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segunda-feira, 28 de abril de 2008

Mão d'Água

Baleal, 17 Dezembro 2006 (PC)

Voltámos à sopa primitiva. Um pé na areia, depressa descalço, depressa submerso com o resto do corpo. Porque o princípio foi aqui e foi assim desde o princípio. À sempre comoção do regresso colou-se-nos a comoção inédita da estreia de um de nós. Que não levou, por frágil, o costumeiro carolo dos caloiros. Antes lhe passei uma mão pelo pêlo: gelada do mar, quentinha da ternura salgada que pus no passar, morninha da mão doce que repetiu o gesto antes de agarrar a minha. Fomos felizes.

Georg Friedrich Händel, Música aquática
(sei que gostas... foi das primeiras que ouviste)

sexta-feira, 11 de abril de 2008

I'd like to be / under the sea...

Duas canções, dois propósitos: celebrar a actualização do Beatles Forever! e pedir ao santo meu homónimo que permita uma mergulhaça no fim-de-semana. Vá lá, pá!


The Beatles, Octopus's garden (para a Teresa)


Juan Luis Guerra, Borbujas de amor (para quem sabe,
com imagens d'A pequena sereia da Disney)

quinta-feira, 10 de abril de 2008

O voo da codorniz com Google Earth (XXI)

Da Azarujinha a Cascais, Portugal

O paredão tem 2,7 quilómetros. Ou 5,4, porque o fazemos nos dois sentidos. Descida a exígua e traiçoeira escadaria que conduz à praia da Azarujinha, Moustaki diria que on part avec le cœur qui tremble / du bonheur de partir ensemble / sans savoir ce qui nous attend. Antes de mais, há que auscultar o ritmo da respiração do mar, a batida cardíaca de cada nuvem e o compasso escolhido pelas gaivotas para o seu piar, algures entre o guincho e o choro.

Canta-se quase sempre. A dois, a três ou a solo. Quando é a solo, os outros tentam descobrir que música é que o solista está a estragar, ou se estará apenas a fazer coro com as gaivotas. Fala-se quase sempre. De muita coisa. Daquilo que é importante e daquilo que passa a ser porque nos seduz à passagem. Mas, acima de tudo, olha-se - sempre, e como não? - para quem passa. O paredão é um viveiro. Famílias nas esplanadas, casais a passear bebés lindos, grávidas a prometer igualar-lhes o feito, miúdos a correr ou a azucrinar os crescidos com os porquês tipicos da idade que têm, adolescentes no namorico ou a arrastar as horas em grupo (que bom!), velhos com energia de atletas e, inevitavelmente, caras amigas com quem pôr em dia a vida, as preocupações e as utopias.

Azarujinha, Poça, Piscina Alberto Romano, Tamariz, Moitas, Duquesa, Conceição, Rainha. O prémio para quem chega a Cascais é um petisco ou outro, cerveja ou Coca-cola, seguidos de Santini se a fila não for proibitiva. Se for, paciência. Paciência e um palavrão a escapar-se-nos pelo canto da boca. Depois de callejar um pouco pela vila - livros usados, roupa inacessível, jornais estrangeiros, pormenores arquitectónicos e geográficos -, o eterno debate: alguém protesta cansaço, fala-se em voltar de comboio, cede-se ao marulhar das ondas e ao bronze dos últimos raios de sol e acaba-se por decidir que o caminho será feito a pé até onde der e com todas as paragens que as pernas ou as costas pedirem.

Mas não pedem. Distraem-se com a espuma, que desafia a balaustrada nos troços em que a há e que mina o equilíbrio dos andarilhos quando se espraia pela largura da pista de dança. Quando damos por nós a pedir tréguas, já a torre cor-de-rosa de São João do Estoril está demasiado perto para que valha a pena pensar em alternativas (quando muito, o consolo de um gelado Olá se o Santini tiver falhado). A penantes, pois, até à minúscula enseada onde tudo começou. Fotografando tudo o que provar merecê-lo. Algures a meio do périplo, um mergulho que sabe melhor porque alguém fica a ver. O mar impregna-se-nos na pele e desconfio que é por isso que voltamos sempre a responder ao apelo do paredão. Estou convencido até de que é a pensar nisso que mergulhamos.

terça-feira, 18 de março de 2008

Promessa a uma menina que amanheceu zangada com a chuva


Lulu Santos, Lá vem o sol

domingo, 30 de dezembro de 2007

Banho catártico


Já está. Fez doer os ossos, mas soube bem. O meu banho de Ano Novo (que às vezes, como desta, é de Ano Velho) foi no Baleal, num dia de sol a autorizar a manga curta, embora o mar fizesse jus à fama glacial que se lhe cola. Por entre surfistas de todos os tamanhos e idades, deslizava um caiaque aventureiro. Sem fato, só eu. Mergulho efémero, com passeio às Pedras Muitas como aperitivo, e um doce largartear ao sol, no pátio, como digestivo. A redenção final foi na banheira...

