Mostrar mensagens com a etiqueta rock in rio. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta rock in rio. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 6 de junho de 2008

A noite das rainhas

Quarta parte das memórias da Bela Vista. Leia a primeira, a segunda e a terceira.

Faz hoje quatro anos que acabou o primeiro Rock in Rio alfacinha. Era domingo e chegámos cedo. Infelizmente, não a tempo de ouvir a batucada teatral e espectacular das Tucanas. Ouvimos, isso sim, Luís Represas. Mas de passagem, que o homem tem boa voz, mas as canções a solo - salvo honrosas excepções como Feiticeira, Fora do tempo, Chave dos sonhos, Desencontro ou Por mão própria - não se comparam às dos Trovante... teria preferido, se soubesse, ir à Tenda Raízes ouvir a espanhola Amparo Sánchez e os seus Amparanoia. Desvendou-mos mais tarde a minha amiga Elena, pouco antes de virem tocar (e eu estive lá!) no Festival Mediterrânico de Loulé.

Foi a arrastar os pés, confesso, que me deixei levar pela cara-metade para junto do Palco Mundo. Ivete Sangalo ia levantar poeira e o pacto era vermos um bocado do concerto, para depois irmos com calma até outras bandas. Qual quê! A mulher puxou tanto pelo público, foi tão simpática (chorou, apoiou a selecção, proclamou-se de dupla nacionalidade, etc.), que acabou por me conquistar, para o que não nego terem contribuído dois sorrisos de orelha a orelha (o da miúda que cantava e o da que dançava de mão dada comigo) e as memórias de noites em discotecas várias ao som da Banda Eva. Fiz questão de ficar até ao fim e acho que nunca tive os dois pés no chão ao mesmo tempo. Dançámos tanto, tanto, tanto, que quando aquilo acabou parecia mentira o sol ainda estar alto no céu...
Ivete Sangalo, Sorte grande (poeira)
(ao vivo no Rock in Rio Lisboa, 6 de Junho de 2004)

A actuação seguinte era a de um chato chamado Alejandro Sanz. Baldámo-nos. Por indisfarçável desinteresse e porque o concerto da Mariza na Tenda Raízes, que era para ter durado 40 minutos, se espraiou por duas horas. "Já percebi o vosso jogo... andam para aqui a pedir extras, mas quando chegar o Sting deixam-me sozinha", disse às tantas, fingindo amuo, para logo a seguir dividir o público em dois sectores, para ver quem cantava mais alto a Lisboa menina e moça. Não tendo encontrado vídeos do Rock in Rio, deixo-vos com um da fadista em Londres, com um dos meus fados preferidos (é divertidíssimo vê-la tentar explicar a história de amor aos bifes). A letra é do grande David Mourão-Ferreira.

Mariza, Barco negro
(ao vivo em Londres, 22 de Março de 2003)

Em noite de descobertas, foi dos poufs que ficámos a conhecer Alicia Keys. Andar pela Bela Vista cansa, e nesses tempos fazia calor no Rock in Rio. Que voz potente, a daquela rapariga então menos premiada e conhecida. Já se lhe auspiciava o futuro que tem vindo a ter. Uma palavra para o giro que é encontrar amigos, conhecidos e até familiares entre a multidão. Gente que não víamos, por vezes, desde o infantário, primos mais novos que vimos nascer, "cotas" que já não imaginávamos capazes de abanar o capacete. E pessoas de quem juraríamos que um festival destes não faria nada o seu género. A festa que fazíamos uns aos outros...


Alicia Keys, If I ain't got you
(ao vivo no Rock in Rio Lisboa, 6 de Junho de 2004)


Já deve ter dado para verem que a noite foi das mulheres. Tanto assim é que me abstenho de mostrar as prestações dos dois senhores que encerraram a noite e a edição de estreia do Rock in Rio. Isto porque Sting deu um concerto morno, como por vezes sucede na apresentação de álbuns novos (que diferença passados dois anos, em breve contarei essa noite!), e Pedro Abrunhosa teve o azar de começar tarde, pelo que lhe cortaram o pio ao fim de meia hora. Depois do fogo de artifício da praxe, voltámos para casa exaustos, mas de papo cheio. E, escusado será dizer, viciados na Bela Vista.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

O piano que tocava sozinho

Terceira parte das memórias da Bela Vista. Leia a primeira e a segunda.


Voltei ao Rock in Rio - na edição de 2004 - há exactamente quatro anos, após dois dias em que o programa seduzia menos. A 30 de Maio, cantaram, entre outros, Foo Fighters, Evanescense e um tipo chamado Charlie Brown Junior que vi urrar na TV. A 4 de Junho, Incubus, Sepultura, Slipknot e Moonspell, nenhum deles santo do meu altar. Tive pena de não ver Metallica, que tão-pouco verei este ano, mas a onda daqueles dias não era, claramente, a minha... a não ser na Tenda Raízes, por onde passaram os interessantes Angélique Kidjo (Benim), Terrakota (Portugal), Manecas Costa (Guiné-Bissau), Gaiteiros de Lisboa (Portugal), Souad Massi (Argélia, uma fadista magrebina que me maravilhou, mais tarde, em Loulé) e Faltriqueira (Galiza). Paciência, não se pode ter tudo...

