terça-feira, 22 de abril de 2008

Para quê complicar?

Ingredientes: uma única folha de papel, tesoura e mãos. Eis as obras apresentadas a um concurso da Galeria Hirshorn de Washington DC, ou de como pouco pode chegar para fazer muito. É só querermos... (obrigado, prima Peanut, por me teres mostrado isto!)


























sexta-feira, 18 de abril de 2008

Cais das Codornizes (XII)

Com o fim-de-semana à porta, a sugestão é partir em busca de um sítio mágico. Um lugar que se torne o centro da Terra, uma fonte de vida, o começo do infinito. Um recanto escondido onde só se possa ser feliz. Nestas coisas, nada como prescrutar as origens. Se o Cais das Codornizes nasceu com Tes gestes cantado por Moustaki e Reggiani, ouçamo-los de novo. Serge no codornizes, Georges no cais. Em busca do paraíso...


Serge Reggiani, C'est là

Blogues à sexta (XVII)

Os meus encantos

Quando o codornizes recebeu o prémio "É um blog muito bom, sim senhora!", passou-o a seis outro blogues. Quis o acaso que os mesmos pertencessem, precisamente, a seis senhoras. A última delas - só por causa da ordem alfabética, atenção! - é a Cris, cujos encantos hoje destrinçamos. Esta semana houve blogues à quinta e à sexta, já que na semana passada a rubrica falhou...

Os meus encantos é um espaço que pacifica quem o visita, mormente quando passa músicas como a dos Black Sabbath que está a tocar hoje. Gosto da cor do fundo, do visual limpo, da cor chocolate com que a autora escreve coisas bonitas. Até o facto de a maioria das fotos ser a preto e branco ou sépia dá a este blogue uma coerência tranquilizadora. E parabéns à blogmistress pelo rigor na atribuição de créditos, que infelizmente ainda não se generalizou na blogosfera!

Com intervalos de alguns dias entre entradas, a Cris combina prosa, poesia e imagem em apontamentos muito pessoais, mas não despudorados. Aos seus versos sentidos alia os de outros autores, os tais que dizem o que nem sempre conseguimos pôr cá fora (e que dão tanto jeito!!!). Os vídeos e as músicas também dão um ar de sua graça. Mas sejamos claros: neste blogue, a pole position pertence à escrita. Num tom intimista, a graças ao destaque dado a alguns comentários enviados por gente amiga, nasce um diálogo sincero e despretensioso, às vezes comovente.

Só dois reparos antes da visita guiada a Os meus encantos: 1) não sei se será do meu monitor, mas o arquivo do blogue, os links e a música de fundo aparecem cá em baixo, onde raramente algum leitor chega. Não dá para puxá-los para cima, ao lado do texto? 2) não consigo encontrar links individuais para cada entrada, o que seria muito conveniente para o parágrafo que se segue...

Vamos lá, então, fazer uma selecção das entradas mais recentes da Cris: um fim de tarde com sabor a sal, uma prova de amor fraternal, danças sobre primaveras, um recado para um pai, açúcares, campos verdes com rios dentro e um mimo de mãe para filha. Parabéns pelos teus encantos, Cris! Que continuem a encantar-nos...

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Blogues à quinta (XVI)

Piano

Mais uma semana, mais um blogue que gosto de visitar, ao ponto de lhe ter passado esta batata quente. Descobrir, tecla a tecla, o piano da Isabel Mendes Ferreira é uma experiência tão saborosa quanto o seria sentarmo-nos na rosa de pedra de Paulo Neto, que hoje abre o blogue, a ouvir a música que desata a tocar mal chegamos (sobre esta, tive pena de não encontrar informação de título e intérprete).

É difícil caracterizar este piano. Ao ler as entradas que o vão preenchendo, sinto-me, acima de tudo, desafiado. Tenho a sensação de que a autora lança reptos, fragmentos cuja coerência nos cabe encontrar - e há sempre uma! -, combinando-os ou complementando-os com o que nos vier ao espírito. As imagens são grandes e absorvem-nos o olhar (tenho a sorte de ter um monitor grande no meu local de trabalho), sobressaindo do fundo preto. As palavras mudam de corpo, tipo de letra e tamanho, obrigando o pensamento a acertar agulhas, e há silêncios _________ llansolianos.

