Mostrar mensagens com a etiqueta poesia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta poesia. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 21 de maio de 2009

...e não segura!

Radiografia de fractura em ramo-verde



Descalça vai para a fonte
Lianor pela verdura

Luís de Camões, Descalça vai para a fonte

'You may certainly ask to be forgiven', said Elinor,
'because you have offended'

Jane Austen, Sense and sensibility

Fuge, fuge, Leonoreta.
Vai na brasa, de lambreta.

António Gedeão, Poema da auto-estrada

Waits at the window,
wearing the face that she keeps in a jar by the door
Who is it for?

Lennon/McCartney, Eleanor Rigby

Não na ver o Sol lhe val,
Por não ter novo inimigo;
Mas ela corre perigo,
Se na fonte se vê tal;

Francisco Rodrigues Lobo, Cantiga Lionor

E nunca mais ninguém soube
A não ser a Leonor, da Alice
Aqui vai, Leonor
A foto dos meus dois filhos
Se reparares melhor
Têm pinta assim, sei lá
De matraquilhos

Sérgio Godinho, Alice no País dos Matraquilhos

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Courrier Internacional n.º159



Saiu hoje mais um Courrier Internacional. Na capa, uma história impressionante: em França, ajudar imigrantes ilegais é uma infracção. Não estamos a falar de ajudar clandestinos a atravessar a fronteira, mas de dar-lhes qualquer tipo de apoio, incluindo humanitário. As condições de vida deterioram-se em Calais, onde vai ser criado, com o acordo dos ingleses, uma espécie de prisão de Guantánamo na zona portuária.

Outros assuntos na edição deste mês são os artesãos portugueses, visitados por um jornal australiano, a relação amorosa entre Barack Obama e o teleponto, a ineficácia da luta internacional contra o narcotráfico, as cunhas na Albânia e o calvário dos homossexuais na Nigéria. Também temos reportagens sobre os camponeses chineses recém-despedidos das fábricas, os jovens angolanos obrigados a combater, o lixo na Indonésia e a importância do feng shui para os empresários de Hong Kong. Podem ainda ficar a conhecer o Bob Dylan timorense e um defensor dos aborígenes australianos. Reconheçam que vale a pena...

Léo Ferré, L'étranger (letra de Charles Baudelaire)

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Contagem decrescente para o 25 de Abril - 2


José Carlos Ary dos Santos, As portas que Abril abriu
(são excertos, mas vale a pena lerem o poema todo aqui)

Em 1974 eu não era sequer projecto. A Revolução foi-me contada pela família e pel@s amig@s, que a viveram intensamente, cada um a seu ritmo, em liberdade. E que souberam transmitir aos pósteros os valores que Abril abriu. O poema de hoje, mandou-me o meu Tio Filipe, homem de terra e mar, patriarca que admiro, figura de referência a quem deixo um abraço com a força de um cravo.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Que tudo esteja realmente no coração


Fáfá de Belém, Coração Aprendiz


O que se ensina a um coração aprendiz? Há quatro cavidades tão perfeitas que estremecemos perante o desafio de preenchê-las. A boca altera-se sem pensar, com os lábios a reproduzirem, no sentido ascendente, a curva do arco aórtico, que há-de conduzir ao resto do corpo o que escolhermos para recheio desse brinquedo de corda. Amor, talvez? Amor, decerto, e algo mais, a fazer tinir uma canção de embalar que dite o ritmo do seu batimento.

Imagem da Anatomia de Gray

António Gedeão, Poema do coração
Eu queria que o Amor estivesse realmente no coração,
e também a Bondade,
e a Sinceridade,
e tudo, e tudo o mais, tudo estivesse realmente no coração
Então poderia dizer-vos:
"Meus amados irmãos,
falo-vos do coração",
ou então:
"com o coração nas mãos".

Mas o meu coração é como o dos compêndios
Tem duas válvulas (a tricúspide e a mitral)
e os seus compartimentos (duas aurículas e dois ventrículos).
O sangue a circular contrai-os e distende-os
segundo a obrigação das leis dos movimentos.

Por vezes acontece
ver-se um homem, sem querer, com os lábios apertados
e uma lâmina baça e agreste, que endurece
a luz nos olhos em bisel cortados.
Parece então que o coração estremece.
Mas não.
Sabe-se, e muito bem, com fundamento prático,
que esse vento que sopra e ateia os incêndios,
é coisa do simpático.
Vem tudo nos compêndios.

