Mostrar mensagens com a etiqueta memórias. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta memórias. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Cais em Setembro

Paul Émile Chabas, Matinée de Septembre (1910-12)

Às vezes tenho saudades do Cais das Codornizes, onde a Sofia e eu nos divertíamos a encontrar versões diferentes e originais das músicas de que gostamos. Resta-me colocá-las aqui no ninho, porventura sem a piada do jogo de janelas de então, mas ainda assim com o prazer de ouvir estes e outros sons que me ajudam a aceitar que o nono mês chegou.



Neil Diamond, September Morn


Tina Arena & Gilbert Bécaud, C'est en Septembre

terça-feira, 10 de março de 2009

Baú das codornizes (XVI)


Genérico de Era uma vez a vida

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

O voo da codorniz (XXXVI)

Suomenlinna/Sveaborg, Finlândia

O frio e a chuva sugerem um saltinho a este complexo de seis ilhas (Kustaanmiekka, Susisaari, Iso-Mustasaari, Pikku-Mustasaari, Länsi-Mustasaari e Långören) ao largo de Helsínquia, a que os finlandeses chamam Suomenlinna (fortaleza finlandesa) e os suecos Sveaborg (fortaleza sueca).

Por lá andámos há quatro anos - já?! -, de visita à minha irmã Filipa. Foram dias de cachecol e luvas, dias de passeio com neve quase pelos joelhos e um frio delicioso. O barco que nos levou teve de quebrar o mar gelado, as fotografias saíam cheias de névoa e a temperatura corporal restabelecia-se com bifes de rena e sidra de pera.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

O voo da codorniz (XXXVc)

Eixo Rua da Lapa-Rua Raul Brandão
Baleal, Portugal

(continuação disto, que era sequela daquilo e que fica por aqui)

Os réveillons do Baleal evoluem com o tempo. Recordo o de 2000-2001, em que houve festa no Clube (e banho para mim, claro, às cinco da matina), depois de opíparo jantar numa tasca ferreleja. Antes desta ainda demos um salto a um velório em Lisboa, para nos despedirmos de um grande amigo, Avô de uma prima que tinha vindo passar o Ano Novo connosco e acabou por dizer adeus à festa mais cedo...

Estive, depois, vários anos sem dobrar a meia-noite na ilha. Celebrava-a entre nuestros hermanos, quando por cá ainda eram onze. Só regressei ao Baleal, feliz, para entrar em 2008).

A festa começou na "casa biológica" e cedo se alargou à "casa por afinidade". Ao jantar na Travessa Hyde Catanho de Menezes, com amigos, seguiu-se a folia na Travessa Major Baltazar, com muitas outras famílias à mistura. Dançava-se na exígua sala do Duarte. Cada um que chegava trazia mais uma garrafa de espumante. E a cereja no topo do bolo foi a visita à Guida Formosinho, que reunira todo o clã para comer as passas. Bonito de se ver!

Foi tão bom que, este ano, repetimos quase o mesmo modelo. Instalados noutro poiso, não menos familiar, e juntando ainda mais família do que da vez anterior, gozámos de vários dias de ar, terra, água e fogo balealenses, com outros périplos pelo Oeste - Toxofal de Baixo, Atouguia da Baleia, Óbidos...

A passagem de ano propriamente dita compôs-se de jantar courtesy of João Maria & Cláudia, meia-noite na Ginha, berraria frente à praia, com forte representação dos primos Baltazares, e música numa tenda que alguns comerciantes locais montaram no parque de estacionamento por trás do Clube, y compris quiosques de cerveja, DJ e conjunto piroso/rockalhada. De avós a bebés de meses, foi com alegria e sem pensar em crises que demos as boas-vindas a 2009.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

O voo da codorniz (XXXVb)

Pedras Muitas, Baleal, Portugal


(continuação disto)
Um dos encantos de entrar no Ano Novo em solo balealense é a pausa que a ilha oferece entre o ciclo que acaba e o que vai começar. Os dias antes e depois da Grande Noite são de partilha, descanso, risos e, em o tempo permitindo, passeios. Às Pedras Muitas, Almagreira ou mais longe, ao Forte, a Óbidos, ao lado de Peniche, ao Toxofal, à volta da ilha, ao café, a casa dos primos, onde quisermos.

