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segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

O voo da codorniz com Google Earth (X)

Voar sobre terreno conhecido tem vantagens. A segurança. A calma. As memórias. O poder matar saudades. Esta é a minha terra. Esta? Sim, como o são Lisboa, o Baleal e tantas outras. A todas me aferro, qual Anteu, para recuperar forças. Cada uma revigora um dos humores vitais. Sobre o Toxofal de Baixo ando a preparar uma coisa para outro blogue. Se hoje me apeteceu pô-lo aqui, foi porque uma entrada sobre o sabor das maçãs me recordou mais uma das minhas velharias poéticas. O título do escrito até mudou.
Toxofal de Baixo, Portugal


Maçãs

Atrás dessas telhas quentes
Há uma manta de retalhos
Com que te quero cobrir
Se a meu lado te deitares

São fazendas são hectares
Que o Sol e a chuva submetem
São dias que se repetem
Num ritmo que não se usa
No pulsar de uma rajada
No brotar de uma colheita
Que, Deus deixando, há-de vir
Antes da data passada
Antes que o tempo que impera
Traga outra Primavera
Traga outro campo de azedas
Para o gado com placidez
Ruminar num devaneio

Atrás do telhado onde a gata
Dorme sem credo nem dono
Há poesias à espreita
E há maçãs verdes à espera
Que alguém sedento de um seio
Lhes vá provar a acidez
Que nessa manta difusa
Tudo tem a sua vez.


Lisboa, 27 Janeiro 1996