Vontade de fazer o mesmo no Porto :) **

Huckleberry Friend disse...

Carla, Andreia: Também me apetecia um passeio destes, mas na Invicta, das ruelas da Ribeira até ao mar fero da Foz... e um copo na Praia da Luz, por exemplo! Beijinhos para as duas.

Por entre o luar, um sorriso louco e um beijinho lisboeta!

Sofia, trocámos o Pavilhão Chinês pelo Noobai - mais sol, mais rio -, mas o resto foi mesmo, mesmo como eu tinha sonhado acordado. Foi bom teres feito parte deste passeio pela nossa cidade (e fomos muito bem acompanhados!). Beijinhos da Sétima Colina ao Cais do Sodré.

Blue, alegra-me que o vol d'oiseau pelo meu ninho te tenha proporcionado bons encontros e reencontros... só em relação ao Mark Twain e ao nome com que assino é que tem havido algum equívoco. Fica atenta, porque vou explicá-lo em breve. Beijinhos e volta sempre!!!

Anónimo disse...

um belo passeio sem dúvida!!!!!!temos que repetir!!!!!!bjinhss ak

Huckleberry Friend disse...

Anocas, belo passeio também por teres lá estado. Vá, toca a olhar para um mapa da cidade e escolher o próximo itinerário! Beijinhos...

Sofia disse...

Tenho desejos de um sumo de tomate do Delidelux, seguido de um passeio por Alfama e jantar na Baiúca! Alinham?

beijos

Huckleberry Friend disse...

Ready when you are, lovesome!

addiragram disse...

Lisboa sente-se no teu texto!

Huckleberry Friend disse...

E sinto-a de novo de cada vez que alguém a ele reage... beijinhos :)