Tabuleiros de Monopólio ou Pictionary, mesas com shisha ao meio (ou narguilé, nome que prefiro), baralhos de cartas, livros, leitores de DVD, chávenas de chá ou cálices de ginjinha, mantas quentes, máquinas fotográficas, cadernos para escrever e leitores de MP3, guitarras e livros com letras de canções estão entre os acessórios mais cobiçados. Todos gostavam de ter o que não trouxeram, mas as redes de toma-lá-dá-cá ou dá-cá-que-o-dono-não-está funcionam bem.

Foi quando nos preparávamos para ir buscar entreténs deste género, há dez anos, que o Gonçalo Formosinho nos gritou, do quarto dos rapazes, onde tinha ido buscar o casaco, pois caía uma chuvinha molha-tolos: "Epá, venham cá, preciso de ajuda!". O segundo e meio de que dispusemos para imaginar que raio de carga nos ia pedir para levarmos não durou mais do que isso... corremos para o pátio e descobrimos o motivo da aflição: o quarto dos rapazes estava a arder!

A culpada? A proverbial humidade da ilha, que obrigara a acender um velho aquecedor a gás para secar os colchões. Houve o cuidado de colocar aquele longe destes, mas uma labareda mais atrevida fugiu da resistência e atirou-se aos colchões e aos cortinados. Acto contínuo, uns telefonaram para os bombeiros, outros ligaram a mangueira, conseguiu-se arrastar o aparelho para fora do quarto e a chuvinha molha-tolos ajudou a arrefecer os ânimos (mas não impediu a querida Lija Baltazar, de quem guardo tão boas recordações, de ir para a sua varanda, do outro lado da travessa, de guarda-chuva em punho, para ver o que se passava).

Balanço final: uma cama queimada, armários enegrecidos, cortinas para o galheiro. O impulso de ir não-sei-onde buscar não-sei-quê surgira no momento certo, impedindo estragos maiores. E os reflexos do Gonçalo evitaram o prejuízo mais temmido: a guitarra eléctrica recém-trazida pelo Pai Natal. Foi por um triz, disseram os bombeiros, que a botija de gás não rebentou. O dia seguinte foi passado a pôr tudo em ordem e a verdade é que ninguém que entrasse no quarto após a nossa labuta diria que lá houvera um fogo. Ficou tudo impecável e nem sei se o Avô Nico chegou a saber do incidente. Mas deviam ter visto as nossas caras de pânico quando na manhã seguinte (a de um dia passado a limpar, a pintar, a arrumar) apareceu, sem aviso prévio, a Bli, tia de vários intervenientes. Perante a atrapalhação de quem lhe abriu a porta, e antes de saber do sucedido, só dizia: "Eu estou só de passagem, nem entro. Os meninos estão cá à vontade, não quero saber nada do que andam a fazer...".

Ainda hoje nos rimos ao recordar este episódio rocambolesco. O quarto dos rapazes já não está lá, a casa velha dos Formosinhos também não, mas há nisto tudo coisas que não morrem...
(a saga das passagens de ano no Baleal termina amanhã)

domingo, 4 de janeiro de 2009

O voo da codorniz (XXXVa)

Eixo Formosinho Sanchez-Baltazar-Catanho de Menezes
Baleal, Portugal


A codorniz voa pela ilha onde tem andado pousada e dá voltas à memória para responder à pergunta do Miguel: como é o réveillon no Baleal? Alonga-se a codorniz, como de costume, e há que dividir a resposta em várias partes. Três devem chegar; eis a primeira.