O blogue mantém um grande número de entradas online. Não tem lista de links nem arquivo (é pena), apenas o perfil da autora, que tem mais um blogue, de acesso restrito, e colabora noutro. Um périplo pelos conteúdos mais recentes traz-nos corpos e pedras debaixo do céu, esqueletos e lágrimas férteis, serpentes luso-francesas à beira-mar, esboços a preto e branco, travos e trevos de fogo, a sereníssima Veneza e anjos ao ocaso. Continuaremos a saltar pelas brancas e pelas pretas, Isabel. Felicidades!

quarta-feira, 16 de abril de 2008

O voo da codorniz com Google Earth (XXII)

A Corunha, Galiza, Espanha

A marginal da semana passada e a quantidade de memórias que suscitou levam a codorniz a procurar outras maresias. Ei-la que voa para Norte e sai (sai?) do país, seduzida por um passeio marítimo mais sinuoso, com curvas e contracurvas por onde circulam os eléctricos que Lisboa não quis. Que prazer o de descer, uma vez mais, o istmo que liga Portugaliza a A Corunha! É uma cidade sempre amiga, quer nos acolham amigos de braços sempre abertos - que a cada visita nos ensinam mais uma das belezas que há nos arredores - ou, da única vez que deles nos desencontrámos, um modesto quarto de hotel atrás do estádio do Deportivo.

São manhãs a ver o porto da varanda da Charo e do Ánxel (e o Chus, por onde andará?), tardes a descobrir Rias Altas e Baixas, passeios pela barafunda das rúas do centro ao fim do dia, uma vieira aqui, um pulpo à feira acolá, raxo e zorza bem regados, conversas nocturnas na Baía de Riazor/Orzán. Ora falamos a mesma língua, ora nos entendemos sem nada dizer. À socapa, de madrugada, A Corunha prepara-nos surpresas de que só nos daremos conta depois de termos deixado para trás as terras galegas, com um adeus e uma saudade necessariamente provisórios. A cidade deseja que voltemos, só pode, ou não se nos gravaria na pele com a força de uma vaga contra a Costa da Morte, o calor que pela garganta escorre quando bebemos queimada, o peso das pedras que mantêm de pé, há 1900 anos, a Torre de Hércules, farol que guia navios tresmalhados e coluna (corunna, em latim) que deu o nome à terra a que dedico este poema alheio.

Georges Moustaki, C'est là
(a versão cantada está mais acima)

C'est là que le monde commence
C'est le début de l'infini
Jardin secret couleur de nuit
Royaume d'ombre et de silence
Terre promise île déserte
Refuge crypte et oasis
Jardin de nos plus doux délices
Source toujours redécouverte
C'est là le centre de la terre
Où se rencontrent nos envies
C'est là que se donne la vie
Royaume d'ombre et de mystère
C'est là que commence le monde
Là où ta main guide ma main
Pour mieux lui montrer le chemin
Au coeur d'une forêt profonde
J'y découvre des paysages
D'étranges fleurs d'étranges fruits
Dans cette étrange galaxie
Où me conduisent mes voyages
C'est là le centre de la terre
Le saint des saints le lieu précis
Où de naguère à aujourd'hui
Je me noie et me désaltère
C'est là que le extase commence
C'est le début de l'infini
Jardin secret couleur de nuit
Où tu recueilles ma semence

terça-feira, 15 de abril de 2008

Músicas que ficaram (VI)

Eis-me, pela penúltima vez (por agora!), a debitar discos que me marcaram (está quase, Marta!). Já cá faltava Reggiani, ao vivo como nunca tive ocasião de vê-lo. Em palco, dava asas ao talento dramático, gracejando e improvisando sketches. Actor de renome, diseur como poucos, começou a cantar depois dos 40 anos. E só parou quando morreu, no mesmo dia que Carlos Paredes. "Quando soubemos, ficámos sem dizer nada, ouvíamos as músicas dele, mas não cantávamos", recordou-me alguém, há tempos. Agora cantamos, cada vez mais alto. Esta manhã, trocámos versos desta canção linda, à qual Serge apunha, como prefixo, um poema de Guillaume Apollinaire:



Reggiani em public - Olympia '89, Serge Reggiani (Sous le pont Mirabeau/Et puis)

Verdadeiro choque de titãs no que a música e poesia diz respeito, a entrega de hoje traz também "o capitão do mato / Vinicius de Moraes / Poeta e diplomata / O branco mais preto do Brasil / Na linha direta de Xangô, saravá!". Com Toquinho, o que não é despiciendo. O disco é lindo, só o tenho em vinil - é um de muitos - e sei as letras quase todas de cor. A bênção, poeta!



