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sexta-feira, 9 de maio de 2008

O voo da codorniz com Google Earth (XXIV)

Chelsea, Londres, Inglaterra

Contei hoje a um amigo uma história que passa por este bairro londrino, muito posh e vitoriano. Gosto de andar a pé pelas ruas de Chelsea, sob chuva miudinha, a ver qual dos telhados em bico chega primeiro ao céu. São fileiras de casas de tijolo vermelho, esbeltas e alinhadinhas, alternando com travessas que parecem as vilas que ainda restam em Lisboa. De Knightsbridge até ao Tamisa - onde um dia deixei cair um boné -, hei-de repetir a passeata um destes dias. Até lá, consolo-me com palavras do poeta-poetinha.


A última elegia (V), de Vinícius de Moraes
(Londres, 1939)









Greenish, newish roofs of Chelsea
Onde, merencórios, toutinegram rouxinóis
Forlornando baladas para nunca mais!
Ó imortal landscape

no anticlímax da aurora!
ô joy for ever!

Na hora da nossa morte et nunc et semper
Na minha vida em lágrimas!


uer ar iú

Ó fenesuites, calmo atlas do fog
Impassévido devorador das esterlúridas?
Darling, darkling I listen...

"... it is, my soul, it is

Her gracious self..."

murmura adormecida

É meu nome!...

sou eu, sou eu, Nabucodonosor!

Motionless I climb

the wa
t
e
r
Am I p a Spider?
Am I p a Mirror?
e
Am I s an X Ray?


No, I'm the Three Musketeers

rolled in a Romeo.
Vírus

Da alta e irreal paixão subindo as veias
Com que chegar ao coração da amiga.

Alas, celua

Me iluminou, celua me iludiu cantando
The songs of Los; e agora

meus passos
são gatos

Comendo o tempo em tuas cornijas
Em lúridas, muito lúridas
Aventuras do amor mediúnico e miaugente...
So I came

- from the dark bull-like tower
fantomática

Que à noite bimbalha bimbalalões de badaladas
Nos bem-bons da morte e ruge menstruosamente sádica
A sua sede de amor; so I came
De Menaipa para Forox, do rio ao mar - e onde
Um dia assassinei um cadáver aceso
Velado pelas seis bocas, pelos doze olhos, pelos centevinte dedos espalmados
Dos primeiros padres do mundo; so I came
For everlong that everlast - e deixa-me cantá-lo
A voz morna da retardosa rosa
Mornful and Beátrix
Obstétrix
Poésia.

Dost thou remember, dark love
Made in London, celua, celua nostra
Mais linda que mare nostrum?

quando early morn'

Eu vinha impressentido, like the shadow of a cloud
Crepitante ainda nos aromas emolientes de Christ Church meadows
Frio como uma coluna dos cloisters de Magdalen
Queimar-me à luz translúcida de Chelsea?
Fear love...

ô brisa do Tâmisa, ô ponte de Waterloo, ô

Roofs of Chelsea, ô proctors, ô preposterous
Symbols of my eagerness!

- terror no espaço!

- silêncio nos graveyards!

- fome dos braços teus!

Só Deus me escuta andar...

- ando sobre o coração de Deus

Em meio à flora gótica... step, step along
Along the High... "I don't fear anything
But the ghost of Oscar Wilde..." …ô darlingest
I feared... A ESTAÇÃO DE TRENS... I had to post-pone
All my souvenirs! there was always a bowler-hat
Or a POLICEMAN around, a streched one, a mighty
Goya, looking sort of put upon, cuja passada de cautchu
Era para mim como o bater do coração do silêncio (I used
To eat all the chocolates from the one-penny-machine
Just to look natural; it seemed to me que não era eu
Any more, era Jack the Ripper being hunted) e suddenly
Tudo ficava restful and worm... - o sííííííííí
Lvo da Locomotiva - leitmotiv - locomovendo-se
Through the Ballad of READING Gaol até a vísão de
PADDINGTON (quem foste tu tão grande
Para alevantares aos amanhecentes céus de amor
Os nervos de aço de Vercingetórix?). Eu olharia risonho
A Rosa-dos-Ventos. S. W. Loeste! no dédalo
Se acalentaria uma loenda de amigo: "I wish, I wish
I were asleep". Quoth I: - Ô squire
Please, à Estrada do Rei, na Casa do Pequeno Cisne
Room twenty four! ô squire, quick, before
My heart turns to whatever whatsoever sore!
Há um grande aluamento de microerosíferos
Em mim! ô squire, art thou in love? dost thou
Believe in pregnancy, kindly tell me? ô
Squire, quick, before alva turns to electra
For ever, ever more! give thy horses
Gasoline galore, but do take me to my maid
Minha garota - Lenore!
Quoth the driver: - Right you are, sir.

*

O roofs of Chelsea!
Encantados roofs, multicolores, briques, bridges, brumas
Da aurora em Chelsea! ô melancholy!
"I wish, I wish I were asleep..." but the morning
Rises, o perfume da madrugada em Londres
Makes me fluid... darling, darling, acorda, escuta
Amanheceu, não durmas... o bálsamo do sono
Fechou-te as pálpebras de azul... Victoria & Albert resplende
Para o teu despertar; ô darling, vem amar
À luz de Chelsea! não ouves o rouxinol cantar em Central Park?
Não ouves resvalar no rio, sob os chorões, o leve batel
Que Bilac deitou à correnteza para eu te passear? não sentes
O vento brando e macio nos mahoganies? the leaves of brown
Came thumbling down, remember?
"Escrevi dez canções...