Então meninos!
Vamos à lição!
Em quantas partes se divide o coração?

terça-feira, 15 de julho de 2008

Pequena valsa lisboeta

Junho de 1988. Era miúdo, tinha 9 anos e queria ir ao Coliseu. Mas não tinha idade.

- Não fiques triste, tens muito tempo para ver o Leonard Cohen quando fores crescido!
- Claro, Mãe, quando ele cá vier outra vez e já só cantar "ay, ay, ay, ay, estou tão velho que não me aguento"!
- (risos)

Triste? Fiquei lixado! Felizmente, o homem durou mais do que minhas previsões de puto amuado. Passados 20 anos, aí está Leonard Norman Cohen, em plena forma, dentro de cinco dias. Como tínhamos pedido.

Como que a dar sentido à espera, desvendaram-me há meses (mas antes de saber que ele cá vinha!) uma curiosidade sobre a minha canção preferida de Leonard Cohen, a tal cujo refrão usara na resposta agastada de há duas décadas. Chama-se Take this waltz e - foi esta a revelação, via cara-metade - é um poema de Federico García Lorca, que Cohen demorou 150 horas a traduzir. Aliança perfeita entre dois poetas, sendo tal a admiração do canadiano pelo espanhol que chamou à sua única filha... Lorca.

É uma música que cantei e dancei mil vezes, mas que nunca apareceu no codornizes. Nesta entrada, há um link para a interpretação de Cohen (encontrem-no!). E, abaixo, fica uma versão dúplice: é cover, porque quem canta é o filho de Leonard, Adam. Mas é original, porque a letra é a castelhana que Federico escreveu no seu Poeta en Nueva York. Sugiro que a ouçam e leiam como quem enceta uma contagem decrescente...

Adam Cohen, Toma este vals


Federico García Lorca, Pequeño vals vienés

En Viena hay diez muchachas,
un hombro donde solloza la muerte
y un bosque de palomas disecadas.
Hay un fragmento de la mañana
en el museo de la escarcha
Hay un salón con mil ventanas

Ay, ay, ay, ay,
Toma este vals con la boca cerrada

Este vals, este vals, este vals,
de sí, de muerte y de coñac
que moja su cola en el mar

Te quiero, te quiero, te quiero,
con la butaca y el libro muerto,
por el melancólico pasillo
en el oscuro desván del lirio,
en nuestra cama de la luna
y en la danza que sueña la tortuga

Ay, ay, ay, ay,
Toma este vals de quebrada cintura

En Viena hay cuatro espejos
donde juegan tu boca y los ecos,
Hay una muerte para piano,
que pinta de azul a los muchachos.
Hay mendigos por los tejados
Hay frescas guirnaldas de llanto

Ay, ay, ay, ay,
Toma este vals que se muere en mis brazos

Porque te quiero, te quiero, amor mío,
en el desván donde juegan los niños,
soñando viejas luces de Hungría
por los rumores de la tarde tibia,
viendo ovejas y lirios de nieve
por el silencio oscuro de tu frente

Ay, ay, ay, ay,
Toma este vals del 'te quiero siempre'

En Viena bailaré contigo
con un disfraz que tenga cabeza de río.
Mira que orillas tengo de jacintos
Dejaré mi boca entre tus piernas,
mi alma en fotografías y azucenas,
y en las ondas oscuras de tu andar
quiero, amor mío, amor mío, dejar,
violín y sepulcro, las cintas del vals

segunda-feira, 16 de junho de 2008

O voo da codorniz com Google Earth (XXVI)

El Puerto de Santa María, Andaluzia, Espanha

Procura-se um sabor de há cinco anos. Imperativo reconhecer aquela esquina, aquela porta, aquela mesa, a travessa onde molho o pão sem que me ralhem. Ansiedade em cada fachada amarelada, em cada pátio aflorado, em cada palmeira a ritmar a avenida, em cada ladrilho a nomear as ruas. Como se houvesse painéis a indicar quantos quilómetros quedam para não-sei-onde, mas sem desvendar as terras a que a estrada conduz. Gargalhadas regateadas. Já lhes perdi a conta e são tantas e faltam tantas...