E, porque não se pode ter tudo, no dia 5 chegámos tarde para ouvir Nuno Norte (prova de que os programas televisivos de caça-talentos não são completamente inúteis). Quanto entrámos na Bela Vista, já o inenarrável João Pedro Pais ocupara o palco. Desculpem, sou alérgico. Tenho-o na conta de um tipo simpático, mas a música é abaixo de cão. A sério, faz-me mudar de posto de rádio. Ainda escutámos alguns acordes do franco-vietnamita Nguyen Lê, nas Raízes, antes de pôrmos as ancas a dar a dar ao som das Sugababes. Chapa um, mas giras e divertidas.


Sugababes, Round round
(ao vivo no Rock in Rio Lisboa, 5 de Junho de 2004)

A estrela cadente que hoje é (e já então era, mas menos gente sabia) Britney Spears foi a senhora que se seguiu. Hora de jantar para nós, claro... mas sem resistir a dar uma espreitadela. Lá estava a miúda, envolta em látex preto e a descuidar-se no playback. Falava com o público enquanto a sua voz gravada cantava, levantava-se do piano e este continuava a tocar, uma alegria! Foi a Amy de 2004, igualmente má profissional, mas mais banal e sem a qualidade musical que a outra tem quando não está toda marada.

O consolo veio com uma banda que não conhecia, de seu nome Feijão Frade (lol), numa altura em que o nosso grupo fora enriquecido com primos, amigos e alguns litros de cerveja. A música chama-se "Tá calado", mas era a última coisa que queríamos que eles fizessem...


Black Eyed Peas, Shut up
(ao vivo no Rock in Rio Lisboa, 5 de Junho de 2004)

A faina terminou num ritmo ainda mais acelerado. Por todos os motivos acima expostos e porque foi Daniela Mercury a encerrar a noite. O que a mulher dança! E o que a gente dança quando ela canta! Fecho o capítulo com uma música de muitos Verões e muitas cumplicidades. Curiosamente, uma canção sobre Caetano e Gil, que ontem passaram aqui pelo blogue. E sobre a mãe de Caetano e Bethânia, a ilustre centenária Claudionor Viana Teles Veloso (Dona Canô), a quem dedico - e porque não? - esta entrada.


Daniela Mercury, Dona Canô
(ao vivo no Rock in Rio Lisboa, 5 de Junho de 2004)

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Quero um ministro assim!

Segunda parte das memórias da Bela Vista - 29 Maio 2004


Doze horas depois do êxtase mccartniano, já estávamos de novo no Rock in Rio. O segundo dia foi o da abertura oficial, com Joana Carneiro a conduzir a Orquestra Metropolitana de Lisboa num périplo que foi de Assim falava Zaratustra a Imagine. Como chegámos cedo, ainda assistimos ao ensaio geral, com a maestrina a dar-se conta de que, além da Metropolitana, estava em palco um grupo Afro Reggae que era preciso integrar na peça. Prova superada com louvor e distinção, diga-se...

Seguiu-se Gilberto Gil, "aquele preto de que a gente gosta", num concerto de ritmos tropicais que pôs toda a gente a dançar. O calor de Maio - que foi dele este ano? - e a novidade do festival entusiasmavam o público. Ficámos na primeira fila, onde um cartaz resumia o sentimento de todos: "Quero um ministro assim!". Para quando, meu Deus, para quando?!

Gilberto Gil, Andar com fé/Aquele abraço
(ao vivo no Rock in Rio Lisboa, 29 de Maio de 2004)

O seguinte no cartaz era Rui Veloso. Tem músicas excelentes, é verdade, mas há quase 20 anos que não lança uma canção que valha a pena... resolvemos ir à Tenda Raízes ver os Habana Abierta, com passagem pela zona dos jornalistas, onde eu recolhia deliciosas - e gratuitíssimas - baguetes que nos serviam de combustível. Tivemos, ainda assim, a sorte de atravessar o parque, diante do palco principal, no momento exacto em que Rui tirava do chapéu esta maravilha.


Rui Veloso, Porto Côvo
(ao vivo no Rock in Rio Lisboa, 29 de Maio de 2004)


Veio, depois, um dos dois grandes senhores da noite: Ben Harper, com os Innocent Criminals. Recordei a primeira vez que o vira, no Coliseu, a convite de uns primos do Porto e sem nada saber sobre o sujeito. Devo-lhes a descoberta de um excelente artista, que soube bem revisitar na Bela Vista.

