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quinta-feira, 12 de novembro de 2009

O meu São Martinho foi assim



Tudo isto com gente de quem gosto.
A lenda do santo, a mensagem,
é mesmo essa: partilha.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Terra molhada


Às vezes a chuva é tão forte
Que a terra, de tão molhada,
Parece cheirar a morte.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Esse negócio de equinócio

Virgínia Cordeiro Barros, Outono (pastel)

Chamam a este tempo singular "queda da folha". É o fall dos americanos, estação de neuras que alguém fará o favor de dizer se são pós-estivais ou pré-invernais. Diz que é por agora que mais cabelo cai e mais gente se mata... mas chamam-lhe também Outono, que vem de autumnus, palavra latina cujo radical aut- se associa ao gótico aud-, ao saxão ōt-, ao inglês arcaico ēat-. Todos eles significam "próspero, rico e feliz".

Escolher o quê? A explosão de ocres que já aí anda e que um dia gostava de ver na Nova Inglaterra - tão do agrado da autora desta pintura e minha querida Tia - ou a vasta gama de cinzentos que vai anexando o céu? A primeira chuva é bálsamo purificador ou balde de água fria num corpo ainda rescendendo a sol de Verão? Será o maior recolhimento triste sintoma de menos luz ou ocasião para gozar compotas, cereais e vinho?

Dois consolos: a dialéctica não é estrita e nem sempre o ónus da escolha recai sobre nós. Se houve anos em que só a contragosto troquei o gelado de pau pela pêra-rocha e em que o abraço amigo de uma camisola me soube a asfixia, outros vivi - como o corrente - em que nem toda a força de vontade do mundo posta ao serviço de um absurdo desejo de estar triste o lograria.



Les cowboys fringants, Toune d'Automne


Anyway chu content que tu r'viennes
T'arrives en même temps qu'l'automne

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Últimos cartuchos

Ontem, numa estrada de ondas, um cheiro a maresia. Permaneceu depois de me ter metido terra adentro. Ocupou-me o nariz, feito um posseiro, até de manhã. Trago-o numa celebração do Verão já extrema-ungido.

Laurent Voulzy, Derniers baisers

Le soleil est plus pâle
Et nous n'irons plus danser
Crois-tu qu'après tout un hiver
Notre amour aura changé?

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

De Agosto a Novembro

In the garden, Autumn is, indeed the crowning glory of the year, bringing us the fruition of months of thought and care and toil. And at no season, safe perhaps in Daffodil time, do we get such superb colour effects as from August to November.
Rose G. Kingsley, The Autumn Garden, 1905

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Pinga, pinga, pinga chuvinha...


Mariza, Chuva

Ei-la, por fim, a impregnar a terra do cheiro que me faz abrir a janela do carro para inspirar fundo, indiferente às gotas grossas e ao frio, tentando senti-la nos olhos e na ponta do nariz, mas sem descurar o perigo de uma auto-estrada com piso-manteiga. Tinha saudades da chuva, de andar a fugir dela ou de escolher entregar-me ao seu duche, como fazíamos no liceu, de entrar em casa a patinhar o chão e de ensopar o patamar com o guarda-chuva, de vê-la da lareira, a diluir o contorno, o relevo e a textura das coisas. E os meus.
Esta noite não me chateou acordar com o ruído das bátegas na janela e, embora tenha trazido guarda-chuva, não o abri no curto trajecto entre carro e trabalho. Quis deixar que a chuva, a primeira deste Outono singular, me molhasse o rosto gelado e cansado, como na canção de Jorge Fernando que a Mariza canta ali em cima e que só posso dedicar a quem ma ensinou.
É esta a minha forma de lhe dar as boas-vindas, de mostrar respeito e reverência por uma Natureza de equilíbrios que nem sempre compreendemos, de agradecer o cinzento quase acastanhado do céu sobre as colinas do meu Oeste e o cinzento quase branco que assume sobre a linha de Cascais. Resgato um poema de há dez anos. Se não tenho medo da chuva, porquê ter medo de mim?

Grey sky
Days flowing by
Tomorrow is the same
Yesterday lost my name
Today I catch the train
That stops in every town
I'm sitting on my own
But really do not mind
And really do not care
For it will stop again
I'll meet you there
We'll bind

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Chanson pour la saison


Chegaram esta semana à nossa cozinha. Amarelos com uma ou outra mancha castanha (são biológicos), perfumaram a casa toda, cortesia do querido Henrique Borges (grande amigo, um de vários tios-avôs emprestados que tenho, madeirense de gema e responsável, entre outras proezas, pela ressurreição do Campo Pequeno). A somar-se à batata-doce que já estava na despensa, estes 30 quilos de marmelos vêm ratificar um Outono cuja chegada, por pouco convincente que pareça, já celebrámos aqui e ali.
A partir de amanhã, e porque há na blogosfera e na vida sintonias que valem a pena, começa a metamorfose destes frutos em doces variados. Marmelada, muita, mas também geleia e talvez doce de quartos, como fazia a Avó Gina. Passar uma tarde à roda do tacho, à procura do ponto, fazendo da colher de pau varinha mágica, numa alquimia de cheiros e texturas que evocam passados e futuros, é um de vários rituais que a estação não dispensa. Mesmo que dispense, por agora, a chuva e o vento que também não tardarão.
Venha, então, o som. Para dar continuidade a um ricochete que esta codorniz fez num certo cais, respondamos a Les feuilles mortes e Autumn leaves, faces da mesma moeda, com uma homenagem que Serge Gainsbourg fez aos autores dessa música formidável, Jacques Prévert e Joseph Kosma. Chama-se, precisamente, La chanson de Prévert, e dedico-a ao meu pai, que um dia me ofereceu quatro discos só com versões dessas folhas mortas que me apaixonam.



Serge Gainsbourg, La chanson de Prévert

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Porque não deixa de ser Outono


Yves Montand, Les feuilles mortes

E para que as pequenas primaveras, verões e invernos da vida não nos façam esquecer que for everything there is a season, cá vai uma música, que aproveito para homenagear Yves Montand e muitos outros. Uns aparecem no filme, outros não...

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Primavera outonal

Um fruto irrompe, este Outono, do limoeiro da minha mãe. O sol dá-lhe as boas-vindas e comovo-me. Há quem chame a esta altura do ano a queda da folha (fall, como se diz em americano), e com razão; não assim este ano. O Verão, o verdadeiro, o que alguns dizem que não houve, parece, desta vez, querer estender-se até ao seu erszatz de São Martinho. Esse, que costuma servir apenas para nos consolar da humidade, do frio e do luto outonais, talvez se transforme num apogeu apolíneo. Tudo porque algures entre o fim datado desse Verão instituído e o dia em que escrevo, um limão nasceu, um sol decidiu não se render, o tempo das queimadas e da morte deu lugar a uma quasi-Primavera fecunda. I feel good...