Casais das Campainhas e do Rijo, Portugal
Terra de amigos. Daqueles que o são há anos, mas parecem sê-lo há séculos. Sulcamos na vida caminhos... ia a escrever paralelos, mas não: esses seguem lado a lado, mas nunca se cruzam. Digamos antes caminhos cúmplices, num ritmo de passeio, que pode ser a pé ou de bicicleta, à chuva ou ao sol. Não importam as posições relativas, que variam sem cessar. Quem está um passo à frente espera um bocadinho ou estende a mão a quem ficou um passo atrás. A amizade contida nesse gesto materializa-se, não raro, num cálice de ginjinha, num filme de que se gostou, numa cigarrilha conversadora ou num abraço reconfortante.
Terra de festas. Ou será mais correcto terras? Nesse caso, siamesas. Os Casais das Campainhas e do Rijo estão unidos por uma espinha dorsal que é fronteira entre os concelhos de Lourinhã e Torres Vedras. Prossigo, pois, no singular. Terra de festas que nos aguardam em Julho, com bailarico ao ar livre, restaurante esmerado, barzinho acolhedor e porco no espeto para quem aguentar a pedalada. Terra onde há recantos discretos, mesmo em dias de festa: a música apenas em pano de fundo e, à nossa frente, só o céu escuro, o vale e o grande plano que escolhermos ou aquele que nos escolher. Some-se a isto a hospitalidade de toda uma família, gerações de sorrisos que se partilham sem cerimónias, memórias passadas a projectar a amizade no futuro.
Terra de pão. Do pão amassado à mão, que há cada vez menos e de que cada vez gosto mais. Pão cozido em forno de lenha, com dedicação e carinho que comovem, numa padaria onde se misturam os aromas frescos do campo, da farinha e dos troncos e ramos recém-apanhados. Pão entregue à hora certa com o esforço de quem tem no trabalho um dos valores-chave do seu percurso. Pão que dura uma semana sem ganhar dureza nem bolor. Mas que também se pode comer recém-nascido, numa manhã de quase Primavera, com azeite e açúcar por cima. Pão que é comunhão mesmo para quem não prova nele o corpo de Deus.