São demais os perigos desta vida, Vinícius e Toquinho (Regra três)

E terminamos com Rick Wakeman, pianista e compositor que aprecio quando não exagera no tom new age. Este álbum, que ouvi vezes sem conta num walkman, faz parte de uma trilogia: mar, campo e noite. Gosto de adormecer ao som destas árias ou destes ares (tradutore, traditore)...



Sea airs, Rick Wakeman (The sailor's lament)

Entregas anteriores: I, II, III, IV & V

Espírito Olímpico

Simbologia do logotipo dos Jogos de Pequim






Nota: Se alguém souber quem é o autor dos desenhos, faça o favor de dizer. Procurei, mas em vão.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Um mimo à hora do almoço

Era miúdo quando comecei - sem dar por isso - a trautear o Concerto n.º20 para Piano e Orquestra de Mozart (K466). Nas noites da Praia da Luz e nas tardes de Inverno do Toxofal, o meu pai punha-o a tocar num leitor de cassetes que veio a ser, mais tarde, o primeiro que tive na minha mesa-de-cabeceira. Brincar com música de fundo é uma forma nada chata de aprender a apreciar coisas bonitas.

Hoje, uma leitura matinal deu-me vontade de voltar a ouvir este concerto. Não era um texto sobre música nem sobre memórias de infância, mas deixou-me na boca um sabor a pureza reencontrada. Furto-me a dizer mais sobre o que li e peço a quem mo mandou que não se denuncie, caso leia isto. Mas, por ter ficado sem palavras, quero agradecer com música.

Wolfgang Amadeus Mozart, Concerto n.º20 para Piano e Orquestra K466 (Friedrich Gulda, ao piano, dirige a Orquestra Filarmónica de Munique)

1. Allegro (dois primeiros vídeos)
2. Romanze
3. Allegro assai Rondo


1. Allegro (primeira parte)


1. Allegro (segunda parte)


2. Romanze


3. Allegro assai Rondo

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Cais das Codornizes (XI)


Entre cais e codornizes, temos seis irmãos - três manas e três manos. Fazem um corte transversal na pirâmide etária: são adultos, adolescentes e crianças. Têm semelhanças entre si e connosco, mas, sobretudo, personalidades vincadas e singulares. É a eles e a elas que dedicamos a esta Maninha, porque os irmãos estão sempre lá para nós, a recordar canções e a afastar papões. Como não podia deixar de ser, escolhemos versões cantadas por irmãos: Caetano e Bethânia para a Sofia, Chico e Miúcha para o Pedro.


Chico Buarque e Miúcha, Maninha

Se lembra do futuro
Que a gente combinou
Eu era tão criança e ainda sou
Querendo acreditar que o dia vai raiar
Só porque uma cantiga anunciou

I'd like to be / under the sea...

Duas canções, dois propósitos: celebrar a actualização do Beatles Forever! e pedir ao santo meu homónimo que permita uma mergulhaça no fim-de-semana. Vá lá, pá!


The Beatles, Octopus's garden (para a Teresa)


Juan Luis Guerra, Borbujas de amor (para quem sabe,
com imagens d'A pequena sereia da Disney)

quinta-feira, 10 de abril de 2008

O voo da codorniz com Google Earth (XXI)

Da Azarujinha a Cascais, Portugal

O paredão tem 2,7 quilómetros. Ou 5,4, porque o fazemos nos dois sentidos. Descida a exígua e traiçoeira escadaria que conduz à praia da Azarujinha, Moustaki diria que on part avec le cœur qui tremble / du bonheur de partir ensemble / sans savoir ce qui nous attend. Antes de mais, há que auscultar o ritmo da respiração do mar, a batida cardíaca de cada nuvem e o compasso escolhido pelas gaivotas para o seu piar, algures entre o guincho e o choro.

