José González, Heartbeats
Música para ouvir e poesia para ler, ou vice-versa, num dia especial. Não por se tratar do Dia Mundial de Qualquer Coisa (hipótese não descartável, porque quase todos o são), mas porque hoje o coração bate com mais força, com maior intensidade, a um ritmo alucinante. Estonteante. Esgotante. Que ninguém apanha.
Pulsação da treva, de António Gedeão
Fundiu-se a roda do Solentre os cedros afilados.
Desfez-se em azuis rosados,
tinturas de tornesol.
Agora, solenemente,
como um corpo que se enterra,
ao som de um sino plangente
desce a noite sobre a terra.
Campânula asfixiante.
Circula um terror nas veias.
Zumbem estrelas em colmeias
num céu alheio e distante.
Numa dormência de cova,
suspensa em leite de Lua,
toda a vida se renova
e a guerra continua.

Nas marés do protoplasma
flui, reflui, perene e forte.
Espreita as pegadas da morte,
persegue-a como um fantasma.
Cega e surda, impenetrável,
lateja, na treva urdida,
essa coisa inevitável
que é a vida.
NOTA: Imagens retiradas da Anatomia de Gray (com a e não com e, que é como quem diz do lendário calhamaço e não da simpática série televisiva)