Para este teu amigo, meu caro, a passagem de ano na ilha já assumiu vários formatos. Quando era adolescente, reuníamo-nos na casa velha dos Formosinhos (hoje cratera arrepiante onde florescem toscos de nova casa). Vinham a maioria dos 11 primos dessa família (Bernardo, Guilherme, Marta, Gonçalo, Pedro, Henrique, Carmo, Maria), o Vinícius e as primas Joana e Diana (Baltazar-Holbeche Beirão), a Nica e o Pedro Teixeira Duarte, um ou outro Formosinho "lá de trás", a minha irmã e eu. Alguns trazíamos namorad@s (alguns, hoje, mulheres e maridos, babados pais e mães) ou amig@s (Mariana Furtado, Pitu, JP, Maria João, Maria Ana, Margarida, Pedro Castanheira, to name but a few...). Éramos umas dezenas, em suma. Nem todos dormíamos naquela saudosa casa, mas era ali o centro dos festejos. Reproduzia-se o ambiente de Agosto, quando o querido Nico Formosinho abria a porta a três gerações de várias famílias, que vinham ver o Herman José, nos tempos em que ele tinha graça. Do sofá ao pátio, com as janelas abertas, tudo era casa.

A ementa do jantar de 31 de Dezembro era Tunatta Balealense, único prato que conheço nado e criado na ilha, à base de esparguete e atum (fica para outro dia a história desta iguaria e para outro, ainda, a narração de um incêndio à chuva). Cozinhávamos o Vini e eu, que éramos dos primeiros a chegar à ilha, lá para 27 ou 28 de Dezembro. Era das poucas vezes no ano em que ir ao supermercado me divertia... e lá se conseguia um repasto que saía a 200 paus a cada comensal. Os extras iam sendo trazidos por todos; havia bebida a rodos, acepipes vários, guitarras eléctricas e jogos de sociedade.

A contagem decrescente para a meia-noite gerava discussão entre aquele cujo relógio já dizia 00:01 e o outro, que ainda ia nas 23h58. O desempate acabava ditado pela televisão e alguém pegava num pequeno gongo que por lá havia para assinalar o dobrar do Cabo das Tormentas, enquanto outro alguém fazia saltar a rolha do champanhe. Vínhamos para a rua, abraçávamos quem saía de outras casas, víamos gente que não sabíamos que estava no Baleal, tirávamos fotografias, bebíamos, comíamos e comíamos e bebíamos. Soou mal? Sabia bem...

Era no meio desta loucura toda que o PTD e eu íamos ao banho. Suscitávamos gargalhadas a uns, exclamações de "loucos!" a outros, palavras solidárias a mais alguns. O mergulho era e continua a ser um rito, sendo que àquela hora não tinha, sequer, o carácter purificador de hoje, quando dado de manhã. Se intoxicados entrávamos na água (e como, de comida e bebida, em doses suficientes para tornar desaconselhável a empreitada!), intoxicados saíamos e, pior, dispostos a prosseguir a intoxicação após um duche quente, como aliás os que ficavam na areia ou no muro a ver. Não me lembro de acidente mais grave do que a ressaca ou beijinhos a putativas (ou não) caras-metades.

A festa terminava umas horitas mais tarde, decapitada pelo grito de alerta d@s desgraçad@s que tinham de estar em Lisboa à hora do almoço (nunca fiz parte desse grupo, graças a Deus!). Se o sol ou a luz dele apareciam por trás da Almagreira, era preciso começar a limpar. Sim, que aquela casa e as demais ficavam impecáveis, como as tínhamos encontrado. Depois, os mais sortudos prolongavam o idílio por uns dias, a um ritmo mais pausado, mas nem sempre menos disparatado...
(continua)

sábado, 27 de dezembro de 2008

A carol a day keeps the doctor away (XV)

Quebremos a quasi-hegemonia anglófona dos últimos dias. Segue-se uma das mais bonitas canções portuguesas de Natal, que me lembro de ouvir o Tio Manuel Porto cantar, com ar angelical, nos velhos Natais do Restelo. Também cá em casa se canta o Natal de Évora, terra onde é bonito ir nesta quadra e passear sob as arcadas cheias de música. Este ano não rumámos a Sul, mas ouvimos este e outros cânticos na Igreja de São João de Brito, num belíssimo recital no passado dia 12.