Ouço "é aqui". Não longe, a deusa Gades, de mão na fronte e seios descobertos, não deixa de olhar em redor. Tão-pouco eu, interrompendo a volta de 360 graus só pelo que ouvi e vi que era certo. Venham do oceano os que o sulcam e da terra as que crescem por ela dentro, abrindo olhinhos com bravura. Venha quem encontrou o que procuro, quem através de outro mar aceita frutos com um sabor de há cinco anos, um sabor para daqui a cinco mil. Venha quem quer que eu tenha sido, ontem, em El Puerto de Santa María. A passar as mãos por raras cãs ou franjas mais ou menos assim. Como se da mistura de umas e outras fosse feita a melena do poeta daqui ou tais filamentos servissem para fabricar as asas de quem ele queria.

Rafael Albertí, El ángel bueno

Vino el que yo quería
el que yo llamaba.
No aquel que barre cielos sin defensas.
luceros sin cabañas,
lunas sin patria,
nieves.
Nieves de esas caídas de una mano,
un nombre,
un sueño,
una frente.
No aquel que a sus cabellos
ató la muerte.
El que yo quería.
Sin arañar los aires,
sin herir hojas ni mover cristales.
Aquel que a sus cabellos
ató el silencio.
Para sin lastimarme,
cavar una ribera de luz dulce en mi pecho
y hacerme el alma navegable.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

O voo da codorniz com Google Earth (XXIV)

Chelsea, Londres, Inglaterra

Contei hoje a um amigo uma história que passa por este bairro londrino, muito posh e vitoriano. Gosto de andar a pé pelas ruas de Chelsea, sob chuva miudinha, a ver qual dos telhados em bico chega primeiro ao céu. São fileiras de casas de tijolo vermelho, esbeltas e alinhadinhas, alternando com travessas que parecem as vilas que ainda restam em Lisboa. De Knightsbridge até ao Tamisa - onde um dia deixei cair um boné -, hei-de repetir a passeata um destes dias. Até lá, consolo-me com palavras do poeta-poetinha.


A última elegia (V), de Vinícius de Moraes
(Londres, 1939)









Greenish, newish roofs of Chelsea
Onde, merencórios, toutinegram rouxinóis
Forlornando baladas para nunca mais!
Ó imortal landscape

no anticlímax da aurora!
ô joy for ever!

Na hora da nossa morte et nunc et semper
Na minha vida em lágrimas!


uer ar iú

Ó fenesuites, calmo atlas do fog
Impassévido devorador das esterlúridas?
Darling, darkling I listen...

"... it is, my soul, it is

Her gracious self..."

murmura adormecida

É meu nome!...

sou eu, sou eu, Nabucodonosor!

Motionless I climb

the wa
t
e
r
Am I p a Spider?
Am I p a Mirror?
e
Am I s an X Ray?


No, I'm the Three Musketeers

rolled in a Romeo.
Vírus

Da alta e irreal paixão subindo as veias
Com que chegar ao coração da amiga.

Alas, celua

Me iluminou, celua me iludiu cantando
The songs of Los; e agora

meus passos
são gatos

Comendo o tempo em tuas cornijas
Em lúridas, muito lúridas
Aventuras do amor mediúnico e miaugente...
So I came

- from the dark bull-like tower
fantomática

Que à noite bimbalha bimbalalões de badaladas
Nos bem-bons da morte e ruge menstruosamente sádica
A sua sede de amor; so I came
De Menaipa para Forox, do rio ao mar - e onde
Um dia assassinei um cadáver aceso
Velado pelas seis bocas, pelos doze olhos, pelos centevinte dedos espalmados
Dos primeiros padres do mundo; so I came
For everlong that everlast - e deixa-me cantá-lo
A voz morna da retardosa rosa
Mornful and Beátrix
Obstétrix
Poésia.

Dost thou remember, dark love
Made in London, celua, celua nostra
Mais linda que mare nostrum?

quando early morn'

Eu vinha impressentido, like the shadow of a cloud
Crepitante ainda nos aromas emolientes de Christ Church meadows
Frio como uma coluna dos cloisters de Magdalen
Queimar-me à luz translúcida de Chelsea?
Fear love...

ô brisa do Tâmisa, ô ponte de Waterloo, ô

Roofs of Chelsea, ô proctors, ô preposterous
Symbols of my eagerness!

