Começo pelo segundo desafio: descrever uma memória numa frase de seis-palavras-seis. A minha frase não é bem frase e a memória que descreve tão-pouco é uma memória. São muitas. Isto porque me veio à cabeça uma sequência de palavaras que arranjei, há anos, para explicar um sentimento que me invadia e invade muitas vezes. Dá-se o feliz acaso de serem seis; aqui ficam, com a imagem do lugar que mas soprou.
ailha que às vezes sou
Nota: a foto foi tirada no Baleal, a 9 de Maio de 2003, pelo Francisco Leote. Eu vivia em Madrid e foi bom receber estas vagas no centro da árida meseta. Ele vive em Roma e é um amigo de quem tenho saudades.
Apetece-me passear pela minha cidade. Descer a pé o eixo Rato-Bica, que é onde há varandas como estas, e subi-lo retemperado por um chá ou coisa mais forte, possivelmente no Pavilhão Chinês. Esquadrinhar as ruas por onde anda a gente que veste esta roupa e a estende ao sol que hoje não há. Olhar com atenção para cada rosto e ouvir as histórias que as feições de cada personagem involuntária me queiram contar em silêncio. Talvez escrevê-las. Perceber se a cor do Tejo muda consoante o olhamos de uma transversal da Rua da Escola Politécnica ou da Calçada do Combro. Mandar recados telepáticos, via cacilheiro, às gaivotas de Porto Brandão e aos barquinhos de pesca da Trafaria. Cobiçar doçuras às montras das pastelarias, confortos às das lojas de design, poemas às das livrarias. Devolver com um raro chuto certeiro a bola que os miúdos do Bairro Alto pontapearão com demasiada força a dada altura. Devolver também os sorrisos que as velhas distribuem, das suas portas e janelas de menagem, defendidas a dente de cão ou garra de gato, a quem tiver força na alma para rodar ou levantar a cabeça num ângulo que, bem vistas as coisas, pouco exige à musculatura do pescoço. Trautear cantigas de amor a esta Lisbela, corrompendo êxitos de Amália, Jorge Palma, Carlos do Carmo, Mariza, Trovante, Vitorino, Sérgio Godinho ou Madredeus. Dedicá-las, se melhor destinatári@ não houver, aos guarda-freios dos eléctricos que ainda passam, às floristas da Rua Augusta, à multidão que enche as esplanadas do Chiado, a quem mantém retrosarias, capelistas, drogarias e outras espécies em vias de extinção. Admirar aquela árvore do Príncipe Real. Reconhecer a custo os meus lugares da noite à luz do fim da tarde e lembrar mais histórias, acontecidas ou por acontecer a quem nasce, vive e morre na minha cidade. Dar uma mão ou um braço a quem quiser ouvir-mas ou, melhor decerto, a quem conseguir cortar-me a verborreia com um olhar cúmplice, daqueles que nos transportam em tempo real para o canto superior esquerdo de uma folha em branco. Esperar, de ombro encostado e a ver Lisboa, pela primeira palavra de uma nova narrativa.
Apetece dizer uma palavra misteriosa apetece dizer uma palavra pode ser a incognoscível palavra rosa ou a terrível palavra abracadabra apetece dizer uma palavra lavra lavra. Pode ser a palavra pa pode ser a palavra pala pode ser pode ser apenas a palavra Manuel Alegre, Uma palavra (de Senhora das tempestades)
A Cris tem toda a razão: a minha selecção de palavras, além de assumidamente não cumprir as regras, não tem 25, mas 23 elementos. Freud ou quem quiser explicará porque ficaram de fora estas duas, que faziam parte da lista.
Não são 12 palavras, mas 24, porque o desafio veio da Sofia e da tcl. E não são 24, são 25, porque contei mal e agora não me apetece cortar nenhuma. Desta vez saíram assim. Se houver outra vez, veremos como saem...
Vão aqui e gozarão o supremo prazer de pôr uma pessoa a dizer tudo o que vos apetecer ouvir, na língua que escolherem. Às vezes vezes apetecia ter essa ferramenta em casa. Era bom, não era? Era bom? Não era!