Avenue des Champs-Élysées, Paris, França
quarta-feira, 24 de setembro de 2008
O voo invejoso da codorniz (XXXII)
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quarta-feira, 9 de julho de 2008
Adenda à entrada de ontem
ao Mário Cordeireau. Estive na pontinha do Vert Galant, há dias,
a respirar o ar intenso e a relembrar os teus Avós, que sempre
que iam a Paris faziam uma jura de amor nesse ponto tão enigmático.
Tu sabes, porque tiveste o privilégio de passear com ela
(até ela perder dois quilos por dia!), inclusivamente teimando
que a Bastilha ainda existia e querias ver as ruínas. E ela teve
o privilégio de passear em Paris contigo e com a tua irmã.
Bons tempos, Setembro de 1989, dito assim parece até antes
da Guerra de 14-18.
Lembras-te da ameaça de bomba correspondente a uma mala
de 20x20 centímetros (minúscula, pois) que um tal Monsieur Ubu, passageiro da Air France, teria enviado no porão (ainda mais estranho, dadas as dimensões da dita), e cujo
não se encontrava a bordo? Tivemos de fazer o reconhecimento das nossas malas e consta que fizeram explodir o "petit paquet" do Monsieur. Tudo isto em Setembro, mas antes do 9/11...
Noventa anos, pois é, o tempo passa. E lembras-te do empregado do Hotel, que passou a tratar-nos como reis depois
de recebermos a visita do Embaixador de Portugal? De pedintes a "onorevole" em menos de um fósforo. Já não contarei aqui algumas das tuas birras dos dez anos de idade, mas relembrarei o particular interesse pelo "mot de Cambronne"... na estação
do dito. Tenho saudades. Da tua Avó, de Paris, de ti. Beijinhos, meu filho "primogénito".
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terça-feira, 8 de julho de 2008
O voo da codorniz (XXVIII)
Jardin du Vert Galant, Île de la Cité, Paris, FrançaFica na pontinha da ilha onde nasceu a Cidade-Luz, com o Pont Neuf - o mais velho de todos - a delinear-lhe a estrema. É pequeno, mormente à escala de Paris, mas veremos que é grande. A pequenez deste quarto de hectare resulta da concatenação de pequenezes ainda mais pequenas, ilhotas que houve no Sena em tempos idos. Numa delas, foram queimados os últimos templários.
O verde galante que dá o nome a este recanto é Henrique III de Navarra, que foi IV de França no limiar dos séculos XVI e XVII. Casou sem amor com Margarida de Valois (filha da megera Catarina de Médicis, vejam o filme com a Isabelle Adjani) e teve incontáveis amantes. Ela não se ralou, preferia o provençal Joseph Boniface de La Môle, cuja cabeça terá embalsamado quando Carlos IX o mandou esquartejar. Não divaguemos, porém: verde e galante era Henri, imortalizado em estátua no jardim que aqui nos traz. Verde e galante é este square, ainda poiso dilecto de galantes enamorados, não importa se verdes, se maduros. Quem me dera lá neste fim de tarde...
Tinha 10 anos quando visitei Paris pela primeira vez, com o meu Pai, a minha irmã Filipa e a Avó Gina. Apaixonada pelo Vert Galant, foi ela que me contou a história deste jardim, uma de muitas. E que guiou os meus primeiros passos pela cité, do alto da Torre Eiffel (que detestava) aos estaminés dos pintores da Place du Têrtre, do impressionista Quai d'Orsay à impressionante Sainte-Chappelle, y compris Louvre, grands boulevards, Quartier Latin, bouquinistes e esse bolo de noiva a que chamam Sacré-Cœur.
Há que explicar que o meu Pai ia em trabalho e só se nos juntava ao fim da tarde. Durante o dia, a Avó metia-se connosco no métro e lá íamos calcorrear Lutécia. Nós delirámos e ela também. Já voltei à cidade muitas vezes e em nenhuma deixei de sentir saudades dela e daquela estreia prodigiosa. Sempre bem disposta, aguentou uma suspeita de bomba no avião à ida (palavra!) e, com ainda maior estoicidade, ensinou Paris a dois netos frenéticos (os 11.º e 14.º dos 21 que tem, sendo que os bisnetos serão 26 antes do fim do ano). Se fosse viva, a minha Avó faria hoje 90 anos. Este apontamento sobre o seu querido Vert Galant é o beijinho de parabéns que gostava de poder dar-lhe.
NOTA: As fotos são, por ordem, de Robert Doisneau, Eugène Atget e Marcel Bovis
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segunda-feira, 14 de janeiro de 2008
O voo da codorniz com Google Earth (XII)
O pequenino Hotel du Ranelagh foi o poiso que me calhou da última vez que fui a Paris, há sete anos e picos. Isto descontando uma passagem fugaz em 2006, só trabalho, mitigada por um pombo de cinco temperos num restaurante chinês fino e umas coquilles Saint-Jacques na Biblioteca Nacional. Neve à chegada. Companhia agradável. Passeios zero.
Quentinho, acolhedor, o Hotel du Ranelagh fica perto do rio. Coube-me o último andar, com vista para os telhados de Paris e, se não me engano, o cocoruto da Torre Eiffel. Para o outro lado, fica o jardim onde Serge Reggiani passeava nos últimos anos da sua vida. Soubesse-o então e teria ido tentar a sorte. Mas só o soube mais tarde, já morto l'italien, que nunca vi ao vivo. Talvez por lá dê uma volta, em jeito de peregrinação, se for à cidade-luz na Primavera. Prometo cantar Reggiani em altos berros, naquele ou noutro dos jardins de Paris, de braço dado com quem de direito, e que tanto gosto de ouvir cantar em francês quando se distrai e não nota que estou a ouvir.
Yves Montand, À ParisNOTA: Findas as festas, as secções do codornizes voltam a ser regulares a partir desta semana.
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