quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009
Quarta-feira de cinzas
Na cinza de uma lareira
Dorme a labareda fria.
Arde à nossa revelia,
Mas queima da mesma maneira.
Quando uma chama se apaga
É morte de pouca dura.
Renasce, ardendo em lonjura
Mal a Fénix sai voando.
Se uma lareira te afaga
É porque alguém está chamando
Toxofal de Baixo, 21 de Fevereiro de 1996
(Quarta-feira de cinzas)
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segunda-feira, 13 de outubro de 2008
terça-feira, 7 de outubro de 2008
Nymphéas
Les nymphéas que font pousser
Les pinceaux de Monsieur Monet
Ont bien le goût de ta beauté
Qu'on cherche à de tout protéger
Paris, 8 Dezembro 2000
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quinta-feira, 14 de agosto de 2008
Quando eu era adolescente e o Verão era só despreocupação, escrevia coisas assim...
Agosto
Dois passos
Na areia molhada
O mar que te molha os pés
A cadência
Marcada pelas marés
Levam-te sem saber
A não saber onde andas
A andar sem saberes quem és
Dois golos
Na cerveja gelada
O mar cantando uma canção
O desejo
De tocar naquela mão
Levam-te a viver
Como se afinal a vida
Fosse uma noite de Verão
Baleal, 31 Agosto 1995
segunda-feira, 30 de junho de 2008
Poema para acabar o mês
Junho
A aragem que corta o calor
É a única mensagem
Que me chega neste instante
O sol fingindo ser dor
E o cantar daquela rola
São uma brincadera tola
Delírio desabafo diletante
São a causa ou o pretexto
Para mais uma tentação
De fugir ao meu contexto
Sabendo que o faço em vão
Toxofal de Baixo, 8 de Junho de 1996
até 7 de Julho
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segunda-feira, 7 de abril de 2008
San Vicenç de Sarrià
Tanta chuva depois de tanto sol trouxe-me saudades de "Barna", dos amigos que lá moram, dos momentos inesquecíveis que lá tenho passado, ora só, ora em boa companhia. Decidi-me, por isso, a terminar um poema começado há sete anos, entre um café do Passeig de Gràcia e uma varanda onde nunca está frio.
no mesmo sítio (um ano!) e à mesma hora.
Ela no mesmo tom, que vai embora,
E ele geme e está mais gordo (ou mais delgado?).
Que tenho eu com isto? E porque não
escandir antes o ocre das fachadas,
que dessas há certeza, e as ensaimadas
cheias de açúcar (sacudo-o para o chão)?
Teimosas pálpebras, fiquem caladas!
Se ele chora e ela também, eu canto um fado
Que o santo aplaudirá do pedestal
Pois da montanha ao mar quem desarvora
Há-de voltar, amando, no Mistral
Só para me baralhar a narração.
Barcelona, Fevereiro 2001/Lisboa, Abril 2008
terça-feira, 1 de abril de 2008
O voo da codorniz com Google Earth (XX)
Hydra, GréciaVerão de 1995. Muito calor em Atenas. Templos, souvlaki, mussaka, bugigangas no Plaka e passeios em ronceironas. Éramos quatro: a minha irmã, eu e as anfitriãs Stella e Myrto, estas em constante algaraviada, como boas mãe e filha gregas. Fugidos da capital sufocante, aliviou-nos uma ilha esguia e árida, pouco menos do que Óbidos posta em cima do mar tépido, com montanha em vez de muralha e atravessada por brisas frescas ma non troppo.
Hydra não tem carros. Uma mula diminuta levou-nos as malas do delicioso porto até à morada do casal Panagyotou, tão hospitaleiro quanto mouco. Alugavam quartos sem licença. Se aparecesse fiscal, avisaram, éramos primos. E que déssemos cumprimentos a um amigo que tinham em Lisboa, de seu nome António. Se o mesmo for leitor do codornizes, ficam entregues, com 13 anos de atraso.
O resto foram passeios de barco, kalimeras e kalisperas a cada esquina, tentativas de decifrar os letreiros em grego, um escaldão na planta dos pés para um(a) dos veraneantes e pôres-do-sol no bar Hydronetta, antes ou depois de banhos de mar numa praia de seixos, ali mesmo ao lado, onde a Myrto invectivava os psaraiki (peixinhos) que nos vinham fazer companhia. Deixo-vos uma imagem da Wikipedia e um poema que a saudade inspirou.
(cliquem para aumentar, que vale a pena)Requiem no Mar Egeu
Dizias-me (em Hydra) que o mar leva
os que quiser, bebendo mazagrins
fermentados em copos muito altos
no nosso canto à entrada da baía
o pintor abraçava uma sereia
muito loira, vê na fotografia
que lhe invejei as pernas nas manhãs
em que as gaivotas eram só contraltos
agora não vejo o Peloponeso
sei de uma buganvília só na cal
da ilha, candeeiro de azeite aceso
sobre o mar que te quis para maré cheia
mas diz-me, a quem se paga o funeral?
