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quinta-feira, 21 de maio de 2009

...e não segura!

Radiografia de fractura em ramo-verde



Descalça vai para a fonte
Lianor pela verdura

Luís de Camões, Descalça vai para a fonte

'You may certainly ask to be forgiven', said Elinor,
'because you have offended'

Jane Austen, Sense and sensibility

Fuge, fuge, Leonoreta.
Vai na brasa, de lambreta.

António Gedeão, Poema da auto-estrada

Waits at the window,
wearing the face that she keeps in a jar by the door
Who is it for?

Lennon/McCartney, Eleanor Rigby

Não na ver o Sol lhe val,
Por não ter novo inimigo;
Mas ela corre perigo,
Se na fonte se vê tal;

Francisco Rodrigues Lobo, Cantiga Lionor

E nunca mais ninguém soube
A não ser a Leonor, da Alice
Aqui vai, Leonor
A foto dos meus dois filhos
Se reparares melhor
Têm pinta assim, sei lá
De matraquilhos

Sérgio Godinho, Alice no País dos Matraquilhos

quinta-feira, 27 de março de 2008

Livros irrequietos

Maria Helena Vieira da Silva, Biblioteca em fogo

Às vezes penso que os livros passeiam lá por casa quando não estamos. Do braço do sofá, onde os deixou a preguiça, para a bancada da cozinha. Talvez à procura de almoço. Da mesa de cabeceira, onde se eternizam depois de lidos, para cima da cómoda. Porventura desejosos de escaparem às quatro paredes do quarto. Da mala de tiracolo pendurada no cabide da entrada, onde viajaram todo o dia, quiçá sem serem abertos, para a borda do lavatório. Aflições, compreende-se.

Quantas vezes me acontece procurá-los onde sei que os deixei, onde tenho a certeza de os ter visto, para descobrir que só me espera o desengano... sumiram, foram ao parapeito da janela ver que tempo faz ou adormeceram no chão enquanto decidiam o itinerário do dia. Só muito raramente estão inocentes, por exemplo, quando os levou a cara-metade (sucede, por vezes, estarmos a ler o mesmo livro, gerando-se confusões de exemplares).

O que nunca fazem os bons dos livros é voltar pelo próprio pé à ao lugar que lhes coube na (des)organização do escritório. Ou da sala ou da cozinha ou do quarto de trás, que isto de ter livros em todas as divisões foi uma escolha. O que não foi uma escolha foi caber-lhes a eles a decisão de pousarem aqui ou acolá, conforme os humores.

Não me incomoda, na verdade, a insubordinação livresca. Acho graça a este deambular, diverte-me imaginar como se deslocarão - se batendo páginas, num voo ruidoso, se rastejando escada acima, se empilhando-se uns para ajudar os outros a escalar obstáculos - e tudo isto tem a vantagem de haver sempre um livro à mão de semear. Para ser totalmente franco, até suspeito que o cheiro agradável que às vezes sinto ao entrar em casa, e que nunca consegui nomear, é o das palavras, frases e versos que estes amotinados não evitam, no seu entusiasmo, deixar escapar.

terça-feira, 4 de março de 2008

No porto de Amesterdão

Recentes trocas de comentários neste blogue encheram-me de saudades de Amesterdão, onde perguntei à minha mãe, aos 8 anos, o que é que aquelas senhoras estavam a fazer nas montras... por falta de tempo, não me alongarei hoje em recordações das vezes que ali fui: eis duas versões de um clássico sobre aquela cidade, que é também título de um belo romance de Ian McEwan.


