Há quatro meses paradas na entrada n.º499, estas codornizes recebem ordem de soltura, hoje, ao meio milhar. Vão por aí acima ter com a Ana Lobo da Costa, que saberá tomar conta delas com a doçura, a joie de vivre e a dignidade que ensinou, sem nada querer ensinar, a todos quantos tiveram a sorte de cruzar o seu caminho e reparar no muito que tinha para oferecer.
Revivi ontem, num copo de vinho verde, a frescura de um champanhe e de umas flores que apareceram no hospital - provavelmente mandadas de outro - no dia em que a minha filha Helena nasceu. Voltei a ouvir a sua voz, como tantas vezes no Baleal (das cartadas à marcha popular, das picardias de bola e política aos rissóis do Verão passado), ao telefone, até no Facebook! Em dias felizes e outros menos, por entre confidências, disse-nos que gozássemos tudo, tudo, tudo. E pôs os outros à frente, até nas vezes em que tinha mais do que direito de pensar só em si mesma.
Não planeei um fim para este ninho, mas faz sentido mandá-lo desta para melhor, no sentido literal, na boa companhia de quem muito o frequentava e tão quentinho o tornou. Amiga Ana, fica consigo o agradecimento a todos os que passaram por aqui. Um beijinho e até sempre.
Elton John, Skyline pigeon (ao vivo em Lisboa, 28.VI.2009)
Passados 17 anos, voltei a cruzar-me com Sir Elton (felizmente, não estive na barracada do Casino Estoril em 2000!). O de ontem foi um concerto extraordinário, na melhor das companhias, a coroar dias de festa bem passados. À falta de tempo e de palavras, fica o alinhamento: 24 canções (tantas como os anos de alguém que tivesse nascido, sei lá, na véspera, mas em 1985), voz e piano para ouvir e chorar por mais, com links e tudo! Roam-se...
...sem grande energia para estas lides, é verdade, e num ritmo mais próprio do caracol do que da codorniz. Mas, ainda assim, com boa disposição e alto astral.
Hei-de olhar à volta da cozinha velha antes de pôr a fruta ao lume. Não propriamente à sua procura. Sei, desde há muito, que não volto a vê-la encostada à mesa de ardósia, o sorriso nos lábios e ainda mais no olhar azul. Mas sei, desde sempre, que vai estar connosco, todos os anos, na odisseia das compotas, marmeladas e geleias. Prometo acompanhar de um sorriso o suspiro que hei-de lançar. Onde quer que esteja, Mirita, quero que sinta o cheiro do açúcar a ferver, à procura de um ponto que aprendi consigo. Um beijinho grande, querida amiga.
A ordem alfabética concatena três colossos, chave de ouro para a série musical que a Martini inspirou há mais de dois meses. Temos vindo a divulgá-la a conta-gotas e, para quem não se lembra, o desafio era dizer que músicas nos marcaram na adolescência.
Abrimos o fecho com o concerto mais emblemático de Simon & Garfunkel. Quem não gostaria de ter lá estado? Devia ter 10 anos quando comecei a ouvir este álbum - em casa, em vinil; na rua, em cassete -, que teve o mérito de quebrar a hegemonia beatlesca que havia nas minhas playlists, sem contudo reduzir o apego aos Fab Four, bem entendido. Tive a sorte de ir a concertos de Tom and Jerry ao vivo e o azar de os ter aplaudido por separado. Vi Simon em Alvalade, em 1991, com ritmos brasileiros e africanos a apimentar músicas novas e velhas, e Garfunkel em 1997, no Coliseu, cheio de boa vontade e simpatia, mas a acusar a passagem dos anos. Para hoje, escolhi a minha música preferida deste duo. Sempre gostei de a cantar àqueles de quem gosto, em voz alta ou cá dentro.
The concert in Central Park, Simon and Garfunkel (Bridge over troubled water)
Prossegue a última entrega com o Sir mais Sir da música da Velha Albion. Reginald Kenneth Dwight, o gajo dos óculos e do piano, que alguém comparou a Mozart, fazendo-me rir até ter visto isto. O homem é genial, vestido de Pato Donald ou com fatos do amigo Versace, em discos históricos como Goodbye Yellow Brick Road ou na banda sonora d'O Rei Leão, e não me importa que por ser fã dele me chamem piroso. Foi mais um dos que tive a sorte de ouvir ao vivo (Alvalade, 1992), num inesquecível Verão quente em que passei o resto das noites a ouvir a faixa que aqui vos deixo.
The very best of Elton John, Elton John (I guess that's why they call it the blues)
Para o fim, o finzinho mesmo, ficaram os Guns. Quando apareceram, com o álbum duplo que me marcou (a outra capa era azulada), estava este vosso bloguista (e assim permanece) longe de ser o género de menino que deles gostava. Mas gostava. Pela música, não por sentimentos de pertença tribal. Ao ouvir as baladas destes tipos, irritava-me que os conotassem sempre com botas da tropa, moches e arruaceiros de cabelo comprido, por muito que a imagem seja justa. As outras faixas, mais mexidas e cheias de motherfuckers e kick your ass, divertiam-me. Cheguei a saber de cor o discurso hilariante que Axl Rose faz a meio do Get in the ring. Não vi esta malta em Alvalade, nos anos 90, mas vi-os no último Rock in Rio. Velhos, gordos, sem Slash, há dez anos a prometer novo disco sem cumprir, mas ainda assim os Guns 'n' Fuckin' Roses que os meus pais não suportavam no rádio do carro. Pulei, dancei e cantei. E abracei-me a quem de direito ao ouvir este tesouro.
Use your illusion I e II, Guns 'n' Roses (Don't cry - versão original)
Finda a faena, aqui fica a lista dos álbuns e músicas que marcaram a minha juventude. Ou melhor, dos que o clima e o estado de alma me levaram a escolher no dia em que tal me foi sugerido. Hoje, poderia haver diferenças na lista. Mas nunca seriam de monta.
Abbey Road, The Beatles (Because)
Ainda, Madredeus (Guitarra)
Brothers in arms, Dire Straits (Your latest trick)
Chico e Caetano juntos e ao vivo, Chico Buarque e Caetano Veloso (Você não entende nada)
Dia de concerto, Rio Grande (Queda do Império)
Filhos da madrugada cantam Zeca Afonso (Canto moço)
Greatest hits, Leonard Cohen (Suzanne)
Imitação da vida, Maria Bethânia (Meu amor é marinheiro)
Le meilleur de Herbert Pagani, Herbert Pagani (Concerto pour Venise)
Live at Wembley '86, Queen (Bohemian rhapsody)
Moustaki au Dejazet, Georges Moustaki (Le métèque)
Out of time, REM (Losing my religion)
Pano-cru, Sérgio Godinho (Segundo andar direito)
Phados, Lula Pena (Fria claridade)
Próxima estación... Esperanza, Manu Chao (Me gustas tú)
Reggiani en public, Serge Reggiani (Sous le pont Mirabeau/Et puis)
São demais os perigos desta vida, Vinícius e Toquinho (Regra três)
Sea airs, Rick Wakeman (The sailor's lament)
The concert in Central Park, Simon and Garfunkel (Bridge over troubled water)
The very best of Elton John, Elton John (I guess that's why they call it the blues)
Use your illusion I e II, Guns 'n' Roses (Don't cry - versão original)