A versão que escolhi, conquanto bela, omite uma quadra que fez história em casa amiga. Era assim a dita:

O Menino está dormindo
Nos braços da sua Mãe
Os anjos estão cantando
"Que gracinha que ele tem"

Sucede que havia, na casa de que vos falo, uma menina Maria da Graça, Gracinha, ainda criança. Ao ouvir esta quadra, ficava meio "sem graça". É que ela tinha uma irmã bebé, de seu nome Margarida, e não lhe parecia bem dizer-se, sobre o Salvador, "que gracinha que ele tem", excluindo a benjamina. Vai daí, solucionou o dilema com uma alteração à letra, que passou a ser:

Os anjos estão cantando
"Que guidinha que ele tem"

Um abraço, caro Francis, para ti e todos os teus, por esta e outras histórias!


Coral Évora, Natal de Évora
(na Igreja de Santo Antão, 2007)

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

A carol a day keeps the doctor away (XIV)


Pela primeira vez em 30 Natais, comprei um presente para mim. Comecei a contar a história há dias, mas, para abreviar razões, cá vai: havia uma cassete de que eu gostava muito, com crianças a cantar carols. Deram-ma os meus pais, quando vivíamos em Oxford, e muitas daquelas canções eram as que nos ensinavam na escola.

Um dia, a cassete sumiu da gaveta onde a ia buscar todos os anos... e nunca mais ninguém a viu. No início deste mês, ao assumir a minha natureza periódica de carol-junkie, tentei que a Net colmatasse a impossibilidade de reaver o artefacto perdido. Não me lembrava do nome do coro, só do título do álbum. Mas Christmas for everyone é, convenhamos, uma expressão comum, que está nos votos natalícios de meio mundo. Quando a googlei, os resultados eram asfixiantes.

Lembrava-me, por sorte, de que o disco tinha duas músicas que não aprendêramos na escola. Eram originais. E se o nome de uma delas era o mesmo do álbum - inútil, como vimos, para efeitos de pesquisa -, a outra dava mais alento. Conduziu-me aos leilões do eBay, onde encontrei o tesouro perdido e fiz um lance vitorioso.

Vinte e dois anos depois da primeira audição, a cassete sumida torna-se LP, o nome do coro de uma escola católica de Stockport ressurge do emaranhado das sinapses, as vozes lindas e as orquestrações renascem como se as tivesse ouvido ontem.

Autopresentear-me talvez não seja muito do espírito da quadra, mas não me arrependo nada. Até porque a dádiva pode ser partilhada. Com as meninas cá de casa, que adoraram. Com a minha irmã, que gostava como eu da história do Little Donkey que leva Maria gravidérrima até Belém. E convosco, dando a ouvir duas canções que não encontrarão noutro lado: as que permitiram alcançar o fim da gesta.



Saint Winifred's School Choir, In a lowly stable



Saint Winifred's School Choir, Christmas for everyone

Boas Festas, everyone!