Canta-se quase sempre. A dois, a três ou a solo. Quando é a solo, os outros tentam descobrir que música é que o solista está a estragar, ou se estará apenas a fazer coro com as gaivotas. Fala-se quase sempre. De muita coisa. Daquilo que é importante e daquilo que passa a ser porque nos seduz à passagem. Mas, acima de tudo, olha-se - sempre, e como não? - para quem passa. O paredão é um viveiro. Famílias nas esplanadas, casais a passear bebés lindos, grávidas a prometer igualar-lhes o feito, miúdos a correr ou a azucrinar os crescidos com os porquês tipicos da idade que têm, adolescentes no namorico ou a arrastar as horas em grupo (que bom!), velhos com energia de atletas e, inevitavelmente, caras amigas com quem pôr em dia a vida, as preocupações e as utopias.

Azarujinha, Poça, Piscina Alberto Romano, Tamariz, Moitas, Duquesa, Conceição, Rainha. O prémio para quem chega a Cascais é um petisco ou outro, cerveja ou Coca-cola, seguidos de Santini se a fila não for proibitiva. Se for, paciência. Paciência e um palavrão a escapar-se-nos pelo canto da boca. Depois de callejar um pouco pela vila - livros usados, roupa inacessível, jornais estrangeiros, pormenores arquitectónicos e geográficos -, o eterno debate: alguém protesta cansaço, fala-se em voltar de comboio, cede-se ao marulhar das ondas e ao bronze dos últimos raios de sol e acaba-se por decidir que o caminho será feito a pé até onde der e com todas as paragens que as pernas ou as costas pedirem.

Mas não pedem. Distraem-se com a espuma, que desafia a balaustrada nos troços em que a há e que mina o equilíbrio dos andarilhos quando se espraia pela largura da pista de dança. Quando damos por nós a pedir tréguas, já a torre cor-de-rosa de São João do Estoril está demasiado perto para que valha a pena pensar em alternativas (quando muito, o consolo de um gelado Olá se o Santini tiver falhado). A penantes, pois, até à minúscula enseada onde tudo começou. Fotografando tudo o que provar merecê-lo. Algures a meio do périplo, um mergulho que sabe melhor porque alguém fica a ver. O mar impregna-se-nos na pele e desconfio que é por isso que voltamos sempre a responder ao apelo do paredão. Estou convencido até de que é a pensar nisso que mergulhamos.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Soberbo


Uma das mais bonitas salas de Lisboa foi ontem inundada pela voz do melhor contratenor (o meu registo preferido) do mundo. Trazido pela Gulbenkian e acompanhado pelo grupo Lux Orphei, que dirige, o basco Carlos Mena brilhou, na Academia das Ciências, em oito cantatas e um lamento. As cantatas ficaram-nos nos ouvidos. O lamento colou-se-nos à boca quando tivemos de deixar a sala, findo o recital. Obrigado a quem convidou, obrigado a quem se nos juntou, obrigado pela agradável conversa ao intervalo.


Carlos Mena, Salve Regina de Tomás Luis de Victoria
(acompanhado ao alaúde por Juan Carlos Rivera)

NOTA: Não consegui encontrar nenhuma das peças interpretadas no serão que relato. Ouvimos Benedetto Ferrari, Bernardo Storace, Giovanni Sances, Claudio Monteverdi, Alessandro Scarlatti, Antonio Cesti, Giovanni Bononcini e Georg Friedrich Händel.

terça-feira, 8 de abril de 2008

What the Huck?!

Huckleberry Finn numa ilustração de E.W. Kemble

O dia em que o codornizes cumpre seis-meses-seis é o momento certo para desfazer equívocos e devolver ao simpático rapaz da imagem a identidade que nunca lhe quisemos roubar. Este é Huckleberry Finn, o amigo de Tom Sawyer, que aparece nos livros As aventuras de Tom Sawyer, Tom Sawyer detective, As viagens de Tom Sawyer e, claro está, As aventuras de Huckleberry Finn. Mark Twain terá baseado esta figura em Tom Blankenship, filho de um bêbado que vivia numa barraca ao pé do rio Mississípi, atrás da casa onde o escritor foi criado, em Hannibal, Missouri.

Este é Huckleberry Finn, que tem toda a pinta de ser um gajo porreiro, mas nada que ver com o nome com que que assino as entradas deste blogue.

Onde fui buscar, então, o Huckleberry Friend? À belíssima letra de Moon river, a canção de Henry Mancini (música) e Johnny Mercer (letra) que inaugurou, quase por acaso, o codornizes. E que já cá apareceu outras quatro vezes. Já carregaram nos quatro links? Então ouçam e vejam uma sexta versão ao sexto mês. É das mais bonitas. Conduziu-me a ela um precioso blogue e foi por isso que decidi elevá-la a hino deste ninho.