Jacques Brel, Amsterdam


David Bowie, In the port of Amsterdam

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Toda a gente

Keith Haring, Tuttomondo

She need not judge. There need not have to be a moral. She need only show separate minds, as alive as her own, struggling with the idea that other minds were equally alive. It wasn't only wickedness and scheming that made people unhappy, it was confusion and misunderstanding; above all, it was the failure to grasp the simple truth that other people are as real as you.
Ian McEwan, Atonement

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

O urso com música na barriga

O urso Paddington, figura pela qual ganhei carinho nos meses oxfordianos (ui, how posh!), espelha nesta entrada a minha satisfação por ter recebido um presente. Não veio da blogosfera, foi-me dado só a mim, entregue por um pombo-correio arisco. Não preciso de dizer o que é nem quem mo deu, apenas que gostei. É bom receber presentes. É bom dá-los. Que o faça quem tiver quem amar. E, já que abrimos com um urso, fechemos com outro, sonoro. Esta música lembra-me um livro que adorei quando era miúdo: O urso com música na barriga, de Erico Veríssimo.

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Página 161, desta vez em lume brando

Descubro com 15 dias de atraso que não foi só a Ana a acorrentar-me à deliciosa cadeia da página 161, a que aderi com gosto... já antes dela Manuel Alberto Valente, d'A Origem das Espécies, me lançara o repto.

Não vejo motivo para não repetir a dose, por isso cá vai...

As regras são:
1. Pegue no livro mais próximo, com mais de 161 páginas – implica acaso e não escolha.
2. Abra o livro na página 161.
3. Na referida página procure a 5.ª frase completa.
4. Transcreva na íntegra para o seu blogue a frase encontrada.
5. Passe o desafio a cinco blogueiros.

Não me veio parar à mão um romance nem um livro de poesia, antes Na cozinha com Jamie Oliver. O resultado é este:

Deixe levantar fervura, ponha a tampa e cozinhe em lume brando durante cerca de 1 1/2 horas, até estar macio

Querem melhor para o fim-de-semana? Ainda por cima com direito a escolher os ingredientes... a mim, já agora, cabe-me escolher os próximos contemplados deste movimento: a comadre Floppy, o Pedro José, o poeta Vieira Calado, a artística e musical Mateso e alguém do meu querido Palavras da Tribo. Bom fim-de-semana e obrigado a quem tiver sido o 3000.º visitante do codornizes!

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

O serão de Eugénia na página 161

A Ana, que se arrisca a ser promovida a tema do dia neste blogue, fez-me um desafio através da sua long and winding door. Aceitei, pelo que o codornizes passa a fazer parte da corrente "Página 161". Eis o modus operandi:

1. Pegue no livro mais próximo, com mais de 161 páginas – implica acaso e não escolha.
2. Abra o livro na página 161.
3. Na referida página procure a 5.ª frase completa.
4. Transcreva na íntegra para o seu blogue a frase encontrada.
5. Passe o desafio a cinco bloguistas.

O livro, no meu caso, é O segredo da bastarda, da luso-argentina Cristina Norton. Não se espantará quem me conhece se disser que a coisa não podia correr bem à primeira: a página 161 é um minúsculo capítulo com apenas três frases... sigo o exemplo da desafiadora e vou à página par que ladeia a que seria primeira escolha (a 160, prossigo, perspicaz). E a frase é:


A primeira coisa que Eugénia fez ao regressar à cidade foi ir ao palácio do Bomsucesso beijar a mão ao pai; uma hora depois começaram a aparecer os restantes membros da família, avisados pelos criados da chegada da irmã, e a tarde prolongou-se num serão como os de sempre, onde se misturaram novidades com lembranças dos tempos em que eram crianças e o riso se tornou fácil, contagiante.


Apesar dos muitos caracteres, penso que tive sorte. A frase é bonita e creio que todos reconhecerão no serão de Eugénia dias passados em família, há mais ou menos tempo, com mais ou menos beija-mão, com maior ou menor saudade.


Os próximos a pegar na batata quente serão, caso aceitem:

1. O meu cais, da precious Sofia
2. O espaço azul entre as nuvens, do Mário Cordeiro, que até é meu pai
3. Ao vento, da minha prima CVD
4. La Fragua, de mi amigo Toño que está en Madrid
5. O mito do celofane, da M., que tem andado desaparecida