segunda-feira, 19 de maio de 2008

Quanta Luz!

Praia da Luz, 11 de Maio (foto da Rosarinho)

Quantas cores será possível divisar neste mar chão? Quantas nos veios da montanha cuja erosão acompanhamos, ano após ano, nos passeios até à Rocha Negra, como quem se espanta com o crescimento de uma criança ou de uma palmeira? Quantas pedras tem a Calçada dos Gigantes que nessas andanças atravessamos, analisando o gume afiado das que caíram, perfeitamente paralelepipédicas, desde a última vez que por aqui passámos? Quantos sustos, quantas ondas, ao aventurarmo-nos por aqui na maré alta? Quantos caçadores de tesouros terá comido o Dragão que habita - e ouvimos - na Cova homónima? Quantos windsurfers e esquiadores? Quantos chapões? Quantos barquinhos vindos da Ponta da Piedade, quantos da Ponta da Gaivota e, para lá desta, quantos pôres-do-sol de quantos tons e temperaturas? Quantas toalhas perdi, quantos pares de chinelos? Quantos primos estarão connosco nestas férias? Quantos tios? Quantos engates na pista do Privé, ao balcão do Mirage ou através da sebe do jardim? Quantos poemas começados, quantos mostrados à Avó Gina, sentada a ver o mar? Quantas tâmaras caídas da palmeira grande, que já não está, quantas abelhas me picaram o pé por lhes ter pisado o doce manjar? Quantas formigas numa flor de hibisco? Quantas folhas da árvore da borracha, quantos picos nos cactos, quantas braçadeiras rotas pelo espigão de uma piteira? Quantas cerimónias de abertura e encerramento de Jogos Olímpicos, Europeus e Mundiais de Futebol? Quantas amizades efémeras ou não tanto? Quantas partidas de ténis no Luz Bay, quantas de snooker nos cafés atrás de casa, quantas de Trivial Pursuit até ser dia? Quantas discussões sobre quem vai despejar o lixo? Quantas lágrimas e zangas muito mais sérias? Quantas gargalhadas ao recordá-las no ano seguinte? Quantos trouxe cá pela primeira vez? Quantos quero me venham comigo até à última? Quantas horas (três, ainda?!) para o Baptista abrir, que os miúdos já acordaram e alguém tem de ir ao pão? Quantos bolos quentes depois da noite? Quantos "repimpas" comprados na loja da praia, quantas pulseiras fanadas das banquinhas, quantos barcos a remos que não duravam mais de um Verão? Quantos filmes da tanga no cine-estúdio? Quantas doses de cogumelos no Golfinho, quantas churrascadas com a mestria assegurada do Pai, quantos jantares nas várias casas do nosso "comboio", por vezes com o mesmo elenco? Quantos mergulhos à socapa na piscina do senhor Simão? Quantos peixinhos no anzol do Zé Pedro? Quantas conversas com a Maria? Quantos habitantes na cidade em miniatura que o vento esculpiu na pedra? Quantas revistas cor-de-rosa no Capricho, quantos jantares na Concha ou no Poço (e nós a aguar, tomem lá uma nota e vão aos hambúrgueres)? Quantos peixes no mercado de Lagos? Quantas tartes de alfarroba? Quantas gotas de Otoceril, Sofia, que este ouvido dói cada vez mais? Quantos polvos na Baía dos ditos? Quantos anos mais, Dona Hermínia, já com mais de 80 e ainda tão lesta? Quantas amêijoas em Castelejo e mexilhões no velho Rocha Negra? Quantos filhos já, Dora? Quantos cocktails esquisitos trazidos pela Célia do Internacional? Quantos cães no pátio de baixo, de que o Leão e o Baco eram os mais lindos? Quantos bifes bêbados, quantos de nós? Quantos mergulhos no Poção? Quantos escaldões, quantos cremes no saco de praia da Mãe? Quantas palavras cruzadas, sudokus e kakuros? Quantas melodias no assobio do Baltazar, a regar a relva pela manhã? Quantas nos altifalantes da Fortaleza? Quantas nas cordas dos violinistas que actuam na Igreja? Quantas melgas mortas no tecto até podermos ir dormir? Quantas amonas? Quantas guitarradas? Quantos cabem na ilha insuflável? Quantos pés de escalracho no jardim, quantos nomes gravados na rocha amarela, quantos metros irão desta até à areia na nossa prainha, que ora há ora não há?

16 comentários:

Anónimo disse...

Quantos aromas? infinito. como a linha do horizonte da minha praia, da luz.

Por entre o luar disse...

:) muito giro*

beijinho e sOrrisinho:P*

Manuela Viola disse...

Ler este texto é um caminhar por sensações.
Bjo.

Huckleberry Friend disse...

Anónimo, só tenho pena de não saber quem é... pelos vistos partilhamos o amor por este paraíso do Garbe! Cumprimentos.

Por entre o luar, dá lá um salto e vais ver que ainda é melhor. Beijos e sorrisos!

Manuela, foi o que tentei... para mim próprio, a ver se matava as saudades! Beijos.

Alf disse...

Ai o Pirata...

Devemos ter passado férias juntos, então.

Beco das Palmeira, nº 31.

Eu lavava os carros dos vizinhos bifes endinheirados para ganhar algum para os copos...


Abraço

Mário disse...

Quantos? Tantos!