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

A carol a day keeps the doctor away (XIII) / Baú das codornizes (XV)


Peter Auty, Walking in the air (do filme The snowman)

Foi a descoberta do Natal dos meus oito anos: a história do miúdo que faz um amigo com quem vive um sonho muito real. A música, cantávamo-la na Saint Nicholas First School. Na altura divertia-nos, hoje arrepia-me. Pelas memórias que evoca, por sentir na pele o frio da primeira neve de Oxford, pela pureza da voz de Peter Auty (vale a pena pesquisar na Net este nome, tal como os de Aled Jones, Paul Miles-Kingston e Joseph McManners). Há dois anos, em Londres, ofereceram-me um CD com a história e a música. No ano passado, a cara-metade mandou-me este presente via blogosfera. Desta vez, sou eu quem vo-lo oferece.

sábado, 13 de dezembro de 2008

Hoje à tarde voltei a ter 12 anos


Guns 'n Roses, Sweet Child o' Mine (live at the Ritz)


Obrigado, Miguel!

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

A carol a day keeps the doctor away (VII)

Devo à falta de inspiração para outro assuntos, que me aprisionou numa esfera de música de Natal, a alegria de reencontrar uma canção que não ouvia há muitos anos. Estava numa cassete que os meus pais me ofereceram em Inglaterra e que eu ia buscar, todos os anos, no início de Dezembro, à gaveta do escritório onde sabia que ia encontrá-la.

"Mas veio um dia e não cantou / outro e mais outro e não cantou". Ou melhor, veio um dia em que a cassete não estava na gaveta, e nunca veio outro dia em que voltasse a estar. O encontro fortuito com este carol (noutra versão, quase tão boa como a que perdi) devolveu-me a esperança de recuperar a dita cassete. Para já, descortinei-a no eBay, em versão LP, e fiz um lance. Desejem-me sorte e prometo pôr aqui qualquer coisita.


Young Wexford Singers Children's Choir, Calypso carol
Shepherds swiftly from your stupor rise
to see the Saviour of the world

sábado, 22 de novembro de 2008

Baú das codornizes (XIV)

Esta entrada de há dias diz bem do tom por que anda afinada a minha vida. Não têm faltado nas conversas cá de casa canções de embalar, cantigas de roda, filmes da Disney, séries de desenhos animados, etc. Do Barata-Moura ao papão-vai-te-embora-para-cima-do-telhado, da Branca de Neve ao Rei Leão, do Picapau Amarelo ao pato-pata-aqui-pata-acolá, do Calimero à Abelha Maia, tem sido um desfiar de recordações...

Em boa verdade vos digo que nunca esqueci essas imagens e sons de quando era miúdo. Sempre revisitei, ao longo dos anos, cenas, músicas e personagens, gravei filmes e comprei vídeos, discos e DVDs, que agora recupero para quem de direito.

Algumas há, no entanto, que mais vale que fiquem lá no vale das memórias (posto que difícil é dar-lhes ordem de despejo). Como esta película de 1989, de talentosos autores (a equipa de Don Bluth, que fez O segredo de NIMH e Em busca do vale encantado, mais as 287 sequelas), mas muito mal conseguida. Fomos vê-la, perto do Natal, éramos um grupo de dez ou mais, entre miúdos e adultos. Ninguém gostou e ainda hoje a obra é motivo de gozo em conversas familiares. A história era fraca, a animação muito vista, a banda sonora ensurdecedora. Não sei mesmo se não foi daí que nasceu a expressão "Tirem-me deste filme!".

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Baú das codornizes (XIII)


Baby mine, do filme Dumbo, de Walt Disney (voz de Betty Noyes)

Haverá melhor do que rever
esta cena com um bebé ao colo?

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Baú das codornizes (XII)

Remember remember
the fifth of November
Gunpowder, treason and plot.
I see no reason
why gunpowder, treason
Should ever be forgot...

No dia 5 de Novembro de 1605, Guy Fawkes e mais uma catrefada deles tentaram rebentar com o Parlamento inglês enquanto Jaime I discursava. O rei era protestante, os conspiradores católicos. A brincadeira valeu-lhe se enforcado, arrastado e esquartejado (hung, drawn and quartered, uma tradição lá das ilhas).