Audrey Hepburn, Moon river (do filme Breakfast at Tiffany's)

Henry Mancini afirmou, um dia, que Moon river fora escrito para Audrey Hepburn: "Nunca houve ninguém que a percebesse de forma tão completa. Há mais de mil versões desta canção, mas a dela é inquestionavelmente a maior". Tinha toda a razão. Quando Audrey morreu, a Tiffany's pôs uma enorme fotografia dela na montra, dizendo apenas "To our Huckleberry Friend" (obrigado pela dica, Teresa).

E porque há huckleberries em Moon river? Johnny Mercer explicou que, em miúdo, costumava ir apanhar huckleberries com os amigos, à beira do Mississípi (onde brincava, roubava e fumava Huckleberry Finn, reparo agora!). De onde a referência a este fruto silvestre num poema sobre sonhos, sonhadores, arco-íris, corações partidos e o muito mundo que há para ver.

Moon River, wider than a mile,
'm crossing you in style some day.
Oh, dream maker, you heart breaker,
wherever you're going I'm going your way.

Two drifters off to see the world.
There's such a lot of world to see.
We're after the same rainbow's end
waiting 'round the bend,
my huckleberry friend,
Moon River and me.

Não pude deixar de ir investigar que raio vinha a ser um huckleberry... é uma baga, ou melhor, são várias, pertencentes a dois géneros da família Ericaceae: Gaylussacia e Vaccinium (este é o que inclui o mirtilo). Dois géneros que se ramificam em mais de 40 espécies, com cores que vão do vermelho vivo ao azul-arroxeado quase preto.

Gaylussacia brachycera


Gaylussacia baccata


Gaylussacia dumosa


Vaccinium parvifolium

Vaccinium uliginosum

Ao contrário do que possa parecer, não são groselhas nem mirtilos. Não sei como chamar-lhes em português. Vi huckleberry traduzido por baga de murta, uva-do-monte e fruta-do-lobo. Mas não me importa o nome: quero provar esta fruta. Vai-me saber, estou certo, às coisas boas da vida, e será o equivalente sápido ao som de Moon river, ao prazer de escrever e receber visitas neste blogue, à elegância de Audrey Hepburn, à beleza de quem amo, ao futuro que nos espera para lá da curva do rio.

Em Abril, águas mil

"Isto é São Pedro a lembrar que os provérbios são para ser ouvidos", explicava-me, ontem, uma entendida no assunto. Hoje, chateadíssimo com o trânsito na descida da A5 para a Marginal, ao pé do Estádio Nacional, preparava-me para sorrir ao som desta música, socorrendo-me para tal da memória ainda fresca de um passeio ao sol pelo paredão de Cascais. Eis senão quando o rádio interrompe, malcriado: "Informação de trânsito: complicações na descida da A5 para a Marginal, ao pé do Estádio Nacional..."


B.J. Thomas, Raindrops keep falling on my head

segunda-feira, 7 de abril de 2008

San Vicenç de Sarrià

Plaça de San Vicenç de Sarrià, Barcelona (foto PC, Agosto 2005)

Tanta chuva depois de tanto sol trouxe-me saudades de "Barna", dos amigos que lá moram, dos momentos inesquecíveis que lá tenho passado, ora só, ora em boa companhia. Decidi-me, por isso, a terminar um poema começado há sete anos, entre um café do Passeig de Gràcia e uma varanda onde nunca está frio.

San Vicenç de Sarrià

Parecem os mesmos do ano passado,
no mesmo sítio (um ano!) e à mesma hora.
Ela no mesmo tom, que vai embora,
E ele geme e está mais gordo (ou mais delgado?).

Que tenho eu com isto? E porque não
escandir antes o ocre das fachadas,
que dessas há certeza, e as ensaimadas
cheias de açúcar (sacudo-o para o chão)?

Teimosas pálpebras, fiquem caladas!
Se ele chora e ela também, eu canto um fado
Que o santo aplaudirá do pedestal

Pois da montanha ao mar quem desarvora
Há-de voltar, amando, no Mistral
Só para me baralhar a narração.

Barcelona, Fevereiro 2001/Lisboa, Abril 2008

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Ó, vil inveja...