... escrevi um soneto...

... escrevi uma elegia..."

Ô darlíng, acorda, give me thy eyes of brown, vamos fugir
Para a Inglaterra?

"... escrevi um soneto...

... escrevi uma carta..."

Ô darling, vamos fugir para a Inglaterra?

..."que irão pensar

Os quatro cavaleiros do Apocalipse..."

"... escrevi uma ode..."

Ô darling!

Ô PAVEMENTS!

Ô roofs of Chelsea!

Encantados roofs, noble pavements, cheerful pubs, delicatessen
Crumpets, a glass of bitter, cap and gown... - don't cry, don't cry!
Nothing is lost, I'll come again, next week, I promise thee...
Be still, don't cry...

... don't cry

... don't cry

RESOUND

Ye pavements!

- até que a morte nos separe

ó brisas do Tâmisa, farfalhai!

Ó telhados de Chelsea,

amanhecei!

terça-feira, 15 de abril de 2008

Músicas que ficaram (VI)

Eis-me, pela penúltima vez (por agora!), a debitar discos que me marcaram (está quase, Marta!). Já cá faltava Reggiani, ao vivo como nunca tive ocasião de vê-lo. Em palco, dava asas ao talento dramático, gracejando e improvisando sketches. Actor de renome, diseur como poucos, começou a cantar depois dos 40 anos. E só parou quando morreu, no mesmo dia que Carlos Paredes. "Quando soubemos, ficámos sem dizer nada, ouvíamos as músicas dele, mas não cantávamos", recordou-me alguém, há tempos. Agora cantamos, cada vez mais alto. Esta manhã, trocámos versos desta canção linda, à qual Serge apunha, como prefixo, um poema de Guillaume Apollinaire:



Reggiani em public - Olympia '89, Serge Reggiani (Sous le pont Mirabeau/Et puis)

Verdadeiro choque de titãs no que a música e poesia diz respeito, a entrega de hoje traz também "o capitão do mato / Vinicius de Moraes / Poeta e diplomata / O branco mais preto do Brasil / Na linha direta de Xangô, saravá!". Com Toquinho, o que não é despiciendo. O disco é lindo, só o tenho em vinil - é um de muitos - e sei as letras quase todas de cor. A bênção, poeta!



São demais os perigos desta vida, Vinícius e Toquinho (Regra três)

E terminamos com Rick Wakeman, pianista e compositor que aprecio quando não exagera no tom new age. Este álbum, que ouvi vezes sem conta num walkman, faz parte de uma trilogia: mar, campo e noite. Gosto de adormecer ao som destas árias ou destes ares (tradutore, traditore)...



Sea airs, Rick Wakeman (The sailor's lament)

Entregas anteriores: I, II, III, IV & V

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Nem de propósito



Acabado de lançar esta entrada sobre o documentário sobre Vinicius de Moraes, leio, no Público, que a justiça brasileira decidiu indemnizar as três filhas do poeta pelos danos morais que este sofreu durante a ditadura militar de 1964-85. Luciana, Georgiana e Maria Gurjão de Moraes (algumas aparecem no filme) vão receber 19 mil euros cada. A carreira diplomática de Vinicius - aposentado compulsivamente em Abril de 1969 - também fica reabilitada com esta decisão. Razão mais do que suficiente para dizermos:

Tristeza
Por favor vai embora
Minha alma que chora
Está vendo o meu fim

Fez do meu coração a sua moradia
Já é demais o meu penar
Quero voltar àquela vida de alegria
Quero de novo cantar

Lá rá lá lá
Lá rá lá rá lá rá rá
Lá rá lá rá lá rá rá
Quero de novo cantar

tristeza.mp3


Resquícios de fim-de-semana

Ainda só vi o primeiro DVD, mas já posso dizer que esta obra é notável. Pela mão de Miguel Faria Jr., a vida e a obra de Vinicius são revisitadas por Toquinho, Caetano, Chico, Bethânia, Ferreira Gullar, Edu Lobo, Tônia Carrero, Gilberto Gil, Miúcha, Carlos Lyra, Francis Hime, Renato Braz, Yamandú Costa, Adriana Calcanhoto, Olívia Byington, Mônica Salmaso, Mariana de Moraes, Sérgio Cassiano, Zeca Pagodinho, MS Bom, Nego Jeil, Lerov, Mart Nália. Soberbo.

E, porque de bichos-papões se tem falado na blogosfera e não só, deixo-vos uma música que é também uma forma de retribuir um presente.
05-valsa para uma ...


Valsa para uma meninininha (Toquinho/Vinicius de Moraes)

Menininha do meu coração
Eu só quero você
A três palmos do chão
Menininha, não cresça mais não
Fique pequenininha na minha canção
Senhorinha levada
Batendo palminha
Fingindo assustada
Do bicho-papão

Menininha, que graça é você
Uma coisinha assim
Começando a viver
Fique assim, meu amor
Sem crescer
Porque o mundo é ruim, é ruim
E você vai sofrer de repente
Uma desilusão
Porque a vida é somente
Teu bicho-papão

Fique assim, fique assim
Sempre assim
E se lembre de mim
Pelas coisas que eu dei
E também não se esqueça de mim
Quando você souber enfim
De tudo o que eu amei

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Punch-drunk love



Mais música, desta vez com uma versão singular de "Pela luz dos olhos teus", de Tom Jobim. O filme é um de dois que estão no Youtube (olha aqui o outro). Diz-se - e parece - que Tom e Vinícius estão bêbados. Eu fico, ao ouvi-los.