O rei quis, naturalmente, que o caso não fosse esquecido. E alguém teve a arte de transformar tão hedionda história numa nursery rhyme, para incutir nas novas gerações o respeitinho-que-é-bom-e-a-gente-gosta (há outras mais inócuas).

A miudagem adora a efeméride, comemorada com fogos-de-artifício e fogueiras, nas quais é imolado um boneco que representa Guy Fawkes, e que as próprias crianças fazem com roupas velhas, jornais, etc. Há quem o exiba, antes da hora da queima, pedindo a penny for the guy. Quando vivi em Oxford, fizemos um boneco destes na escola e comemos batatas assadas enquanto o dito ardia. Que saudades...

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

O voo da codorniz (XXXI)

Paço d'Arcos, Portugal

É das baías mais queridas que conheço. Os barquinhos de pesca, o pequeno areal, as árvores, Lisboa ao fundo. O repuxo dispensava-se, mas também não chateia. Amigo da Marginal, passo por aqui vezes sem conta. Gosto mais ao fim da tarde.

À vila propriamente dita ia em miúdo, a casa de uma tia, numa rua que depois mudou de nome. Ainda me lembro do número de telefone. Um dia, da varanda, vimos um veleiro que encalhara no Bugio. Outro dia, provei raclettes. E comi Nucrema.

Estive muito tempo sem pôr os pés nesta terra. Passava de carro e, não fora o paço dos arcos - amarelo e velhinho, quem cuida dele? -, nem me lembraria do seu nome. A baía era bonita e bastava. Até que a vida profissional me trouxe de volta, há três anos e meio. Não trabalho ao pé do mar, mas vejo-o da janela, por trás dos prédios feios que algum autarca-modelo deixou construir. Os prédios onde ficam uma farmácia, um multibanco, um supermercado e até uma repartição de finanças a que já me habituei. A estrada que percorro, quase todos os dias, vindo da estação de comboio, onde um letreiro impediria - caso fosse preciso - que me esquecesse do nome deste lugar.

Paço d'Arcos faz, de novo, parte da minha vida. As vivendas, o café dos Queques da Linha, a Escola Primária que o Governo quer fechar, o cão que às vezes me faz saltar, o comboio-fantasma do Isaltino, caríssimo e sempre vazio, o mercado e a estação de correios são elementos da paisagem do meu quotidiano. Desde que aqui estou, até o quartel dos bombeiros já mudou de sítio. Como não desenvolver sentimentos de pertença?

Ontem estive, pela terceira vez, nas Festas do Senhor Jesus dos Navegantes, em Paço d'Arcos. O jardim que se vê na imagem fica pejado de barracas de feirantes, quiosques de caipirinhas (e caipiroskas, ou até caipivinhos!), cachorros e farturas. Com música surpreendentemente boa em pano de fundo, passase um bom fim de tarde no final do Verão. Não andei no carrossel, mas comprei dois belos livros, comi uma bifana deliciosa, passeei, namorei a baía e não só e fui feliz. E lá somei esta à longa lista das terras a que chamo minhas...

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Quando eu era adolescente e o Verão era só despreocupação, escrevia coisas assim...

PC, 10 Maio 2008

Agosto

Dois passos
Na areia molhada
O mar que te molha os pés
A cadência
Marcada pelas marés
Levam-te sem saber
A não saber onde andas
A andar sem saberes quem és

Dois golos
Na cerveja gelada
O mar cantando uma canção
O desejo
De tocar naquela mão
Levam-te a viver
Como se afinal a vida
Fosse uma noite de Verão


Baleal, 31 Agosto 1995

terça-feira, 15 de julho de 2008

Pequena valsa lisboeta

Junho de 1988. Era miúdo, tinha 9 anos e queria ir ao Coliseu. Mas não tinha idade.