- terror no espaço!

- silêncio nos graveyards!

- fome dos braços teus!

Só Deus me escuta andar...

- ando sobre o coração de Deus

Em meio à flora gótica... step, step along
Along the High... "I don't fear anything
But the ghost of Oscar Wilde..." …ô darlingest
I feared... A ESTAÇÃO DE TRENS... I had to post-pone
All my souvenirs! there was always a bowler-hat
Or a POLICEMAN around, a streched one, a mighty
Goya, looking sort of put upon, cuja passada de cautchu
Era para mim como o bater do coração do silêncio (I used
To eat all the chocolates from the one-penny-machine
Just to look natural; it seemed to me que não era eu
Any more, era Jack the Ripper being hunted) e suddenly
Tudo ficava restful and worm... - o sííííííííí
Lvo da Locomotiva - leitmotiv - locomovendo-se
Through the Ballad of READING Gaol até a vísão de
PADDINGTON (quem foste tu tão grande
Para alevantares aos amanhecentes céus de amor
Os nervos de aço de Vercingetórix?). Eu olharia risonho
A Rosa-dos-Ventos. S. W. Loeste! no dédalo
Se acalentaria uma loenda de amigo: "I wish, I wish
I were asleep". Quoth I: - Ô squire
Please, à Estrada do Rei, na Casa do Pequeno Cisne
Room twenty four! ô squire, quick, before
My heart turns to whatever whatsoever sore!
Há um grande aluamento de microerosíferos
Em mim! ô squire, art thou in love? dost thou
Believe in pregnancy, kindly tell me? ô
Squire, quick, before alva turns to electra
For ever, ever more! give thy horses
Gasoline galore, but do take me to my maid
Minha garota - Lenore!
Quoth the driver: - Right you are, sir.

*

O roofs of Chelsea!
Encantados roofs, multicolores, briques, bridges, brumas
Da aurora em Chelsea! ô melancholy!
"I wish, I wish I were asleep..." but the morning
Rises, o perfume da madrugada em Londres
Makes me fluid... darling, darling, acorda, escuta
Amanheceu, não durmas... o bálsamo do sono
Fechou-te as pálpebras de azul... Victoria & Albert resplende
Para o teu despertar; ô darling, vem amar
À luz de Chelsea! não ouves o rouxinol cantar em Central Park?
Não ouves resvalar no rio, sob os chorões, o leve batel
Que Bilac deitou à correnteza para eu te passear? não sentes
O vento brando e macio nos mahoganies? the leaves of brown
Came thumbling down, remember?
"Escrevi dez canções...

... escrevi um soneto...

... escrevi uma elegia..."

Ô darlíng, acorda, give me thy eyes of brown, vamos fugir
Para a Inglaterra?

"... escrevi um soneto...

... escrevi uma carta..."

Ô darling, vamos fugir para a Inglaterra?

..."que irão pensar

Os quatro cavaleiros do Apocalipse..."

"... escrevi uma ode..."

Ô darling!

Ô PAVEMENTS!

Ô roofs of Chelsea!

Encantados roofs, noble pavements, cheerful pubs, delicatessen
Crumpets, a glass of bitter, cap and gown... - don't cry, don't cry!
Nothing is lost, I'll come again, next week, I promise thee...
Be still, don't cry...

... don't cry

... don't cry

RESOUND

Ye pavements!

- até que a morte nos separe

ó brisas do Tâmisa, farfalhai!

Ó telhados de Chelsea,

amanhecei!

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Pata Patunça com chapéu de passeio

Jemima Puddle-Duck, by Beatrix Potter
(Pata Patunça for a privileged few)

Pediste com jeitinho e, porque mereces, aqui a tens (e com um poema de bónus). Como tu, gosta de passear. Como tu, olha para tudo com muita atenção. Como tu, enternece-me.


Plumas, de José Tolentino de Mendonça
(in A estrada branca)

Através da terra o amor
torna-nos estranhos à terra
liga-nos a uma divina linhagem
com seu tormento inapagável
suas verdades enormes

O amor vive na ponta dos cabelos

O amor, ditam os frios de coração, é ruinoso
qualquer momento em chamas
denunciará a precisa inquietação que nos toma

Os inocentes que se amam dizem
teu corpo está a nevar
tua alma é uma flor
um prado tranquilo sua noite

Os inocentes que se amam
por seu tormento elevam-se
como plumas

num chapéu de passeio

segunda-feira, 5 de maio de 2008

E as mães são cada vez mais belas

Ontem foi Dia da Mãe. É dos poucos Dias-disto-e-daquilo a que ligo (outro é este). Às que o já são há muito tempo e às que o vão ser em breve, deixo um beijo e um poema.