"Já vivemos tanto e tão pouco, que há-de ser de nós?" (Sérgio Godinho)

Quantos? Todos esses e ainda os que falhámos e os que planeámos, os que sonhámos e os que imaginámos. Os que foram fantasia e os que foram realidade. Os que desejámos e os que em presente convertemos. Os que fugiram. Os que voltaram. Os que, dos quais, como a Maddie, se desconhece o paradeiro.

Os que estão nas nossas células, os que se fundiram no nosso ADN. Os que nos provocam um sorriso, uma nostalgia, um arrepio, um esgar. Ou uma gargalhada, e um bom sabor no fundo da memória.
Quantas cervejas desvirginámos? Quantas estrelas cadentes contámos? Quantos churrascos se pegaram à grelha? Quantas nortadas nos estragaram o banho? Quantas enviadas passaram entre dois goles de gin?

Obrigado, Pedro, por este magnífico trabalho de sensações, sentimentos e recordações.
A praia ficou com mais luz... e eu também!

Huckleberry Friend disse...

A sério, Alf? O mais engraçado é que eu tinha um amigo Alf na Praia da Luz, mas sei que não eras tu... bom, se ainda não nos encontrámos por lá, quem sabe um dia destes? Ah, e pago-te uma imperial, que os bifes agora andam mais forretas. Abraço!

Eu é que agradeço,pai. Afinal, de algum lado da árvore genealógica me veio a Praia da Luz... beijinhos!

MariaV disse...

Pedro, que beleza! Vai lá ver ao meu cantinho, fiz um post mais "prosaicozinho" com a mesma fotografia! e linkei p/ aqui, claro!
Com que então, Alf, também vais para lá? Quem sabe, talvez o Huck nos pague a imperial aos dois, lá.
E sabes, Pedro, eu conheço o teu amigo Alf da Praia da Luz. É um dos meus "sobrinhos"! Irra, ter que assumir a nossa "generation gap" é obra!
Também fiquei curiosa. Quem será o anónimo?
Beijinhos

Alf disse...

Eu não vou para lá. Eu ia...

Huckleberry Friend disse...

Mary Rose... despite the sun, eis-me a trabalhar. E, because of you, não consigo concentrar-me em nada que não seja a Praia da Luz! Já lá vou deixar a minha achega ;) beijinho grande grande grande, da Calheta ao Matias!
PS: Há anos que não vejo o Alf (o da Luz!). Se o encontrares, manda-lhe um abraço!

Alf (o do jardim): ias, deixaste de ir, mas podes fazer uma visitazinha de cortesia, não? Olha que já somos dois a propor-te um copo... e eu mantenho a promessa de pagar a primeira rodada! Abraço.

Alf disse...

Claro que a visitinha é agendável. Ainda por cima com copos de oferta...

Pedro disse...

Boa! Este ano calha-me a última semana de Julho, que a casa é dividida entre o meu pai e sete irmãos... aparece quando quiseres, que eu vou ver se alicio a Rosarinho!

Huckleberry Friend

Sofia disse...

Pois a Praia da Luz também já é meu porto de abrigo! Sei as histórias de ouvir contar e vou criando as nossas, com os 'quatro porquinhos' que andam comigo por ali e os outros que a nós se juntam (para o ano há mais um a juntar-se à festa!)

Já tenho o meu nome gravado na rocha e histórias na praia à noite há muitas. Nem todas contáveis! Noites de churrascada, de luar, sentada na relva a contar as estrelas, depois dos 'anjos' irem dormir... (às vezes dá vontade de me deitar tão cedo como eles!)

Passar a manhã na praia em sessões contínuas de banhos e correr para casa, para apanhar a água da mangueira ainda quente. Fazer um almoço rápido e deitar as pestes para as duas a três horas de descanso, que acabam muitas vezes em sestas minhas, dentro da piscina dos pequeninos.

Gosto dos dias em que vamos tomar o pequeno-almoço a Lagos, comer croissants com doce de ovos, com chocolate e banana; ou os pequenos-almoços num café holandês na luz e comer bolo de chocolate branco; das tardes de passeio pelas grutas da Ponta da Piedade; das idas aqui e ali para jantar, comer marisco; das sandes de Baked Beans no 'Mar à vista' e das horas passadas no Baptista a fazer contas à vida, depois da vontade que dá comprar todos aqueles produtos maravilhosos.

Saudades dessa Luz que, este ano, vai ser nossa por menos tempo! Mas acredita que hei-de fazer tudo aquilo que gosto! E espero ver-te por lá!

beijinhos

Huckleberry Friend disse...

Gosto da Luz.
Gosto que gostes da Luz.
Gosto que a Luz também já seja tua.
Gosto mais da Luz contigo lá.
Gosto de ti.

Beijinho grande...

Migas disse...

Que texto tão inspirador. De repente, cheirou-me a férias! Acho que muitas dessas sensações se repetiram em outras praias, com outros personagens. Revi-me, sem conhecer a Luz.

E que continues a desvendar mais experiências para nos vires contar "quantas", agora são.

Huckleberry Friend disse...

Querida Migas, cheira mesmo a férias e acabo de vir de quatro dias delas... não na Praia da Luz, mas na Zona Oeste, aqui mais perto de Lisboa. É certo que muitas das recordações que guardamos das nossas praias se repetem noutros areais, com outros protagonistas. E o engraçado é que episódios que tanta gente viveu em tantos sítios continuem a parecer-nos únicos. E que continuemos a ter por só nossas essas praias que são de tantos. E que tudo isto seja absolutamente legítimo e indiscutível! Beijinhos.