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quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Cais em Setembro

Paul Émile Chabas, Matinée de Septembre (1910-12)

Às vezes tenho saudades do Cais das Codornizes, onde a Sofia e eu nos divertíamos a encontrar versões diferentes e originais das músicas de que gostamos. Resta-me colocá-las aqui no ninho, porventura sem a piada do jogo de janelas de então, mas ainda assim com o prazer de ouvir estes e outros sons que me ajudam a aceitar que o nono mês chegou.



Neil Diamond, September Morn


Tina Arena & Gilbert Bécaud, C'est en Septembre

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Últimos cartuchos

Ontem, numa estrada de ondas, um cheiro a maresia. Permaneceu depois de me ter metido terra adentro. Ocupou-me o nariz, feito um posseiro, até de manhã. Trago-o numa celebração do Verão já extrema-ungido.

Laurent Voulzy, Derniers baisers

Le soleil est plus pâle
Et nous n'irons plus danser
Crois-tu qu'après tout un hiver
Notre amour aura changé?

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

O voo da codorniz (XXXI)

Paço d'Arcos, Portugal

É das baías mais queridas que conheço. Os barquinhos de pesca, o pequeno areal, as árvores, Lisboa ao fundo. O repuxo dispensava-se, mas também não chateia. Amigo da Marginal, passo por aqui vezes sem conta. Gosto mais ao fim da tarde.

À vila propriamente dita ia em miúdo, a casa de uma tia, numa rua que depois mudou de nome. Ainda me lembro do número de telefone. Um dia, da varanda, vimos um veleiro que encalhara no Bugio. Outro dia, provei raclettes. E comi Nucrema.

Estive muito tempo sem pôr os pés nesta terra. Passava de carro e, não fora o paço dos arcos - amarelo e velhinho, quem cuida dele? -, nem me lembraria do seu nome. A baía era bonita e bastava. Até que a vida profissional me trouxe de volta, há três anos e meio. Não trabalho ao pé do mar, mas vejo-o da janela, por trás dos prédios feios que algum autarca-modelo deixou construir. Os prédios onde ficam uma farmácia, um multibanco, um supermercado e até uma repartição de finanças a que já me habituei. A estrada que percorro, quase todos os dias, vindo da estação de comboio, onde um letreiro impediria - caso fosse preciso - que me esquecesse do nome deste lugar.

Paço d'Arcos faz, de novo, parte da minha vida. As vivendas, o café dos Queques da Linha, a Escola Primária que o Governo quer fechar, o cão que às vezes me faz saltar, o comboio-fantasma do Isaltino, caríssimo e sempre vazio, o mercado e a estação de correios são elementos da paisagem do meu quotidiano. Desde que aqui estou, até o quartel dos bombeiros já mudou de sítio. Como não desenvolver sentimentos de pertença?

Ontem estive, pela terceira vez, nas Festas do Senhor Jesus dos Navegantes, em Paço d'Arcos. O jardim que se vê na imagem fica pejado de barracas de feirantes, quiosques de caipirinhas (e caipiroskas, ou até caipivinhos!), cachorros e farturas. Com música surpreendentemente boa em pano de fundo, passase um bom fim de tarde no final do Verão. Não andei no carrossel, mas comprei dois belos livros, comi uma bifana deliciosa, passeei, namorei a baía e não só e fui feliz. E lá somei esta à longa lista das terras a que chamo minhas...

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Não dizem nada? Levam mais!

Amuado com os leitores do codornizes, que brindaram a minha última e emocionada entrada com um ensurdecedor silêncio (já lá andámos...), atiro-lhes mais do mesmo. Eis mais uma canção do novo disco dos fantásticos La oreja de Van Gogh, que leva no título o dia da semana por que anseio. Aquele em que começam as minhas férias. Até Setembro!

La oreja de Van Gogh, Jueves

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Quando eu era adolescente e o Verão era só despreocupação, escrevia coisas assim...

PC, 10 Maio 2008

Agosto

Dois passos
Na areia molhada
O mar que te molha os pés
A cadência
Marcada pelas marés
Levam-te sem saber
A não saber onde andas
A andar sem saberes quem és

Dois golos
Na cerveja gelada
O mar cantando uma canção
O desejo
De tocar naquela mão
Levam-te a viver
Como se afinal a vida
Fosse uma noite de Verão


Baleal, 31 Agosto 1995

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Poema para acabar o mês

Claude Monet, L'été, champ de coquelicots

Junho

A aragem que corta o calor
É a única mensagem
Que me chega neste instante

O sol fingindo ser dor
E o cantar daquela rola
São uma brincadera tola
Delírio desabafo diletante

São a causa ou o pretexto
Para mais uma tentação
De fugir ao meu contexto
Sabendo que o faço em vão

Toxofal de Baixo, 8 de Junho de 1996


O codornizes vai de férias
até 7 de Julho

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Primavera audaz

Praia do Caniçal (Lourinhã)

Primeiro dia do ano em mangas de pólo. Café a ver(mos) o mar antes da labuta. Ao almoço, salmorejo com o céu por tecto. Cheira-me que a Primavera já está armada em Verão. Deixá-la...