[No sorriso louco das mães], de Herberto Hélder
No sorriso louco das mães batem as levesgotas de chuva. Nas amadas
caras loucas batem e batem
os dedos amarelos das candeias.
Que balouçam. Que são puras.
Gotas e candeias puras. E as mães
aproximam-se,soprando os dedos frios.
Seu corpo move-se
pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões
e órgãos mergulhados,
e as calmas mães intrínsecas sentam-se
nas cabeças filiais.
Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado,
vendo tudo,
e queimando as imagens, alimentando as imagens,
enquanto o amor é cada vez mais forte.
E bate-lhes nas caras, o amor leve.
O amor feroz.
E as mães são cada vez mais belas.
Pensam os filhos que elas levitam.
Flores violentas batem nas suas pálpebras.
Elas respiram ao alto e em baixo. São
silenciosas. E a sua cara está no meio das gotas particulares
da chuva.
Em volta das candeias. No contínuo
escorrer dos filhos.
As mães são as mais altas coisas
que os filhos criam, porque se colocam
na combustão dos filhos, porque
os filhos são como invasores dentes-de-leão
no terreno das mães.
E a mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos,
e atiram-se, através delas, como jactos
para fora da terra.
E os filhos mergulham em escafandros no interior
de muitas águas,
e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos
e na agudeza de toda a sua vida.
E o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa,
e através dele a mãe mexe aqui e ali,
nas chávenas e nos garfos.
E através da mãe o filho pensa
que nehuma morte é possível e as águas
estão ligadas entre si,
por meio da mão dele que toca a cara louca
da mãe que toca a mão pressentida do filho.
E por dentro do amor, até somente ser possível
amar tudo,
e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Aqui posto de comando do Movimento das Forças Armadas...

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo
Sophia de Mello Breyner Andresen

O dia amanhece quente em Lisboa. Anda-se pela cidade em mangas de camisa, trânsito não há e despertamos com a promessa de que há-de erguer-se um sol de Verão. Sensação de liberdade. Somos nós os teus cantores. Há 34 anos, disse Salgueiro Maia:"Há diversas modalidades de Estado: os estados socialistas, os estados corporativos e o estado a que isto chegou! Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos. De maneira que quem quiser vem comigo para Lisboa e acabamos com isto. Quem é voluntário sai e forma. Quem não quiser vir não é obrigado e fica aqui." Nem todos eles eram Salgueiro Maia, mas obrigado, capitães de Abril! A todos os civis e militares que combateram uma ditadura bafienta de cuja herança o país tarda em libertar-se, um obrigado incondicional. O que veio depois veio depois.


Chico Buarque, Tanto mar II
(o meu Avô Quim aparece neste vídeo
e eu dedico esta entrada à sua memória)

Tanta esperança nascida em Abril e tanta efectivamente cumprida, apesar do muito Abril morto à nascença. Que ninguém diga que não valeu a pena, escundando-se para tal nas inúmeras tentativas e tentações que houve de cairmos num extremo oposto que em tudo se assemelharia ao que quisemos deixar para trás... essas foram vencidas e, se algo murchou da flor, a verdade é que não singraram os que queriam espezinhar todo o canteiro ou impor a padronização das flores em planos quinquenais.

O golpe militar que o povo transformou em Revolução foi único na génese, na passagem à prática e no que se lhe seguiu. Às vezes tenho pena de não ter estado cá para ver a festa, pá, e para sentir na pele os gelos e calores de que foi feita. Gostava de ter vivido o "nunca renegado PREC", como lhe chamou Zeca, com todas as suas utopias, excessos e possibilidades. No dia em que a Revolução ultrapassa a idade dos génios, é pacífico que há muito sonho por cumprir, muito resquício salazarento, muito cometido já depois da outra senhora, mas... que bom ter nascido em liberdade! Que bom termos podido mandar ao mundo um cheirinho a cravo e alecrim. Que bom termo-nos livrado do mofo. Do medo. Da merda de regime míope, velhaco e criminoso que tolheu Portugal durante meio século. Gosto do 25 de Abril. Gosto de sair à rua com uma flor vermelha na mão ou na lapela. Ponham à democracia os defeitos que quiserem: o facto de poderem fazê-lo é a maior prova de que valeu a pena Abril. E de que vale a pena Portugal.

