Faltam nas fotos a sopa de coentros com amêijoa, os mergulhos, as sardinhas de escabeche, os velhos amigos, os gelados, as gargalhadas, as conquilhas, os beijinhos, as morcelas, a música francesa, os queijos, as barrigas, o vinho verde e o tinto, os suspiros, as bruschettas, os protestos, os doces regionais, os mapas, a pasta de chouriço, o cansaço, os pâtés, o descanso.
Lá longe Inventei o dia azul E o desejo de partir Pelo prazer de chegar Ao sul
...para eu ir para aqui! Virgínia Barros, Praia da Luz
Mas sobram muitos mais dias para visitar a exposição de pintura Seasons come, seasons go, desta artista que é minha Tia. É no ESCA - Espaço para a Saúde da Criança e do Adolescente, Alameda D. Afonso Henriques, n.º9 - 4.º Dt.º, em Lisboa. Recomendo!
Quantas cores será possível divisar neste mar chão? Quantas nos veios da montanha cuja erosão acompanhamos, ano após ano, nos passeios até à Rocha Negra, como quem se espanta com o crescimento de uma criança ou de uma palmeira? Quantas pedras tem a Calçada dos Gigantes que nessas andanças atravessamos, analisando o gume afiado das que caíram, perfeitamente paralelepipédicas, desde a última vez que por aqui passámos? Quantos sustos, quantas ondas, ao aventurarmo-nos por aqui na maré alta? Quantos caçadores de tesouros terá comido o Dragão que habita - e ouvimos - na Cova homónima? Quantos windsurfers e esquiadores? Quantos chapões? Quantos barquinhos vindos da Ponta da Piedade, quantos da Ponta da Gaivota e, para lá desta, quantos pôres-do-sol de quantos tons e temperaturas? Quantas toalhas perdi, quantos pares de chinelos? Quantos primos estarão connosco nestas férias? Quantos tios? Quantos engates na pista do Privé, ao balcão do Mirage ou através da sebe do jardim? Quantos poemas começados, quantos mostrados à Avó Gina, sentada a ver o mar? Quantas tâmaras caídas da palmeira grande, que já não está, quantas abelhas me picaram o pé por lhes ter pisado o doce manjar? Quantas formigas numa flor de hibisco? Quantas folhas da árvore da borracha, quantos picos nos cactos, quantas braçadeiras rotas pelo espigão de uma piteira? Quantas cerimónias de abertura e encerramento de Jogos Olímpicos, Europeus e Mundiais de Futebol? Quantas amizades efémeras ou não tanto? Quantas partidas de ténis no Luz Bay, quantas de snooker nos cafés atrás de casa, quantas de Trivial Pursuit até ser dia? Quantas discussões sobre quem vai despejar o lixo? Quantas lágrimas e zangas muito mais sérias? Quantas gargalhadas ao recordá-las no ano seguinte? Quantos trouxe cá pela primeira vez? Quantos quero me venham comigo até à última? Quantas horas (três, ainda?!) para o Baptista abrir, que os miúdos já acordaram e alguém tem de ir ao pão? Quantos bolos quentes depois da noite? Quantos "repimpas" comprados na loja da praia, quantas pulseiras fanadas das banquinhas, quantos barcos a remos que não duravam mais de um Verão? Quantos filmes da tanga no cine-estúdio? Quantas doses de cogumelos no Golfinho, quantas churrascadas com a mestria assegurada do Pai, quantos jantares nas várias casas do nosso "comboio", por vezes com o mesmo elenco? Quantos mergulhos à socapa na piscina do senhor Simão? Quantos peixinhos no anzol do Zé Pedro? Quantas conversas com a Maria? Quantos habitantes na cidade em miniatura que o vento esculpiu na pedra? Quantas revistas cor-de-rosa no Capricho, quantos jantares na Concha ou no Poço (e nós a aguar, tomem lá uma nota e vão aos hambúrgueres)? Quantos peixes no mercado de Lagos? Quantas tartes de alfarroba? Quantas gotas de Otoceril, Sofia, que este ouvido dói cada vez mais? Quantos polvos na Baía dos ditos? Quantos anos mais, Dona Hermínia, já com mais de 80 e ainda tão lesta? Quantas amêijoas em Castelejo e mexilhões no velho Rocha Negra? Quantos filhos já, Dora? Quantos cocktails esquisitos trazidos pela Célia do Internacional? Quantos cães no pátio de baixo, de que o Leão e o Baco eram os mais lindos? Quantos bifes bêbados, quantos de nós? Quantos mergulhos no Poção? Quantos escaldões, quantos cremes no saco de praia da Mãe? Quantas palavras cruzadas, sudokus e kakuros? Quantas melodias no assobio do Baltazar, a regar a relva pela manhã? Quantas nos altifalantes da Fortaleza? Quantas nas cordas dos violinistas que actuam na Igreja? Quantas melgas mortas no tecto até podermos ir dormir? Quantas amonas? Quantas guitarradas? Quantos cabem na ilha insuflável? Quantos pés de escalracho no jardim, quantos nomes gravados na rocha amarela, quantos metros irão desta até à areia na nossa prainha, que ora há ora não há?