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

O voo da codorniz com Google Earth (IX)

Nazaré, Portugal

O voo desta semana leva-me a uma falésia escarpada que vale a pena subir, galgando degraus incontáveis ou vencendo o medo que dá o ranger do funicular. É uma terra linda, que as hordas do fim-de-semana tornam inóspita sem lhe roubar beleza. Mar fero. Um perfil desenhado contra o pôr do sol. Ou, mais atrás na memória, saudades de arrastar duas cadeiras até uma pequena varanda de cal, muito perto do Sítio, e de ficar horas à conversa com a anfitriã, sem quase pudor. Um poema dessa altura:

Nazaré

pode já não haver banhistas de roupão
mas há a montanha e o fim que não se vê
ou este canto, uma toalha no muro e o resto do sol

posso já não te encontrar na Nazaré
mas há o norte todo e as bolas de Berlim
ou desmentir a noite para que um dia não chores

podem ser quartos rooms e espalha a roupa
mas há vezes sem pressa em chambres zimmer
ou sobremesas de manga e a manga na mesa porquê

podemos não saber nada deste chão
mas há falhas com a textura do teu pé
ou o sítio das pernas que a arriba não poupa

pode não dar jeito ser permeável às cores
mas há o mar todo para salgar dom fuas
ou não dá para ser roupinho e ficar a ver de cima

podes já não saber bem ao que vim,
mas há de novo as pernas e quero-te nas duas
ou entra no mar e veremos que onda te engole


Toxofal de Baixo, 18 de Novembro de 2000

terça-feira, 20 de novembro de 2007

O voo da codorniz com Google Earth (VII)

Mais uma secção a tornar-se menos fixa... Os voos descolarão, doravante, à segunda ou à terça, conforme o vento. O de hoje até é a uma zona ventosa, por isso acompanhem-no com cuidado. A ideia, nunca é de mais recordar, é dizerem-nos o que vos sugere a paisagem.

Do Toxofal de Baixo à Praia dos Belgas, Portugal

Sobrevoo o itinerário e não quero crer... pedalei mesmo 17-quilómetros-17, com subidas e descidas, sem levar a bicicleta pela mão uma única vez? Assim foi. O passeio organizaram-no bons amigos, naquela que viria a ser a última manhã de sol do Verão até então imorredouro. O grupo compunham-no sete magníficos, entre eles o menos desportista dos vossos amigos (enchanté!).
Chamo-lhe passeio, não prova ou corrida, porque foi esse o ritmo a que pedalámos. A apreciar as cores das fazendas do Toxofal, o vale do Paço, a vista da Serra d'El-Rei para Baleal, Peniche e Berlenga... houve momentos de cumplicidade a dois ou a três, lado a lado em estradas menos movimentadas, num fluir de recordações, confidências e amizades antigas e recentes. O breve périplo pelo areal deu para inspirar a fundo e com tempo o ar que nos ia entrando, durante o trajecto, pelas narinas muito abertas.
Regresso tranquilo, já com um sentimento de missão cumprida e, no íntimo, o alívio de ver que o impossível nem sempre o é, que há caminhos alternativos (especulámos tanto, tanto!), que a aventura do mar ao fundo emociona tanto como o calor do regresso ao campo.
À chegada, esperava-nos um almoço de reis, cortesia dos que não pedalaram. Espetadas de peru grelhadas, bacalhau com coentros, ratatouille, o melhor pão do mundo e, para sobremesa, arroz doce (o balanço entre input e output de calorias foi, ainda assim, benigno). Vinho tinto e um café bem conversado encerraram essa parte da jornada. Pelo que me detenho aqui.

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Here stays the Sun, xurururu, here stays the sun...



O Verão, que é como quem diz o Estio-de-todos-os-anos, conseguiu mesmo espraiar-se até ao seu homónimo de São Martinho...

Toute la vie
sera pareille à ce matin,
aux couleurs
de l'été indien


L'Été indien, de Joe Dassin, de que a Avó Gina tanto gostava