Georges Moustaki, Portugal

quarta-feira, 16 de abril de 2008

O voo da codorniz com Google Earth (XXII)

A Corunha, Galiza, Espanha

A marginal da semana passada e a quantidade de memórias que suscitou levam a codorniz a procurar outras maresias. Ei-la que voa para Norte e sai (sai?) do país, seduzida por um passeio marítimo mais sinuoso, com curvas e contracurvas por onde circulam os eléctricos que Lisboa não quis. Que prazer o de descer, uma vez mais, o istmo que liga Portugaliza a A Corunha! É uma cidade sempre amiga, quer nos acolham amigos de braços sempre abertos - que a cada visita nos ensinam mais uma das belezas que há nos arredores - ou, da única vez que deles nos desencontrámos, um modesto quarto de hotel atrás do estádio do Deportivo.

São manhãs a ver o porto da varanda da Charo e do Ánxel (e o Chus, por onde andará?), tardes a descobrir Rias Altas e Baixas, passeios pela barafunda das rúas do centro ao fim do dia, uma vieira aqui, um pulpo à feira acolá, raxo e zorza bem regados, conversas nocturnas na Baía de Riazor/Orzán. Ora falamos a mesma língua, ora nos entendemos sem nada dizer. À socapa, de madrugada, A Corunha prepara-nos surpresas de que só nos daremos conta depois de termos deixado para trás as terras galegas, com um adeus e uma saudade necessariamente provisórios. A cidade deseja que voltemos, só pode, ou não se nos gravaria na pele com a força de uma vaga contra a Costa da Morte, o calor que pela garganta escorre quando bebemos queimada, o peso das pedras que mantêm de pé, há 1900 anos, a Torre de Hércules, farol que guia navios tresmalhados e coluna (corunna, em latim) que deu o nome à terra a que dedico este poema alheio.

Georges Moustaki, C'est là
(a versão cantada está mais acima)

C'est là que le monde commence
C'est le début de l'infini
Jardin secret couleur de nuit
Royaume d'ombre et de silence
Terre promise île déserte
Refuge crypte et oasis
Jardin de nos plus doux délices
Source toujours redécouverte
C'est là le centre de la terre
Où se rencontrent nos envies
C'est là que se donne la vie
Royaume d'ombre et de mystère
C'est là que commence le monde
Là où ta main guide ma main
Pour mieux lui montrer le chemin
Au coeur d'une forêt profonde
J'y découvre des paysages
D'étranges fleurs d'étranges fruits
Dans cette étrange galaxie
Où me conduisent mes voyages
C'est là le centre de la terre
Le saint des saints le lieu précis
Où de naguère à aujourd'hui
Je me noie et me désaltère
C'est là que le extase commence
C'est le début de l'infini
Jardin secret couleur de nuit
Où tu recueilles ma semence

terça-feira, 8 de abril de 2008

What the Huck?!

Huckleberry Finn numa ilustração de E.W. Kemble

O dia em que o codornizes cumpre seis-meses-seis é o momento certo para desfazer equívocos e devolver ao simpático rapaz da imagem a identidade que nunca lhe quisemos roubar. Este é Huckleberry Finn, o amigo de Tom Sawyer, que aparece nos livros As aventuras de Tom Sawyer, Tom Sawyer detective, As viagens de Tom Sawyer e, claro está, As aventuras de Huckleberry Finn. Mark Twain terá baseado esta figura em Tom Blankenship, filho de um bêbado que vivia numa barraca ao pé do rio Mississípi, atrás da casa onde o escritor foi criado, em Hannibal, Missouri.

Este é Huckleberry Finn, que tem toda a pinta de ser um gajo porreiro, mas nada que ver com o nome com que que assino as entradas deste blogue.

