Maria Helena Vieira da Silva, Biblioteca em fogo
Às vezes penso que os livros passeiam lá por casa quando não estamos. Do braço do sofá, onde os deixou a preguiça, para a bancada da cozinha. Talvez à procura de almoço. Da mesa de cabeceira, onde se eternizam depois de lidos, para cima da cómoda. Porventura desejosos de escaparem às quatro paredes do quarto. Da mala de tiracolo pendurada no cabide da entrada, onde viajaram todo o dia, quiçá sem serem abertos, para a borda do lavatório. Aflições, compreende-se.
Quantas vezes me acontece procurá-los onde sei que os deixei, onde tenho a certeza de os ter visto, para descobrir que só me espera o desengano... sumiram, foram ao parapeito da janela ver que tempo faz ou adormeceram no chão enquanto decidiam o itinerário do dia. Só muito raramente estão inocentes, por exemplo, quando os levou a cara-metade (sucede, por vezes, estarmos a ler o mesmo livro, gerando-se confusões de exemplares).
O que nunca fazem os bons dos livros é voltar pelo próprio pé à ao lugar que lhes coube na (des)organização do escritório. Ou da sala ou da cozinha ou do quarto de trás, que isto de ter livros em todas as divisões foi uma escolha. O que não foi uma escolha foi caber-lhes a eles a decisão de pousarem aqui ou acolá, conforme os humores.
Não me incomoda, na verdade, a insubordinação livresca. Acho graça a este deambular, diverte-me imaginar como se deslocarão - se batendo páginas, num voo ruidoso, se rastejando escada acima, se empilhando-se uns para ajudar os outros a escalar obstáculos - e tudo isto tem a vantagem de haver sempre um livro à mão de semear. Para ser totalmente franco, até suspeito que o cheiro agradável que às vezes sinto ao entrar em casa, e que nunca consegui nomear, é o das palavras, frases e versos que estes amotinados não evitam, no seu entusiasmo, deixar escapar.