às mulas velhas? às velhas? whatever…
Lisboa, 14 Novembro 2000
segunda-feira, 17 de março de 2008
Neblina no horizonte
Neblina no horizonte
Neblina no horizonte
Mar é céu e céu é mar
A espuma vem salpicar
Branca e neve como a neve
E eu não sei se é uma onda
Se é uma nuvem
Se é a esteira de um navio
Se é a Barca de Caronte
No horizonte
Que atravessa a neblina
Fina
Neblina no horizonte
É uma manta que o céu tece
O Sol não nasceu mas põe-se
E cá em baixo a gente esquece
Adormece
Neblina no horizonte
O farol está apagado
E ainda assim os barcos saem
E o pastor conduz o gado
É o seu fado
Lisboa, 17 Abril 1995
segunda-feira, 14 de janeiro de 2008
Nostalgia azul
Encontrar um ponto
Atracar num porto
Esperar o sol posto
Inventar um conto
Gozar o conforto
De seres meu encosto
A areia é a ponte
O mar passaporte
Para onde se goste
De estar, é a ponte
A capela, o forte
E tu, onde foste?
quarta-feira, 2 de janeiro de 2008
Bom ano para todos!
Janeiro
Janeiro é o começo
Da continuação de um ciclo
Que damos por terminado
Quando ainda continua
Em Janeiro amanhecemos
Para o indeterminado
Fazemos votos ao sol
Saímos à noite para a rua
Mas o sol que nasce é o mesmo
E à noite virá sempre a lua
Lisboa, Janeiro 1996
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segunda-feira, 10 de dezembro de 2007
O voo da codorniz com Google Earth (X)
Toxofal de Baixo, PortugalMaçãs
Atrás dessas telhas quentes
Há uma manta de retalhos
Com que te quero cobrir
Se a meu lado te deitares
São fazendas são hectares
Que o Sol e a chuva submetem
São dias que se repetem
Num ritmo que não se usa
No pulsar de uma rajada
No brotar de uma colheita
Que, Deus deixando, há-de vir
Antes da data passada
Antes que o tempo que impera
Traga outra Primavera
Traga outro campo de azedas
Para o gado com placidez
Ruminar num devaneio
Atrás do telhado onde a gata
Dorme sem credo nem dono
Há poesias à espreita
E há maçãs verdes à espera
Que alguém sedento de um seio
Lhes vá provar a acidez
Que nessa manta difusa
Tudo tem a sua vez.
Lisboa, 27 Janeiro 1996
sexta-feira, 7 de dezembro de 2007
Um poema com dez anos...
...mas que ainda não morreu. É para os leitores do codornizes, que a meio desta noite chegaram aos cinco mil. Parabéns a vocês!
Eu em Valmitão (foto de SK, Outubro 2007)
Contra o poente
Na tarde em que me procuro
a luz bate em janelas ociosas
e há um rio
Como num quadro onde não quis que me pintassem
as elegias tornam-se porosas
e dou-me conta de que o traço é azul
Rumor nas águas
respondem-me às falácias com vertigens
e enchem-me o olhar de curvas em perfeito movimento
como acácias
são sustos nesta ilha que às vezes sou
como eucaliptos
Às vezes eu queria que o tempo não passasse
durmo em céus fragmentados de Monet
entre ocres térreos, nuvens férreas, sons que alguém produz
cresce-me um querer ficar
um deixar-me ir
e um sol mais lento, que este já se pôs
Lisboa, 6 de Março de 1997
terça-feira, 27 de novembro de 2007
Sagrada Família
O movimento ascendente das torres
(Como o teu corpo, e tudo, não tem rectas).
Agosto 2005
Poema a lembrar um de muitos périplos espanhóis, enquanto espero pelo próximo e já anunciado, do qual prometo à M. trazer frutos galegos ao som do Mar adentro.
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sexta-feira, 23 de novembro de 2007
A mão no meu corpo
A mão no meu corpo
esquerda?
avança-me direita, faz
descentrar o coração
para que fique mais longe da cabeça
A mão no meu centro
tua?
toca-me a minha paz
arranca o coração
para que fique mais perto do teu estômago
A mão no meu dentro
qual?
desenha a silhueta de um rapaz
sem coração
para que fique alguma fome em ti
Novembro 2000
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segunda-feira, 19 de novembro de 2007
Pinga, pinga, pinga chuvinha...
Mariza, Chuva
quinta-feira, 8 de novembro de 2007
quarta-feira, 31 de outubro de 2007
Poema de/para quem vê o sol nascer
E um dia o Sol sem um cigarro
de manhã com sono, mas não:
o giz, as folhas cheias do que nem olhas
nunca se escreve a sério e não se diz
No entanto, há manhãs bonitas
sem credo nem dono
só barro e a mão modela, escreve, diz
o que querias que fosse acordar
a mazela doce de dormir ao Sol
Outubro 2000
Foto: nascer do sol no Baleal, por João Maria Baltazar
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