...que corrói os espíritos de mais do que um comentador deste humilde blogue às vossas ordens! O programinha para o serão de hoje tem suscitado reacções que vão do roxo ao verde, todas motivadas pelo mesmo pecado capital. Aqui fica, para de novo pôr à prova a pureza das vossas almas, uma amostrazinha do que foi o concerto de há dois anos, no Pavilhão Atlântico. O de hoje é no Campo Pequeno, a companhia é a mesma e, tal como ela, os abraços só podem sair melhorados. ROAM-SE!

Mark Knopfler, Our Shangri-la

the sun's dropping down in the bay and falling off the world
there's a diamond in the sky, our evening star in our shangri-la

Blogues à sexta (XV)

A menina dos olhos de águaHá semanas, passei ao blogue da Andreia Ferreira o prémio com que a Júlia Moura Lopes me surpreendeu. Ao abri-lo hoje, para preparar esta entrada, tive a certeza de que a escolha fora acertada: I don't believe in an interventionist God, cantou Nick Cave. A canção chama-se Into my arms e dá vontade de abraçar alguém, seja um ser de carne osso ou um Deus não-intervencionista.

Sobre fundo preto, fotografias gigantes são legendadas com textos de vários autores, entre eles - e com maior frequência - a dona do blogue. Tudo o que é alheio está devidamente creditado, incluindo a inquietante foto que encabeça este espaço. As entradas surgem com intervalos de três ou quatro dias.

Andreia recorre a um estratagema simples, não inédito, mas eficaz, para manipular o ritmo dos textos que publica: muda o tamanho do corpo da letra nalgumas passagens, o que influencia a leitura e a adapta porventura à força das imagens que acompanham cada escrito. É mais um blogue onde sobriedade não é - nem tem de ser em nenhum outro! - sinónimo de mononia.
Sobrevoando com olhos de água esta menina a quem me atrevo a chamar melancólica, damos com uma "Cupida" de olhar frontal, um espelho no qual alternam silêncio e rancores, boas ideias para Abril (a minha preferida é a do Perfect day), um dia do Pai com David Mourão-Ferreira, balões e José Tolentino Mendonça, um guarda-chuva esquizofrénico e Faulkner numa colcha de rendas.

Só dois reparos, Andreia: o nome do blogue mal se, porque a cor escolhida não contrasta com o preto de trás; a lista de links, arquivo, perfil e música perdem-se um pouco ao serem colocados em baixo, em vez de ao lado das entradas. No demais, muitos parabéns. Que boas águas continuem a iluminar os teus olhos!

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Primavera audaz

Praia do Caniçal (Lourinhã)

Primeiro dia do ano em mangas de pólo. Café a ver(mos) o mar antes da labuta. Ao almoço, salmorejo com o céu por tecto. Cheira-me que a Primavera já está armada em Verão. Deixá-la...

Cais das Codornizes (X)

Na música, como na vida, tudo tem várias versões. Até - ou sobretudo - os sonhos, as utopias, os impossíveis que se tornam possíveis quando conjugamos diferentes ângulos de visão. Os arco-íris que surgem quando deixamos que o sol atravesse a gota d'água, e que depois percorremos à procura de um caldeirão de ouro. Para lá de um desses improváveis arco-íris está o dueto póstumo que podem ouvir no cais: Katie Melua e Eva Cassidy cantam Somewhere over the rainbow, embora esta última tenha morrido quando a primeira era criança. No codornizes, a versão original, a d'O feiticeiro de Oz, cantada por Judy Garland.

Judy Garland, Somewhere over the rainbow
(do filme O feiticeiro de Oz)

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Pérolas do Statcounter

Eis, segundo o imprescindível Statcounter, algumas das buscas que têm trazido a este ninho certos internautas incautos.

as coisas pequenas do mundo em diametro
É facto que por aqui se presta atenção ao pormenor e às pequenas coisas de que se faz o grande mundo... o "em diâmetro" é que me intriga: quanto medirá a circunferência de um ovo de codorniz? Havia outro que perguntava se estes faziam mal. A mim, não! E um terceiro vinha à procura do "tamanho das menores coisas bizarras". Sobre isto, tenham paciência, mas já não me pronuncio.

capa de braço de sofá
Vá vossemecê ao IKEA!

criar a codorniz chinesa
Embora tenha genes vindos de muitas partes do mundo, uma delas não é a China. Esta codorniz é bem portuguesa...