Vuelvo al Sur esta noite. Que saudades! O segundo voo pelo Garbe leva a codorniz a paragens mais movimentadas do que a Costa Vicentina: pairamos sobre a Praia da Falésia, que é o chapéu comum sob o qual arrumamos os vários pedaços do areal que vai de Vilamoura ao Barranco das Belharucas (Olhos d'Água já fica para lá das rochas). Une-os a fímbria de rocha vermelha que a todos bordeja: Rocha Baixinha, Tomates, Pine Cliffs, etc.
São quase dez quilómetros de passeio. Sabe bem vencê-los a pé - munido de leitura farta e, não raro, deixando a meio do caminho algum inocente que se prestou a acompanhar-me -, mas o voo de hoje tem a particularidade de ter sido mesmo feito por via aérea, no ano passado, quando este vosso amigo se estreou nas sensações do parasailing. Que maravilha, as gaivotas a passarem-nos por baixo, em silêncio, e não ouvirmos mais do que o vento!
Gosto mais da Praia da Falésia pelo acessório do que pela sua essência, que não chego a captar, tal é a miscelânea que por lá se instala no Verão. Seduzem-me os poufs dos bares, o elevador do Pine Cliffs, as bolas de Berlim, o instalarmo-nos com a maior lata nas espreguiçadeiras reservadas a clientes de hotel, um ou outro desporto aquático, caipirinhas disto e daquilo e a já referida caminhada, que me permite ignorar tudo o resto.
Prefiro a Falésia ao fim da tarde, depois de ter passado o dia noutras paragens. Assisto à debandada, ponho em dia as conversas e o bronze, tiro fotografias parvas, dou um mergulho e preparo o regresso a Vilamoura, também a pé. Esperam-me amigos para jantar, um concerto algures ou copos e ilíacos a chocalhar...
É este um Algarve descoberto há poucos anos e em tudo diferente daquele que aprendi a amar desde pequeno e que continua a ser o favorito (e do qual falarei outro dia). Vilamoura, a Falésia e os arrabaldes são um Algarve sem memórias de infância, com um valor diferente, não direi que menos importante. Este Algarve teve de me seduzir. E eu tive de encontrar nele tudo o que, à partida, me parecia que nunca ia haver. Mas há. E vejo, felizmente, que não sou o único a pensar assim.
Saudades do Algarve, muitas, da Praia da Luz de toda a vida à Vilamoura de amor recente, malgré soi-même. Ou melhor, de Sagres a Vila Real de Santo António, passando pela Costa Vicentina e por tudo o que ainda não conheço. Todos os anos, mais duas ou três praiazitas, aldeias ou xiringuitos descobertos como quem não quer a coisa. Pode ser de manhãzinha, só eu e uma pilha de jornais e revistas, ou em horários mais meigos e em melhor companhia.
O meu Algarve de miúdo - um dia falarei só dele - são agora vários, mas todos eles têm praias onde se pode andar à vontade no pino do Verão como no frio Inverno, sítios onde petiscar, fins de tarde ao ritmo do Martini a antecipar jantaradas sob as estrelas (ou empadas em frente à televisão) e noites que, com maior ou menor loucura etanomusical, acabam em areais ainda quentes para quem sabe meter a mão por baixo da camada que já arrefeceu.
Gosto do Algarve a um, a dois, ou a muitos. Em todas as estações. O voo de hoje é sobre Castelejo, porque me deu vontade de sentir as borboletas que me invadem a barriga ao descer de Vila do Bispo para a praia. Porque me lembrei de umas amêijoas regadas a vinho verde. Porque um dia, cedinho, fui ver o meu cunhado surfar. Por causa das fotos da Tia Bicas. Porque, porque, porque... porque tinha de escolher um dos meus cantinhos algarvios e foi neste que a codorniz se deteve!