Onde fui buscar, então, o Huckleberry Friend? À belíssima letra de Moon river, a canção de Henry Mancini (música) e Johnny Mercer (letra) que inaugurou, quase por acaso, o codornizes. E que já cá apareceu outras quatro vezes. Já carregaram nos quatro links? Então ouçam e vejam uma sexta versão ao sexto mês. É das mais bonitas. Conduziu-me a ela um precioso blogue e foi por isso que decidi elevá-la a hino deste ninho.


Audrey Hepburn, Moon river (do filme Breakfast at Tiffany's)

Henry Mancini afirmou, um dia, que Moon river fora escrito para Audrey Hepburn: "Nunca houve ninguém que a percebesse de forma tão completa. Há mais de mil versões desta canção, mas a dela é inquestionavelmente a maior". Tinha toda a razão. Quando Audrey morreu, a Tiffany's pôs uma enorme fotografia dela na montra, dizendo apenas "To our Huckleberry Friend" (obrigado pela dica, Teresa).

E porque há huckleberries em Moon river? Johnny Mercer explicou que, em miúdo, costumava ir apanhar huckleberries com os amigos, à beira do Mississípi (onde brincava, roubava e fumava Huckleberry Finn, reparo agora!). De onde a referência a este fruto silvestre num poema sobre sonhos, sonhadores, arco-íris, corações partidos e o muito mundo que há para ver.

Moon River, wider than a mile,
'm crossing you in style some day.
Oh, dream maker, you heart breaker,
wherever you're going I'm going your way.

Two drifters off to see the world.
There's such a lot of world to see.
We're after the same rainbow's end
waiting 'round the bend,
my huckleberry friend,
Moon River and me.

Não pude deixar de ir investigar que raio vinha a ser um huckleberry... é uma baga, ou melhor, são várias, pertencentes a dois géneros da família Ericaceae: Gaylussacia e Vaccinium (este é o que inclui o mirtilo). Dois géneros que se ramificam em mais de 40 espécies, com cores que vão do vermelho vivo ao azul-arroxeado quase preto.

Gaylussacia brachycera


Gaylussacia baccata


Gaylussacia dumosa


Vaccinium parvifolium

Vaccinium uliginosum

Ao contrário do que possa parecer, não são groselhas nem mirtilos. Não sei como chamar-lhes em português. Vi huckleberry traduzido por baga de murta, uva-do-monte e fruta-do-lobo. Mas não me importa o nome: quero provar esta fruta. Vai-me saber, estou certo, às coisas boas da vida, e será o equivalente sápido ao som de Moon river, ao prazer de escrever e receber visitas neste blogue, à elegância de Audrey Hepburn, à beleza de quem amo, ao futuro que nos espera para lá da curva do rio.

segunda-feira, 31 de março de 2008

Um aceno

Pablo Picasso, Les mains liées

Algures no mundo, algures no tempo, uma mão acena. Desembaraçada, vence o atrito do ar líquido que lhe aquece os dedos. Fabrica ondas concêntricas que, na borda do micro-oceano em que somos convidados a mergulhar, salpicam os olhos de quem pára, deslumbrado, a observar todo aquele movimento.


António Pinho Vargas, As mãos (piano solo)

quarta-feira, 26 de março de 2008

Quando o coração bate mais forte


José González, Heartbeats


Música para ouvir e poesia para ler, ou vice-versa, num dia especial. Não por se tratar do Dia Mundial de Qualquer Coisa (hipótese não descartável, porque quase todos o são), mas porque hoje o coração bate com mais força, com maior intensidade, a um ritmo alucinante. Estonteante. Esgotante. Que ninguém apanha.


Pulsação da treva, de António Gedeão

Fundiu-se a roda do Sol
entre os cedros afilados.
Desfez-se em azuis rosados,
tinturas de tornesol.

Agora, solenemente,
como um corpo que se enterra,
ao som de um sino plangente
desce a noite sobre a terra.

Campânula asfixiante.
Circula um terror nas veias.
Zumbem estrelas em colmeias
num céu alheio e distante.

Numa dormência de cova,
suspensa em leite de Lua,
toda a vida se renova
e a guerra continua.

Nas marés do protoplasma
flui, reflui, perene e forte.
Espreita as pegadas da morte,
persegue-a como um fantasma.

Cega e surda, impenetrável,
lateja, na treva urdida,
essa coisa inevitável
que é a vida.