- Não fiques triste, tens muito tempo para ver o Leonard Cohen quando fores crescido!
- Claro, Mãe, quando ele cá vier outra vez e já só cantar "ay, ay, ay, ay, estou tão velho que não me aguento"!
- (risos)

Triste? Fiquei lixado! Felizmente, o homem durou mais do que minhas previsões de puto amuado. Passados 20 anos, aí está Leonard Norman Cohen, em plena forma, dentro de cinco dias. Como tínhamos pedido.

Como que a dar sentido à espera, desvendaram-me há meses (mas antes de saber que ele cá vinha!) uma curiosidade sobre a minha canção preferida de Leonard Cohen, a tal cujo refrão usara na resposta agastada de há duas décadas. Chama-se Take this waltz e - foi esta a revelação, via cara-metade - é um poema de Federico García Lorca, que Cohen demorou 150 horas a traduzir. Aliança perfeita entre dois poetas, sendo tal a admiração do canadiano pelo espanhol que chamou à sua única filha... Lorca.

É uma música que cantei e dancei mil vezes, mas que nunca apareceu no codornizes. Nesta entrada, há um link para a interpretação de Cohen (encontrem-no!). E, abaixo, fica uma versão dúplice: é cover, porque quem canta é o filho de Leonard, Adam. Mas é original, porque a letra é a castelhana que Federico escreveu no seu Poeta en Nueva York. Sugiro que a ouçam e leiam como quem enceta uma contagem decrescente...

Adam Cohen, Toma este vals


Federico García Lorca, Pequeño vals vienés

En Viena hay diez muchachas,
un hombro donde solloza la muerte
y un bosque de palomas disecadas.
Hay un fragmento de la mañana
en el museo de la escarcha
Hay un salón con mil ventanas

Ay, ay, ay, ay,
Toma este vals con la boca cerrada

Este vals, este vals, este vals,
de sí, de muerte y de coñac
que moja su cola en el mar

Te quiero, te quiero, te quiero,
con la butaca y el libro muerto,
por el melancólico pasillo
en el oscuro desván del lirio,
en nuestra cama de la luna
y en la danza que sueña la tortuga

Ay, ay, ay, ay,
Toma este vals de quebrada cintura

En Viena hay cuatro espejos
donde juegan tu boca y los ecos,
Hay una muerte para piano,
que pinta de azul a los muchachos.
Hay mendigos por los tejados
Hay frescas guirnaldas de llanto

Ay, ay, ay, ay,
Toma este vals que se muere en mis brazos

Porque te quiero, te quiero, amor mío,
en el desván donde juegan los niños,
soñando viejas luces de Hungría
por los rumores de la tarde tibia,
viendo ovejas y lirios de nieve
por el silencio oscuro de tu frente

Ay, ay, ay, ay,
Toma este vals del 'te quiero siempre'

En Viena bailaré contigo
con un disfraz que tenga cabeza de río.
Mira que orillas tengo de jacintos
Dejaré mi boca entre tus piernas,
mi alma en fotografías y azucenas,
y en las ondas oscuras de tu andar
quiero, amor mío, amor mío, dejar,
violín y sepulcro, las cintas del vals

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Adenda à entrada de ontem

Marion C. Honors, Grandmother

Recebi do meu Pai dois comentários que completam e enriquecem as memórias de uma ida a Paris com a minha Avó. Corrigidos e editados, a pedido dele, dão isto. Que vale a pena ser lido.

Pois, vais buscar fotografias ao Robert Doisneau e não pedes
ao Mário Cordeireau. Estive na pontinha do Vert Galant, há dias,
a respirar o ar intenso e a relembrar os teus Avós, que sempre
que iam a Paris faziam uma jura de amor nesse ponto tão enigmático.

Tu sabes, porque tiveste o privilégio de passear com ela
(até ela perder dois quilos por dia!), inclusivamente teimando
que a Bastilha ainda existia e querias ver as ruínas. E ela teve
o privilégio de passear em Paris contigo e com a tua irmã.
Bons tempos, Setembro de 1989, dito assim parece até antes
da Guerra de 14-18.