Ben Harper & The Innocent Criminals, Diamonds on the inside
(ao vivo no Rock in Rio Lisboa, 29 de Maio de 2004)

O dia acabou com Peter Gabriel, que entrou em palco dentro de uma bola de luzes e provou que antiguidade é posto, mas não obstáculo. Derreados das andanças de todo um dia, vimo-lo refastelados nos poufs, deitando o olho ora ao palco, lá em baixo, ora a um ecrã gigante mesmo ali ao lado. As cervejas iam rolando, houve quem passasse pelas brasas, mas logo encontrámos um colega da cara-metade, com surpresas que nos deram ânimo para rematar a noite, na Tenda Electrónica. Não encontrei vídeos de Gabriel em Lisboa, mas cá vai uma das minhas preferidas.


Peter Gabriel, Solsbury Hill

terça-feira, 3 de junho de 2008

O dia em que eu vi um Beatle


A primeira de todas as noites do Rock in Rio Lisboa não estava no programa. A notícia veio à última hora e era boa de mais para acreditar. Paul McCartney? The Paul McCartney? O dos Beatles? O gajo do primeiro disco de vinil que comprei? Foi num ápice que não só mudámos a agenda como reunimos cerca de dez pessoas para rumar à Bela Vista.

Tirando o facto de o grupo se ter desmembrado em três - fruto não de zangas, mas da inexperiência em lidar com as multidões do Rock in Rio -, a noite foi perfeita. Macca deu-nos duas horas e meia de música e os extras foram tantos que teve de ir buscar The End para sabermos que já não ia haver mais. Cantei como poucas vezes, emocionei-me e acho que me lembrei de toda a gente com quem já ouvi Beatles. Ah, e o bichinho da Bela Vista ficou...


Paul McCartney, Get back
(ao vivo no Rock in Rio Lisboa, 28 de Maio de 2004)

segunda-feira, 2 de junho de 2008

O voo da codorniz com Google Earth (XXVI)

Parque da Bela Vista, Lisboa, Portugal

Gosto do Rock in Rio. Esta entrada, escrevo-a embalado pelos sons da noite de ontem, ouvidos em dois palcos, dançando de pé ou estendido num pouf a sentir danças outras. Acho que já consegui expurgar dos ouvidos a batucada da Tenda Electrónica, que é muito gira quando se lá está (embora este ano a opção tenda-sem-tenda, somada às tropelias do São Pedro, tenha resultado num espaço pouco acolhedor), mas terrível quando já se foi para casa e se vive ao pé do recinto...

Gosto do Rock in Rio. Gosto desde a primeira edição lisboeta, em 2004, para a qual tive a sorte de receber um passe de imprensa, embora não me tenham mandado escrever uma linha sobre o assunto. Remorsos? Nenhuns. Soube-me a justa compensação por três meses de estágio numa rasquíssima revista, já extinta, que pouco mais pagava do que os módulos do autocarro e que, ao fim desse período a que chamaram de "ensaio", me veio propor, em vez do prometido contrato e salário digno, mais três meses de igual escravatura. Levaram um manguito, claro, e se conto esta história numa entrada sobre o Rock in Rio é só para não perder a ocasião de denunciar o que se passa com muitos jornalistas estagiários...

Gosto do Rock in Rio. No ano de estreia, passei lá quatro noites, entre os acordes sonantes do Palco Mundo, as curiosidades da Tenda Raízes, os ritmos da Electrónica e a emoção de ir descobrindo aquele recinto, os passatempos dos stands, os amigos com quem nos cruzámos, os recantos para namorar, as óptimas sanduíches - de borla - que havia no espaço reservado à imprensa, a correria de concerto para concerto, a lembrar a agenda sempre apertada da saudosa Festa da Música do CCB.

Gosto do Rock in Rio. Em 2006 não tivemos o bambúrrio da primeira vez, mas a vontade de ir era tanta que, com poupanças antecipadas, generosidade da família e uma gestão ágil dos pontos da BP, acabámos por não falhar uma única noite. Já éramos velhos conhecidos, em vez de "olha ali..." ou "epá, já viste...", dizíamos "lembras-te, foi ali que...". É particularmente engraçado recordar os vários grupos com quem estive na Bela Vista: do tête-à-tête romântico ao espírito mais transgeracional da coisa, gozámos a fundo cada minuto.

Gosto do Rock in Rio. Este ano, planeei ir uma noite, estive quase para falhar e acabei por ir duas. À partida, a participação na edição corrente deve estar encerrada. Mas já aprendi a não fazer grandes planos: ontem, a decisão surgiu às quatro da tarde e já houve quem me desafiasse a ir a Madrid, onde o festival aterra no próximo mês.

Gosto do Rock in Rio. E resolvi, por isso, recordar ao longo da semana alguns dos artistas que (ou)vi nestas três edições de Rock in Rio e as impressões com que fiquei. O tom é capaz de me sair algo nostálgico, até porque a próxima vez (2010) será a última na Bela Vista, destinada a receber o novo Instituto Português de Oncologia (eu sei que o antigo precisa de reforma, mas tinha de ser aqui?!!?). O Rock passa para Loures, dizem-nos, e eu prefiro não dizer o que acho... deixem-me gozar a música enquanto dura!