NOTA: Imagens retiradas da Anatomia de Gray (com a e não com e, que é como quem diz do lendário calhamaço e não da simpática série televisiva)

sexta-feira, 14 de março de 2008

Apetece dizer uma palavra

Mary Ellen Solt, White rose



Gilbert Bécaud, L'important c'est la rose

Apetece dizer uma palavra misteriosa
apetece dizer uma palavra
pode ser a incognoscível palavra rosa
ou a terrível palavra abracadabra
apetece dizer uma palavra lavra lavra.
Pode ser a palavra pa
pode ser a palavra pala
pode ser
pode ser apenas a palavra
Manuel Alegre, Uma palavra (de Senhora das tempestades)

quinta-feira, 13 de março de 2008

Noites longas

Conversas pela madrugada dentro, à volta de vinhos do Douro e após repasto a cheirar a Índia, com idas esporádicas à janela para fumar uma cigarrilha, lembraram-me esta quadra.

O vinho dá-te o calor que não tens;
suaviza o jugo do passado e te alivia
das brumas do futuro; inunda-te de luz
e te liberta desta prisão.

Omar Khayyam, Rubayat

quinta-feira, 6 de março de 2008

Sulcos em catadupa


… et les talus de gauche tiennent dans leur ombre violette les mille rapides ornières de la route humide. Défilé de féeries.
Jean-Arthur Rimbaud, Ornières (de Illuminations)

…e à esquerda os taludes guardam na sua sombra violeta os mil rápidos sulcos da estrada húmida. Desfile de maravilhas.
Sulcos (de Iluminações, tradução de Mário Cesariny)

…e as escarpas de esquerda resguardam na sua sombra violeta os milhentos sulcos de rodados da estrada húmida. Parada de irrealidades feéricas.
Sulcos de rodados (de O rapaz raro – poemas e iluminações,
tradução de Maria Gabriela Llansol)


sulco a areia que sitia as cidades para trás abandonadas
Al Berto, Morte de Rimbaud (de Horto de Incêndio)

nas areias do açúcar mascavado / do amor desenganado
Sérgio Godinho, Lamento de Rimbaud (de Domingo no Mundo)

Nota: Tirei a foto no Toxofal de Baixo

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Blogues à quinta (XI)

Ofício diário

O que se pode esperar de um blogue cujo mote é "O poema de cada dia nos dai hoje"? Poesia, pois claro! A de Torquato da Luz vai aparecendo a um ritmo pouco menos que diário, e ainda bem: sabe bem ao visitante quotidiano reler duas, três vezes as suas composições. Tantas as leituras quantos os dias de intervalo e as mudanças de ventos e estados de espírito. Além do gostinho que há na incógnita de clicar para ver se o próximo já lá está.

São poemas depurados, raramente longos - e para quê, se lemos e está tudo ali? O amor, o tempo, a importância do pormenor, o não nos deixarmos estar... e muita, muita Lisboa. Palavras que quase vemos, sentimentos que se nos transmitem por osmose ou recordação, mesmo antes de olharmos para as fotografias e pinturas que acompanham cada entrada. E é tudo da autoria do mesmo homem, caramba! Visitem, pois o blogue (atenção aos comentários e à assídua resposta do poeta) ou então procurem o livro homónimo.

Passando em revista os últimos ofícios, temos, entre outros, uma madrugada de amendoeiras em flor, um desafio bem agarrado, o esquecimento como fatalidade, um esgar que doeu e a vertigem da espera que o amor causa. Fiquemos, pois, na vertigem de esperar o próximo poema de Torquato da Luz.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Mil rosas ou nem isso...

Dai-me rosas e lírios,
Dai-me flores, muitas flores
Quaisquer flores,
logo que sejam muitas...
Não, nem sequer muitas flores,
Falai-me apenas

Em me dardes muitas flores
Nem isso... Escutai-me apenas
pacientemente [quando vos peço]
Que me deis flores...
Sejam essas as flores que me deis...
[...]
Álvaro de Campos

La Oreja de Van Gogh, Rosas

NOTA: À Pat, que nunca se esquece deste primo, que tem o bom gosto de gostar de La Oreja de Van Gogh e, sobretudo, que sabe dar a volta por cima. Um beijinho!

domingo, 9 de dezembro de 2007

Há-de vir um Natal

Ladainha dos póstumos Natais

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito

David Mourão-Ferreira, in Cancioneiro de Natal