Lembras-te da ameaça de bomba correspondente a uma mala
de 20x20 centímetros (minúscula, pois) que um tal Monsieur Ubu, passageiro da Air France, teria enviado no porão (ainda mais estranho, dadas as dimensões da dita), e cujo
não se encontrava a bordo? Tivemos de fazer o reconhecimento das nossas malas e consta que fizeram explodir o "petit paquet" do Monsieur. Tudo isto em Setembro, mas antes do 9/11...

Noventa anos, pois é, o tempo passa. E lembras-te do empregado do Hotel, que passou a tratar-nos como reis depois
de recebermos a visita do Embaixador de Portugal? De pedintes a "onorevole" em menos de um fósforo. Já não contarei aqui algumas das tuas birras dos dez anos de idade, mas relembrarei o particular interesse pelo "mot de Cambronne"... na estação
do dito. Tenho
saudades. Da tua Avó, de Paris, de ti. Beijinhos, meu filho "primogénito".

terça-feira, 8 de julho de 2008

O voo da codorniz (XXVIII)

Jardin du Vert Galant, Île de la Cité, Paris, França

Fica na pontinha da ilha onde nasceu a Cidade-Luz, com o Pont Neuf - o mais velho de todos - a delinear-lhe a estrema. É pequeno, mormente à escala de Paris, mas veremos que é grande. A pequenez deste quarto de hectare resulta da concatenação de pequenezes ainda mais pequenas, ilhotas que houve no Sena em tempos idos. Numa delas, foram queimados os últimos templários.

O verde galante que dá o nome a este recanto é Henrique III de Navarra, que foi IV de França no limiar dos séculos XVI e XVII. Casou sem amor com Margarida de Valois (filha da megera Catarina de Médicis, vejam o filme com a Isabelle Adjani) e teve incontáveis amantes. Ela não se ralou, preferia o provençal Joseph Boniface de La Môle, cuja cabeça terá embalsamado quando Carlos IX o mandou esquartejar. Não divaguemos, porém: verde e galante era Henri, imortalizado em estátua no jardim que aqui nos traz. Verde e galante é este square, ainda poiso dilecto de galantes enamorados, não importa se verdes, se maduros. Quem me dera lá neste fim de tarde...

Tinha 10 anos quando visitei Paris pela primeira vez, com o meu Pai, a minha irmã Filipa e a Avó Gina. Apaixonada pelo Vert Galant, foi ela que me contou a história deste jardim, uma de muitas. E que guiou os meus primeiros passos pela cité, do alto da Torre Eiffel (que detestava) aos estaminés dos pintores da Place du Têrtre, do impressionista Quai d'Orsay à impressionante Sainte-Chappelle, y compris Louvre, grands boulevards, Quartier Latin, bouquinistes e esse bolo de noiva a que chamam Sacré-Cœur.

Há que explicar que o meu Pai ia em trabalho e só se nos juntava ao fim da tarde. Durante o dia, a Avó metia-se connosco no métro e lá íamos calcorrear Lutécia. Nós delirámos e ela também. Já voltei à cidade muitas vezes e em nenhuma deixei de sentir saudades dela e daquela estreia prodigiosa. Sempre bem disposta, aguentou uma suspeita de bomba no avião à ida (palavra!) e, com ainda maior estoicidade, ensinou Paris a dois netos frenéticos (os 11.º e 14.º dos 21 que tem, sendo que os bisnetos serão 26 antes do fim do ano). Se fosse viva, a minha Avó faria hoje 90 anos. Este apontamento sobre o seu querido Vert Galant é o beijinho de parabéns que gostava de poder dar-lhe.

NOTA: As fotos são, por ordem, de Robert Doisneau, Eugène Atget e Marcel Bovis

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Baú das codornizes (X)

Esta é para um certo esquilo que eu conheço e que nunca pára quieto. Continua assim!


Genérico de Alvin e os esquilos