O ritual voltou, assim, à ilha que o acolheu durante muitos anos de adolescência. Era quase sempre às cinco da manhã do dia 1, com quantidades de comida no bucho e álcool no sangue a desaconselhar tal loucura. Nessa altura, éramos vários a cometê-la, por vezes au naturel. Nos últimos tempos, tornou-se um acto solitário, embora acompanhado por um olhar solidário. Azul, como o mar. Verde, como o mar. Cinzento, como o mar. Depende das marés e do céu.

No ano passado, dei este mergulho numa praia horrível de Marbelha cujo nome já esqueci. Há dois anos, na Concha de San Sebastián, num repente, com restos de neve sobre a areia. Riazor, na Corunha, e a mediterrânica Barceloneta também se revelaram excelentes anfitriãs. Mas em nenhuma tive a sensação de regresso à sopa primitiva que o Baleal me dá. A vida renasce, como o ano. E os ritos vão-se repetindo e renovando.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

O voo da codorniz com Google Earth (X)

Voar sobre terreno conhecido tem vantagens. A segurança. A calma. As memórias. O poder matar saudades. Esta é a minha terra. Esta? Sim, como o são Lisboa, o Baleal e tantas outras. A todas me aferro, qual Anteu, para recuperar forças. Cada uma revigora um dos humores vitais. Sobre o Toxofal de Baixo ando a preparar uma coisa para outro blogue. Se hoje me apeteceu pô-lo aqui, foi porque uma entrada sobre o sabor das maçãs me recordou mais uma das minhas velharias poéticas. O título do escrito até mudou.
Toxofal de Baixo, Portugal


Maçãs

Atrás dessas telhas quentes
Há uma manta de retalhos
Com que te quero cobrir
Se a meu lado te deitares

São fazendas são hectares
Que o Sol e a chuva submetem
São dias que se repetem
Num ritmo que não se usa
No pulsar de uma rajada
No brotar de uma colheita
Que, Deus deixando, há-de vir
Antes da data passada
Antes que o tempo que impera
Traga outra Primavera
Traga outro campo de azedas
Para o gado com placidez
Ruminar num devaneio

Atrás do telhado onde a gata
Dorme sem credo nem dono
Há poesias à espreita
E há maçãs verdes à espera
Que alguém sedento de um seio
Lhes vá provar a acidez
Que nessa manta difusa
Tudo tem a sua vez.


Lisboa, 27 Janeiro 1996

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Um poema com dez anos...

...mas que ainda não morreu. É para os leitores do codornizes, que a meio desta noite chegaram aos cinco mil. Parabéns a vocês!

Eu em Valmitão (foto de SK, Outubro 2007)


Contra o poente

Na tarde em que me procuro
a luz bate em janelas ociosas
e há um rio
Como num quadro onde não quis que me pintassem
as elegias tornam-se porosas
e dou-me conta de que o traço é azul

Rumor nas águas
respondem-me às falácias com vertigens
e enchem-me o olhar de curvas em perfeito movimento
como acácias
são sustos nesta ilha que às vezes sou
como eucaliptos

Às vezes eu queria que o tempo não passasse
durmo em céus fragmentados de Monet
entre ocres térreos, nuvens férreas, sons que alguém produz
cresce-me um querer ficar
um deixar-me ir
e um sol mais lento, que este já se pôs

Lisboa, 6 de Março de 1997

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Poema de/para quem vê o sol nascer

E um dia o Sol sem um cigarro
de manhã com sono, mas não:
o giz, as folhas cheias do que nem olhas
nunca se escreve a sério e não se diz
No entanto, há manhãs bonitas
sem credo nem dono
só barro e a mão modela, escreve, diz
o que querias que fosse acordar
a mazela doce de dormir ao Sol

Outubro 2000

Foto: nascer do sol no Baleal, por João Maria Baltazar