domingo, 16 de março de 2008

Perdoem se insisto...

...mas este tipo era muito bom e revolta-me que quase ninguém se lembre dele. Dei-me conta disso há dias, quando uma entrada em que o incluí suscitou comentários sobre tudo o resto, mas não sobre este génio. Se escrevo "quase ninguém", é porque ainda há quem tenha histórias para contar sobre Herbert Pagani. E histórias que merecem ser lidas.

Pagani nasceu em Trípoli, na Líbia, de família judia. Filho do Mediterrâneo - “T’es comme un livre ouvert, il y a qu’à tourner les plages”, cantava -, andou em miúdo por Itália, Alemanha e França. Eclético nas línguas como nas artes, foi pintor, escultor, poeta e músico. Vendeu quadros a Fellini e ilustrou uma edição do Admirável mundo novo de Huxley. Traduziu Brel, Léo Ferré, Marcel Mouloudj, Barbara e Piaf.

Começou por cantar em italiano, com uma das vozes mais doces que alguma vez me lembro de ter ouvido. Ora, ouçam esta versão do Plat pays de Brel. A Lombardia toma o lugar da Bélgica sem que a letra tenha, curiosamente, de sofrer grandes alterações.


La Lombardia (Jacques Brel/Herbert Pagani)

Italiano, francês, africano, pacifista, humanista, humano, Pagani desenhava as capas dos seus discos e os cenários dos palcos onde actuava - o álbum gravado em Bobino é imperdível. Foi DJ na Rádio Montecarlo e tentou alertar a Unesco para o risco de Veneza naufragar irremediavelmente no pântano (já aqui pus essa música). Anteviu, no inigualável Mégalopolis, muito do que veio a ser o futuro da Europa e do Mundo. Celebrou a amizade que nos liga aos outros - pessoas e não só -, em momentos de partilha eufórica ou simples ocasiões para mitigar a solidão,


La bonne franquette (N. Skoraki/Herbert Pagani)


Berger d'artiste (Herbert Pagani/G. Moraschi)

e o amor, ora feliz e contagiante, vivido em casas que não fecham a porta a ninguém, ora condenado por forças obscuras, mas nunca, nunca rendido.


Chez nous (Vastano/Herbert Pagani)


Le condamné (E. Lombardi/Herbert Pagani)

Pagani era também judeu, porventura dos que mais se destacou na luta por evitar que o Holocausto fosse esquecido (ouçam L'étoile d'or, se tiverem oportunidade). Hoje, é também um ímpeto contra o esquecimento que o traz ao codornizes. A Herbert levou-o, aos 44 anos, uma leucemia. Eu, que tinha 9, lembro-me de o meu pai chegar a casa fulo, porque tinha falado nisto a alguém que lhe respondera: "Paganini? Mas esse não tinha morrido há imensos anos?".

Tinha, pois. Mas Pagani acabara de morrer e, nesse dia, o gira-discos lá de casa e o deck das cassetes foram seus. Agora, que também ele nos deixou "há imensos anos", apetece-me gritar "OUÇAM-NO!" aos que não o conhecem e "LEMBREM-NO!" aos que têm esse privilégio. Espero que uns e outros tenham chegado ao fim desta entrada, a mais longa que já se publicou neste blogue.

8 comentários:

Mário disse...

Huck
Fizeste-me chorar, meu malandro. E um arrepio pela espinha acima ou abaixo, tanto faz.
Pagani, como contei na entrada que referes, era uma personagem fascinante, um homem humano, um artista da Arte, passem os pleonasmos.

Coincidentemente, escrevi o meu primeiro romance (que espero publicar este ano, vinte depois de esboçar a primeira frase) sobre um poeta que morre com uma leucemia. Pagani, infelizmente, deu corpo ao que, para mim, era mera ficção.
É pena que ele (e tantos outros de língua francesa) tenham sido esquecidos e aniquilados, mesmo que pontualmente encham salas, como o caso de Aznavour e de, prximamente, Moustaki.

Valham os blogues, para repor um pouco do equilíbrio da História e evitar que a memória fique agarrada ao efémero, ao acessório e ao inútil.

Parabéns, Huck, pela lembrança e pelo trabalho de pesquisa.

av disse...

Bela homenagem, Huck. Cheguei ao fim da entrada e tenho estado a ouvi-lo entretanto. Há muito tempo que não ouvia nada de Pagani e não tenho nenhum disco dele, curiosamente. Mas lembro-me muito bem dele.
Um beijinho

Tinta no Bolso disse...

lembro-me dum disco de capa avermelhada "megalopolis" se não estou enganado

isto ainda no tempo do vinyl, e se podia ver as capas enquanto se ouvia o disco

CVD disse...

Vou ouvir... vou-me cultivar! Obrigada primo és uma fonte inesgotável de informação!

beijo grande!

Sofia disse...

Tirando o facto de me teres roubado a Chez nous... bela recordação... o melhor trio de sempre!
Um beijo

Amélia disse...

Gosto do Pagani! Quando canta em italiano tem uma voz melodiosa e doce, mas por mim pode cantar em que língua quiser que adoro as suas músicas QUASE todas! Também aproveitei para recordar!
Um beijinho

miguel disse...

Os blogues têm um carácter inciclopédia muilti-média. já o disse. Veiculam sensibilidades que são, virtulmente, intransmissíveis. Apenas se podem e devem respeitar.Transportam consigo conhecimento do que não se conhece, e é obrigatório estar-se aberto ao conhecimento. Este Pagani não entra no meu catálogo de amores musicais.Mas obrigado pela simpatia de partilhares. Acredito que, muisicalmente falando, se aprende a gostar....talvez um dia, neste caso.

abraços

Huckleberry Friend disse...

Pai, as emoções que lhe possa ter proporcionado são uma justa retribuição a quem me ensinou a gostar de Pagani. Ainda este fim-de-semana, ao ouvir Gracias a la vida, merci l'existence, recordei velhas chalaças à volta do verso "quand je fais l'amour avec la femme que j'aime". Beijos.

Ana, sabe sempre bem quebrar um longo silêncio. Beijinhos :)

Tinta no Bolso, Mégalopolis é uma obra-prima que requer atenção a todos os pormenores. Letras, músicas, personagens, discursos, anúncios e até boletins meteorológicos fazem deste disco - que tenho em CD - um objecto único. Um abraço!

Prima Clarinha, se bem te conheço, vais apreciar Pagani. Levo um disco para a próxima cafezada no Alto do Lagoal. Beijos!

Sofia, Chez nous la porte reste ouverte jour et nuit, por isso não há lugar a acusações de furto... mas posso compensar-te com uma Sérenade ou mesmo Des gens heureux. Gente feliz que canta pela praia fora, que dizes? Beijinhos!

Amélia, ainda bem! A voz sai-lhe melhor em italiano, é verdade, embora a maioria das músicas - e as melhores! - sejam em francês. Beijos.

Miguel, acho que as sensibilidades que se exprimem na blogosfera até são transmissíveis... esta entrada visa partilhar, mas também contagiar! Prezo a tua abertura de espírito. Um abraço amigo!