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quinta-feira, 23 de abril de 2009

Contagem decrescente para o 25 de Abril - 3


Susana Germade, Abandono (Fado Peniche),
com letra de David Mourão-Ferreira

Há bons e maus nisto das democracias e ditaduras. Podem dizer que nem tudo é a preto e branco, que eu subscrevo, mas é cristalino para mim que democracia é bom e ditadura é mau, pouco importando se estas últimas se dizem de esquerda ou de direita. Também tenho como bastante certo que a ditadura tacanha de Salazar, Caetano, Tomás, Kaúlza e outros prejudicou Portugal. O PREC também? É verdade. Felizmente, durou menos.

Parece-me absurdo que 35 anos não tenham chegado para se criar um Museu do Estado Novo. O projectado Museu Salazar de Santa Comba Dão preocupa-me menos do que a inexistência de um outro, que nos "conte como foi". Da idiota (re)inauguração, no próximo sábado, de um Largo Salazar nessa terra, digo o mesmo que aqui li: uma das conquistas de Abril é, para bem ou para mal, o direito ao mau gosto. E a PIDE não vai bater à porta do autarca que teve tal ideia.

domingo, 9 de dezembro de 2007

Há-de vir um Natal

Ladainha dos póstumos Natais

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito

David Mourão-Ferreira, in Cancioneiro de Natal