figura cuidando-se pra cuidar bem
Que faço por cuidar da figura sabe quem me conhece, independentemente do êxito - or lack thereof - dos meus esforços. Também procuro cuidar bem dos outros, pelo menos dos que me são preciosos. Mas uma coisa não depende da outra... às vezes até se atrapalham mutuamente!

fruta huckleberry
Muitos dos que cá vêm associam a Mark Twain o nome com que assino as entradas. A história é outra e não falta muito para que a conte. Para já, fiquem a saber que a fruta que em inglês se chama huckleberry pertence a dois géneros da família Ericaceae: Gaylussacia e Vaccinium (este é o que inclui o mirtilo). Já vi huckleberry traduzido por baga de murta e uva-do-monte. Um dia destes mergulharemos mais a fundo neste fascinante universo...

mensagem de auto-estima para pais
Será que algum pai ou mãe encontrou neste blogue motivos para se ter em melhor conta? Se entre eles se encontrarem os meus, já tenho motivos para sorrir...

música lindinha do meu coração
Ui! Destas passam por cá aos montes, quase todos os dias. Não raro escolhidas com o fim irritantemente delicodoce que esta expressão tão bem traduz.

pinga 7 colinas
Não sei se se referem aos "oiros" que vão pingando para carregar o passe 7 colinas, à boa pinga que ainda se bebe pelas sete colinas de Lisboa ou a um pinga-amor que ama a sua cidade. Mas qualquer dos três podia vir dar à minha pessoa!

quero uma música onde possa dançar a dança do queijo
Não faço a menor ideia do que seja a dança do queijo. Resta-me esperar que as "músicas lindinhas do meu coração" permitam dançá-la...

quero ver fotos de rainhas,princesas e duquesas
Dirija-se, por favor, à revista Iola, pois quaisquer donzelas que por aqui passem têm direitos reservados.

sapos de pompom de lã
À chacun ses fétiches...mas esse, aqui, não!!!

seja qual for o caminho que eu escolher um poeta já passou por ele antes de mim
Ora, aí está uma bonita reflexão para fechar o lote!

terça-feira, 1 de abril de 2008

O voo da codorniz com Google Earth (XX)

Hydra, Grécia

Verão de 1995. Muito calor em Atenas. Templos, souvlaki, mussaka, bugigangas no Plaka e passeios em ronceironas. Éramos quatro: a minha irmã, eu e as anfitriãs Stella e Myrto, estas em constante algaraviada, como boas mãe e filha gregas. Fugidos da capital sufocante, aliviou-nos uma ilha esguia e árida, pouco menos do que Óbidos posta em cima do mar tépido, com montanha em vez de muralha e atravessada por brisas frescas ma non troppo.

Hydra não tem carros. Uma mula diminuta levou-nos as malas do delicioso porto até à morada do casal Panagyotou, tão hospitaleiro quanto mouco. Alugavam quartos sem licença. Se aparecesse fiscal, avisaram, éramos primos. E que déssemos cumprimentos a um amigo que tinham em Lisboa, de seu nome António. Se o mesmo for leitor do codornizes, ficam entregues, com 13 anos de atraso.

O resto foram passeios de barco, kalimeras e kalisperas a cada esquina, tentativas de decifrar os letreiros em grego, um escaldão na planta dos pés para um(a) dos veraneantes e pôres-do-sol no bar Hydronetta, antes ou depois de banhos de mar numa praia de seixos, ali mesmo ao lado, onde a Myrto invectivava os psaraiki (peixinhos) que nos vinham fazer companhia. Deixo-vos uma imagem da Wikipedia e um poema que a saudade inspirou.

(cliquem para aumentar, que vale a pena)

Requiem no Mar Egeu

Dizias-me (em Hydra) que o mar leva
os que quiser, bebendo
mazagrins
fermentados em copos muito altos
no nosso canto à entrada da baía

o pintor abraçava uma sereia
muito loira, vê na fotografia
que lhe invejei as pernas nas manhãs
em que as gaivotas eram só contraltos

agora não vejo o Peloponeso
sei de uma buganvília só na cal
da ilha, candeeiro de azeite aceso
sobre o mar que te quis para maré cheia

mas diz-me, a quem se paga o funeral?
às mulas velhas? às velhas?
whatever

Lisboa, 14 Novembro 2000

Tu gostas disto e eu sei


Shout out louds, Tonight I have to leave it

So I've heard you know how to write it
does it mean you're good at putting things on paper?