terça-feira, 13 de maio de 2008

Baú das codornizes (IX)


Genérico de Tom Sawyer

Não sei quantas vezes cantei esta canção. Passou muito tempo entre a primeira e a mais recente, que é como quem diz entre ter visto estes deliciosos desenhos animados na RTP2 - sobretudo em casa da minha Tia Amelinha - e tê-la trauteado, há dias, num serão divertido. Muitos anos depois da estreia, o genérico de Tom Sawyer tornou-se o hino oficial dos banhos de fim de tarde no Baleal. Guiados pelo inigualável PTD, um grupo de miúdos de todas as idades desafiava as ondas e a brisa fresquíssima do poente, entoando em uníssono estas estrofes sobre aventura, camaradagem, sonhos e emoções. Confiança e coragem eram conceitos que não havia razão para pôr em causa. A saída do mar, com o sol posto e o tempo contadíssimo para irmos tomar banho e pôr-nos bonitos para o jantar, era feita ao som desta outro canto. Tão diferente e tão igual ao anterior.


Zeca Afonso, Canto moço

5 comentários:

Sofia disse...

Maravilhosa entrada. Um hino que contrariou as regras da boa educação, neste Sábado - não se canta à mesa!

Era sempre assim, não era? Todos os 31 dias. Estivesse sol, chuva, nortada ou um dia de paraíso!

Chegávamos a casa engelhados, todos a querer tomar banho ao mesmo tempo, porque todos tinham frio, porque era hora de ir pôr a mesa, jantar... porque a pressão da água era pouca!

Dizia a minha mãe:
- Tiveram o dia todo para tomar banho e escolheram as três a mesma hora?
- Mas é hora do banho das oito! Fomos todos! - resposta pronta entre dentes que tiritavam!

A seguir íamos para o quarto vestir as roupas de Inverno (LOL) e pôr a música em altos berros, tocar guitarra e dançar na varanda para ver quem passa. Enquanto isso, grelhava-se a carne e o peixe, para acabarmos a jantar todos juntos, na casa um dos outros!

Saudades mil!

beijos

RAA disse...

Há um joguito no Abencerragem...
Um abraço.

anamoris disse...

As recordações da infância são tão reconfortantes. A canção do Tom é uma delas, a mim lembra-me a liberdade...
Beijos

miguel disse...

José Afonso é muito mais do que o símbolo de resistência que lhe querem sempre colar, cheios de teimosia. É um génio universal - génio, sim.

Nas noites do Baleal dos anos 60, tão aparentemente fechadas ao mundo foi-me possível ouvir o Zeca muitas vezes, na voz e na guitarra do Nuno Chorão de Carvalho.Isto com uma juventude reunida em volta do Nuno cheia de agrado pelas músicas do Zeca. Improvável mas real...

Huckleberry Friend disse...

Que bem me sabe ler-te assim, Sofia! Era exactamente como dizes, maribávamo-nos para os tempos: nem o tempo-clima nem o tempo-horas podiam connosco. Dias de paraíso eram todos os que ali passávamos e são todos os que ali passamos. E que saudades de tantas guitarras balealenses... beijos grandes, um por cada "banho das oito" que tomei contigo.

RAA, vou já, já ver! Um abraço.

Boas memórias são autênticas redes de trapezista quando os voos da vida nos correm mal, Anamoris. Tens razão quanto à música do Tom: liberdade. E também inocência, daí a protecção que estes momentos nos garantem no futuro... beijinhos!

Miguel, não é preciso colar ao Zeca um símbolo de resisitência. A vida dele já fez isso: resistência contra uma ditadura imbecil e resistência contra uma doença cruel que tornou dolorosos os seus últimos anos. Mas concordo: a dimensão política não deve ofuscar a musical. E José Afonso foi, sobretudo, um excelente músico, muito inovador e inspirador de inúmeros talentos.

Quanto ao "improvável", acho-o mais bonito do que o "quase certo". E cheira-me que teremos de atribuir um prémio de resistência também ao Nuno Chorão, que 30 anos depois do que relatas continuava a tocar Zeca, no terraço da frente da casa velha dos Formosinhos (a casa balealense mais gravada na minha memória, depois da da família), debaixo de um toldo às riscas verdes e brancas que me lembro de ver o Avô Nico ou o Zé Guilherme a instalarem todos os anos. Nesse terracinho, no muro em frente ou no pátio de trás, quantos concertos, quantos amores, quantas tardes e noites bem passadas! Um grande abraço, vejo que o teu regresso é em grande.